O nepotismo santo 

Ou o santo nepotismo


Era um dia atípico na câmara de vereadores da cidadezinha de Guaraparina do Sul. Discutia-se mais um caso de corrupção, e tal como Brasília, toda a imprensa cobria o fato. Em proporções menores é claro. Nas ruas não se comentava outra coisa:

- Nossa, vocês viram Zé das Flores? De santo não tem nada, parece que até o cunhado está empregado na prefeitura. — dizia dona Filomena indignada.

- Ah, mas aí não tem problema, cunhado não é parente. — argumentava Antônio, dono da mercearia.

O fato é que quase todos os vereadores tinham parentes, de todos os graus, empregados na prefeitura e em outras autarquias municipais. À exceção de Dr. Anteu. Vereador mais velho da cidade, e com mais mandatos consecutivos (um recorde quase mundial), Dr. Anteu tinha quase todos os parentes falecidos. Os filhos e netos moravam na capital.

O escândalo estourou na imprensa local. Com destaque para a matéria do Diário Guaraparinense do Sul, que estampava em sua edição de domingo: “O povo guaraparinense do sul está em choque com o nepotismo na prefeitura”. Não pegou bem. A prefeitura cortou a assinatura para seus funcionários, ou seja, metade da cidade parou de receber o diário, o que abalou profundamente a situação financeira do jornal. O prefeito foi ao jornal concorrente, o tradicional Tribuna Guaraparinense do Sul: “Cortarei na própria carne. Não restará pedra sobre pedra, ou cargo sobre cargo. Quem tiver que ser punido será nos rigores da lei, ou não me chamo Orlando!”.

Naquele dia pairava na cidade um clima de copa do mundo. Com direito a torcida a favor e contra, jornalistas da capital e muita confusão na porta da câmara. Um a um iam entrando os vereadores sendo ovacionados ou achincalhados na mesma intensidade. Babões de todas as colorações gritavam de um lado: “força Mané do Bode!” ou “Isso é intriga dessa oposição canalha” ou ainda “se pegue no coração de Jesus Mané, eles não vão te derrubar!”. Do lado oposto da rua gritavam os oposicionistas: “João Galinha pode esperar, a sua hora vai chegar” ou como os mais incendiários gostavam “quando vocês entrarem vamos murar e vai virar presídio!”

Quando iniciou a sessão especial para discutir o caso, os vereadores assumiram posturas distintas. Houve quem, assim como Dr. Anteu, tomasse para si o papel de acusador com sede de justiça:

- Os senhores não tem pena da situação que vive o povo guaraparinense? Não acham que é demais empregar todos os seus parentes quando a maioria do povo passa necessidade?

- Mas Dr. Anteu, os parentes dos vereadores não são povo também? — retrucava um vereador com apenas uns três mandatos.

- Não interessa. A lei diz que é preciso concurso público para a contratação de funcionários para a prefeitura! — disse um indignado Dr. Anteu — vocês estão me lembrando a legislatura de 1952! Eu me envergonho de fazer parte dessa legislatura!

- Mas o senhor fez parte de todas Dr. Anteu — alertou o mesmo vereador.

- Não interessa! — bradou Dr. Anteu.

Outros, mais comedidos e com mais culpa no cartório se esforçavam por colocar panos quentes:

- Não estou vendo nenhum caso de nepotismo aqui — ao que gritavam das galerias “abre o olho Mané!” — apenas a proeminência e o protagonismo das famílias mais bem posicionadas de nossa cidade. — falou Mané do Bode.

- A sociedade não percebe que está sendo usada pelos comunistas? — berrava Pedro de Noca — Querem acabar com a família! Querem acabar com a igreja! Isso é tudo armação desses comunistas!

Mas coube a Genário das Canecas a última palavra. O discurso que colocou uma pedra sobre o assunto e esclareceu a todos:

- Nobres colegas e sociedade guaraparinense do sul, o que vemos aqui é nepotismo sim! E da melhor qualidade de nepotismo! Porque não seria? — disse eloquentemente seu Genário como era conhecido. — mas saibam que não estamos sozinhos. Porque todos esses cargos que nossos familiares queridos ocupam são de extrema responsabilidade e confiança, e não podíamos colocar qualquer um.

- Para que esse arroubo de sinceridade Genário, você quer ver a gente ser linchado homem? — sussurrava entredentes Mané do Bode.

- Não caríssimo Manoel Apolinário. Trata-se exatamente do contrário, nós estávamos apenas seguindo o exemplo de Deus pai todo-poderoso.

- Pela ordem!! Não é permitido blasfemar, é? — perguntava o pastor Arnaldo

- Qual era o trabalho que Deus tinha para fazer depois de tantos anos de pecado e sodomias feitas pelos homens nesta terra? Não era salvar o mundo? Pois bem, Deus fez algum concurso público entre os anjos para escolher quem faria esta tarefa? Por algum acaso houve uma competição para saber quem era o mais capacitado para a função? — aumentava a voz gravemente o solene vereador — não, meu povo de Guaraparina do Sul! Deus enviou o seu filho porque era alguém em quem ele podia confiar que o trabalho seria feito! Alguém seria capaz de julgar deus por essa escolha? Acaso o senhor Jesus Cristo não cumpriu com a função de forma satisfatória?

Até hoje, ninguém, em Guaraparina do Sul, ousou responder essas perguntas de Genário das Canecas. Dizem, inclusive que o deuspotismo passou a ser lei na constituição municipal, aprovado em cartório e tendo como testemunhas um pastor e um padre.

Email me when Yuri Pires publishes or recommends stories