Urubu

Há um preço para aqueles que voam alto.

Lá em baixo vejo os leões caçando as gazelas, as abelhas pousando nas flores, os lobos uivando para seus irmãos. A areia, as folhas e todas as pequenas coisas que voam, todas dançam conforme a música do vento. Há interação entre tudo e todos.

Há uma rede de sentimentos que mantém o mundo girando, e que age sobre cada uma das criaturas que andam na superfície da terra. A rede é a fonte que alimenta cada um com seus respectivos instintos. Os medos, prazeres, raivas, alegrias, amores e ódios, são todos causados por interações entre o si e os outros, e essas são as forças que movem cada peça do tabuleiro em um jogo completo e infinito.

E aqui, acima de todas as coisas, acima até da chuva e das tempestades, eu voo sozinho, tão distante dos outros animais. Aqui não há predadores pra me por medo, nem rivais pra me por ódio. Não há comida pra me encher de prazer, ou irmãos para amar. Tão alto é o meu voo, que a rede não me alcança. Não há nada que me ponha sentimentos, não há nada para sentir além do vento que bate sob minhas asas.

Do meu ponto de vista, vê-se o mundo inteiro, todas as peças que interagem entre si e se completam, em um jogo do qual eu não faço parte. Eu os invejo. Invejo até a mais insignificante das criaturas da terra, pois sua visão é tão pequena quanto seu tamanho, e em seus pequenos mundos, são grandes.

E eu. Eu não sou ninguém. Nada além de um ponto solitário no céu.

Uma vez ou outra uma das minhas penas negras se soltam do meu corpo, e eu as observo atentamente enquanto dançam em direção ao chão, e quão felizes elas aparentam estar. Felizes em não mais fazerem parte da minha solidão, ansiosas para se integrarem ao mundo.

Elas nunca voltam a mim, e eu não as culpo, apenas me despeço.