Beyoncé e o papel do pop

A música pop pode dar a ilusão que seus artistas, justamente pelo fato de serem muito populares, são os melhores, os mais inovadores, ou os mais criativos do mundo da música. Isso, claro, não é sempre verdade — os artistas pop, sendo talentosos ou não, são pop porque são apadrinhados pelas grandes gravadoras, que possuem dinheiro o suficiente para fazê-los alcançarem grandes públicos. Acontece a mesma coisa com o Oscar nos filmes: os filmes que são indicados pela Academia ganham automaticamente uma aura de que são os melhores do mundo, quando na verdade apenas representam o universo de Hollywood. Porém o pop, assim como o Oscar, possui uma função especial: mostrar para nós o que foi e o que não foi absorvido pelo mainstream. Atingindo bilhões de pessoas com as suas músicas, ele serve como um termômetro para entendermos quais são os assuntos estão sendo mais debatidos pela população.

Um bom exemplo disso é a luta por direitos do povo negro dos Estados Unidos. Provocada dentre outros fatores pelo aumento da violência policial contra jovens negros dos últimos anos, os EUA passam por uma época de maior consciência social, desde a década de 1960 de Martin Luther King (segundo a opinião de Quentin Tarantino) não se falando tanto e de forma tão aberta sobre white priviliege e racismo institucionalizado. O tema ganhou uma visibilidade ainda maior quando Beyoncé lançou, dia 6 de fevereiro, o clipe de Formation, que, com suas milhões de visualizações, trouxe um maior alcance para a causa:

O curioso é que, muito antes de Beyoncé lançar o vídeo acima, sempre houveram muitos artistas que abordaram a causa com muita energia e entusiasmo, como por exemplo Killer Mike ou Janelle Monáe, que atuam desde a década passada com mensagens consistentes contra o racismo, denunciando a sua presença nas instituições e cultura norte americanas. A diferença, porém, é que os dois, com suas canções que muitas vezes passam longe do pop, possuem muito menos visibilidade do que a Beyoncé.

Videoclipe da música Reagan, de Killer Mike, com conteúdo muito politizado.

Vídeo de 2008 em que Janelle Moáe se posiciona a favor do então canditato à presidência Barack Obama.

Ao longo da década de 2000 (e o início de 2010), as mensagens de Killer Mike e Janelle Monàe eram ouvidas, porém ficavam restritas à um público especializado, muito mais receptivo a esse tipo de conteúdo. O público alternativo deles tem muito mais abertura para receber esse tipo de mensagem do que o cidadão de classe média branco dos Estados Unidos, que não é atingido pela música dos dois, mas é frequentemente exposto aos videoclipes e performances de Beyoncé. O mainstream formado pelo grosso da sociedade norte americana pode muitas vezes nem saber quem é Killer Mike, mas com certeza sabe quem é Beyoncé. É por isso que quando ela lançou o videoclipe de Formation ela não foi necessariamente original, mas sim corajosa o suficiente para usar de sua relevância e popularidade para atingir um público muito menos acostumado com mudanças do que os fãs de Killer Mike e Janelle Monáe.

É por isso que tanta gente está falando tão bem de Formation — como o site Digital Trends, que afirmou que o vídeo é um dos mais importantes dessa década.

Quando Beyoncé cantou a música no intervalo do Superbowl, ela não só foi assistida por atuantes e simpatizantes do movimento de luta por direitos civis dos negros, mas também por gente muito conservadora, que também acompanha o campeonato nacional de futebol americano. E é claro — sua performance teve elementos que deixaram sua posição impossível de não ser relacionada com a causa. O uniforme de suas dançarinas são iguais aos utilizados por militantes dos Panteras Negras na década de 1960; a coreografia, em certos momentos, formava um X que remetia a Malcolm X; e a própria letra da música trazia palavras consideradas ainda hoje como tabus na sociedade norteamericana, como creole e negro. Isso tudo transmitido em um dos programas de maior audiência na televisão dos Estados Unidos.

Esse é o papel do pop: trazer para milhões e milhões de pessoas o que já estava sendo trabalhado há muito tempo pelas vanguardas. Se as reivindicações contra violência policial e racismo institucionalizado já chegaram na voz de Beyoncé, é porque elas estão um passo mais próximas de serem absorvidas pela sociedade: o assunto deixa de ser um tabu e passa a ser debatido com mais projeção e visibilidade tanto por aqueles que já o faziam por muito tempo quanto por pessoas que nunca se envolveram com a causa. Enquanto artistas alternativos não possuem destaque suficiente, Beyoncé e outros artistas pop trazem o debate para todos, e é por isso que eles são tão importantes.

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Originally published at orelhaatomica.wordpress.com on February 22, 2016.