Da ausência

O Peregrino, 1966. René Magritte.

​Um dia ele não veio mais. Havia ainda ecos dos seus passos na escada, como ainda havia o clique-claque da fechadura e os latidos do cachorro da vizinha anunciando a sua chegada. Mas ele não chegava. De tanto não chegar se demorava — ainda eu não sabia, ou não aceitava, que não mais viria –, que até o vira-latas que adotamos juntos cansou de esperar no vão da porta. Eu, não. Sorvia um chá fraco e enfumaçado, tragava nicotina com saudade, escutava um Mombojó mal-ajambrado; e esperava. Hoje passou e ele não veio, amanhã também passou e ele nada. Eu, que ri dos contos de fada; eu, que escarneci da cabrocha enamorada; eu, que Julieta, que bobajada! Esperava.

Que amor é esse, que desassossega, que angustia a pessoa amada? Que amor é esse, que não espera, que não sabe o caminho de casa?

Um dia, dormi. Lavei a xícara, joguei fora o último cinzeiro, percebi que Mombojó não trazia melancolia, mas tédio. Joguei fora. O cachorro só não foi também, porque esquentava meus pés nas noites frias. Acabo de vê-lo, passa por mim como se tivesse voltado, sorri carinhoso, como se fosse sábado. Olho nos seus olhos, mostro que o vejo e viro a cara. Quem não me dá palavra não merece a minha tara.

O espelho e a balança da farmácia batem palmas.

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