O que o Oscar e O Menino e o Mundo nos mostram sobre o rap nacional

Falar que o Oscar não significa nada é um erro pois, apesar de muitas vezes ser um jogo de cartas marcadas, ele ilumina com seu grande alcance de público e mídia questões que antes podem ter nos passado despercebidas. Ele serve, também, como um termômetro daquilo que ganhou relevância no mundo mainstream holywoodiano. E, se por um lado, existem filmes que já são criados especificamente para isso — com orçamentos milionários de produção e divulgação — e, desse jeito, não têm muito crédito por estarem debaixo dos holofotes e do burburinho da mídia, alguns outros possuem produção independente, de orçamento e divulgação limitados, e mesmo assim conseguem ganhar a atenção de Hollywood. É o caso do longa O Menino e o Mundo, dirigido por Alê Abreu, que foi indicado dia 14/01 ao Oscar de melhor animação. Possui uma música inédita de Emicida como trilha sonora, chamada Aos olhos de uma criança:

A indicação ao Oscar de O Menino e o Mundo traz à tona todo o processo de mudança pelo qual o rap nacional passou nas últimas décadas que teve florescimento a partir de 2010 com a popularização de nomes como Emicida, Criolo, Karol Conká, Ogi, Costa Gold, MC Flow, entre muitos outros. Traz à tona não só a maior popularidade do gênero (como a própria indicação ao prêmio nos mostra), mas também uma maior variedade do humor do rap. Se perguntássemos para um fã do gênero no final da década de 90 se ele imaginaria que um rap seria a música tema de uma filme de animação (com requintes infantis) indicado ao Oscar, com um videoclipe de divulgação animado e cheio de cores, ele certamente diria que não. Mas o que aconteceu na década de 90 para que o que vemos hoje com O Menino e o Mundo seja tão impensável?

Os anos 90 foram especiais para o rap no Brasil pois foi quando o movimento Gangsta foi criado por grupos como Facção Cetral e Racionais MCs. Suas músicas eram sombrias e suas letras eram agressivas, fazendo com que o rap brasileiro (e especialmente o paulistano, que foi de onde os dois grupos vieram) ficasse com uma personalidade forte e bastante característica. Essa linguagem tinha como principal conteúdo as lutas sociais do jovem negro morador de periferia, focando não em como ele deveria ser resgatado da pobreza (seja pelo governo ou pelas classes mais altas), mas como ele deveria lutar por melhores qualidades de vida ele mesmo. O resultado eram músicas sombrias e tensas, que moldaram a estética do gênero na época:

As mudanças tanto econômicas quanto de qualidade de vida que ocorreram a partir da virada do século e desenvolveram-se durante toda a década seguinte influenciaram, então, o humor do rap. A década de 2000 foi um período em que o gênero lidava com dois fatores antagônicos. Se, por um lado, a herança dos Racionais MCs era inegável, por outro, as coisas até que estavam melhorando. Isso acabou resultando em uma gradual mudança no estilo de abordar a crítica social. Surgiu o uso do humor, da piada e da ironia para falar que, apesar de não ter um abandono das denúncias de desigualdade social e racismo, houve um desprendimento da forte marca Gangsta dos anos 90. Isso começou, ao meu ver, no Rio de Janeiro com caras como Shawlin e De Leve (o último, inclusive, criando o chamado “Estilo Foda-se”, sendo bem mais escrachado que o primeiro), que junto com outros MCs formaram o grupo Quinto Andar, muito mais informal do que os Racionais:

em um texto muito interessante de 2014 publicado na Folha de S. Paulo (leia clicando aqui), no qual eles comparam os contextos sociais da década de 90 e os dias de hoje, e como isso influenciou o hip-hop. Lá, o MC Flow afirma: “Foi necessário ser mais agressivo nos anos 1990. Aqueles raps me salvaram. Fico feliz em ver um negro escrevendo uma letra feliz, mil temas que não poderiam ser escritos [antes] porque ele não teria nem direito a essa felicidade”. Se a década de 2000 foi um momento de transição, então, a partir de 2010 o que vemos é uma explosão de linguagens e abordagens diferentes norap. O hip-hop se tornou um campo aberto para experimentações com outros gêneros (como samba, rock ou funk, por exemplo) e outros humores, além de, claro, fazer mais sucesso, com artistas como Criolo e Emicida tendo aparições constantes em TV aberta.

É por isso que o fato de um rap emplacar como trilha tema de um filme indicado ao Oscar, ainda por cima uma animação, diz muito sobre a trajetória que o gênero trilhou. É uma constatação tanto da conquista do território hollywoodiano quanto de que o hip-hop encontrou formas diferentes de levar seu protesto ao público. E é importante salientar esse último ponto, para deixar claro que essa mudança de linguagem não implica numa alienação do gênero em relação à crítica social, e sim somente uma expansão de possibilidades de abordá-la. O mesmo Emicida que cantou em O Menino e o Mundo também lançou, no mesmo ano, o videoclipe para a música Boa Esperança, que mais parece algo que o Facção Central faria vinte anos atrás do que o sensível longa de animação:

O Menino e o Mundo trata de temas que são muito próximos daquilo que o rap cantava na década 90: a jornada de trabalho sufocante, superlotação das cidades, precariedade do transporte público e violência policial. Mas a forma com que isso chega aos olhos e ouvidos do público é muito diferente. A jornada que o menino do filme faz é colorida e cheia de felicidade em meio à aflição da trama. O fato de Emicida colaborar com o longa deixa claro que o rap nacional, apesar de continuar com sua costumeira crítica, está mais do que nunca incorporando elementos muito diferentes daquilo que um dia foi. Seja por meio do humor do Quinto Andar, seja por meio da perspectiva infantil de O Menino e o Mundo, o rap encontra novas formas de fazer sua mensagem chegar ao público.

Se O Menino e o Mundo ganhará o Oscar pouco importa para o hip-hop. O mais importante, o fato de uma mensagem tão crítica ter chegado em Hollywood por meio de um longa que tem rap brasileiro com trilha, já aconteceu. E isso mostra o quão popular e influente anda o rap nacional.