Simplificando o atoleiro econômico
Conceitos básicos de economia podem ser muito mais úteis para entender a crise que toda verborragia que a mídia diariamente despeja sobre nós.
O leitor por certo já deve ter percebido que basta pouquíssimo tempo para se deparar com notícias sobre a difícil situação econômica enfrentada por brasileiros de norte a sul. Provavelmente a manchete do jornal lido hoje pela manhã, uma das matérias de destaque no site de notícias visitado ou mesmo a chamada do telejornal matinal assistido antes de sair de casa faziam referência a assuntos como rombo na previdência, falência dos estados, falta de medicamentos em hospitais públicos, sucateamento das polícias, déficits e desvios. Notícias estas que nos trazem aquela sensação de déjà vu, como se fosse este um estado constante das coisas em que apenas as personagens são trocadas (bem pouco trocadas, diga-se de passagem).
Esse incômodo sentimento de familiaridade, vez ou outra, nos compele a tentar entender melhor o que se passa, “por que chegamos a este ponto? ”, talvez entender nos ajude a, enfim, quebrar este ciclo. E em meio à rotina, com todos nossos compromissos e preocupações percebemos o quão difícil é juntar todas as peças deste caótico quebra-cabeças. Precisamos de algum tempo para entender todos os gráficos, todas as siglas, saber quantas agências estão envolvidas, quantas regulamentações e impostos são relevantes para o caso, se há jurisprudência, se os dados são confiáveis, se a PF vai prender alguém, se o dólar vai cair ou se comprar bitcoin é uma boa ideia. Esta tarefa torna-se ainda mais complicada quando especialistas consultados pela mídia fazem o uso de dialetos como o economês, o juridiquês e o politiquês. É desanimador.
Em nosso tempo livre gostaríamos de fazer coisas mais interessantes, do que ler uma matéria sobre o déficit primário do segundo trimestre, como, por exemplo, assistir a uma maratona de Rocky (menos o Rocky V, esse dá pra pular) ou filmes do Clint Eastwood. Por isso é importante buscarmos formas mais simples de entender o que acontece ao nosso redor.
É tentador acreditar no ditado “o que você não sabe não pode te ferir”, no entanto nada poderia estar mais longe da verdade quando o assunto é economia. Entender a maior parte das questões econômicas discutidas na mídia é essencial para que possamos ter tranquilidade em nossos planos.
A boa notícia é que mesmo os modelos econométricos mais avançados, utilizados por banqueiros de terno escuro e com trejeitos verbais monótonos, calculados em programas de última geração, e mesmo as teorias mais sofisticadas desenvolvidas por pesquisadores de alguma universidade federal de renome estão (ou deveriam estar) sujeitos a princípios elementares da economia — quando modelos e teorias ignoram ou falham em considerar estes princípios o resultado costuma ser desastroso. E estes conceitos podem ser compreendidos com certa facilidade.
A proposta do presente artigo é que possamos dar um passo para trás, nos afastarmos da torrente de números, cifras e siglas, com os quais somos bombardeados diariamente, e tentarmos entender os fundamentos de uma economia e como ignorá-los nos trouxe ao lamaçal em que nos encontramos. Para isto focaremos em dois princípios elementares da economia na forma como foram explicados pelo brilhante economista americano Thomas Sowell no primeiro capítulo de sua obra “Basic Economics”.

De maneira simples podemos dizer que uma economia é um sistema de produção e distribuição dos bens e serviços que utilizamos em nosso dia a dia. Eis uma definição apropriada, porém incompleta. Se pensarmos no Jardim do Éden tal como descrito, o mesmo poderia ser encarado como um sistema de produção e distribuição de bens e serviços, porém não era uma economia, uma vez que que tudo estava disponível em quantidades ilimitadas, era só pegar! E é neste ponto em que introduzimos o primeiro conceito fundamental da economia: Escassez! Sem escassez não há necessidade de poupar, e, portanto, nem de decisões econômicas. A clássica definição de economia dada por Lionel Robbins permanece sendo a mais adequada:
“Economia é o estudo de recursos escassos que possuem usos alternativos”
Ou seja, economia é o estudo das escolhas que fazemos sobre como utilizar os recursos de que dispomos (terra, mão de obra, dinheiro, veículos, energia elétrica, etc.) levando em conta que eles não são infinitos. Estas escolhas são mais importantes do que a disponibilidade de recursos em si.
“E o que ‘escasso’ significa? Significa que todo mundo quer uma quantidade maior do que a que existe de algo. E isso implica em que não há soluções do tipo “vencer-vencer” facilmente, mas apenas sérios, e as vezes dolorosos trade-offs. Isto pode parecer algo simples, mas suas implicações são frequentemente, e grosseiramente, mal interpretadas, mesmo por pessoas altamente instruídas” [1]
Quando funcionários públicos e militares acreditam que devem ter suas altas aposentadorias protegidas, quando empresários fazem lobby no governo para obter crédito subsidiado via bancos estatais ou quando manifestantes fecham as ruas para exigir passe livre (?), todos eles estão ignorando que ao atender às suas demandas aqueles que tomam as decisões o farão em detrimento de outras demandas de outros setores da sociedade.
Ao serem confrontados acerca de seus planos para lidar com caos nas finanças dos estados, ou da união, políticos tendem a falar sobre as restrições orçamentárias, e mesmo assim poucos têm coragem em falar abertamente sobre cortes na estrutura governamental e nos projetos em andamento (dá bilhão?). Mas não é exatamente o orçamento que restringe a ação de governantes (ou a nossa), o que a restringe é, acima de tudo, a realidade. E a realidade é que nossos recursos são e sempre foram escassos. Escassez é a verdadeira restrição. A alocação de recursos em algum projeto implicará em menores aportes em outros (lógico, o governo pode sempre subir a alíquota de imposto de renda que você paga ou imprimir mais dinheiro, mas nenhuma das consequências destas alternativas está isenta dos efeitos da lei da escassez).
Agora que entendemos a escassez podemos falar de outro ponto de importância vital no entendimento de como uma economia funciona: Usos alternativos. Se cada recurso que conhecemos tivesse apenas uma única aplicação, nossa tarefa em organizar uma economia seria bastante facilitada. Infelizmente não é o caso. A água pode ser utilizada para produção de cerveja, na geração de energia ou na irrigação de plantações, a cana de açúcar poder produzir açúcar ou etanol, o minério de ferro pode ser utilizado na indústria automobilística ou para fabricação de rolamentos para spinners ou ainda na produção de trilhos.
Quanto de cada recurso deve ser atribuído a cada um dos seus muitos usos? Não existe resposta certa e perene, em dado momento o sistema de preços de um ambiente de trocas livres e espontâneas nos dirá a quantidade adequada de cada recurso que devemos empregar em cada atividade. Por isto mesmo é que é perigoso que tenhamos uma forma de organização institucional em que decisões econômicas possam ser altamente impactadas pela ação de uns poucos políticos. Toda a informação dispersa no mercado jamais poderia ser condensada e utilizada em tempo hábil por nossos policy makers.
Decisões políticas errôneas levam à decisões econômicas desastrosas, pois distorcem as informações que o mercado recebe e geram incertezas e riscos, e isto têm impacto em nossas vidas. O Brasil tem recursos hídricos que lhe conferem um enorme potencial energético e, no entanto, vimos em tempos recentes como a má gestão da regulamentação do setor elétrico nos impôs preços altíssimos, a despeito da larga oferta existente.
Se olharmos para o nosso vizinho Chile e o compararmos com a também vizinha Venezuela podemos entender como decisões políticas que ignorem preceitos econômicos básicos podem arruinar a economia de um país e levar sua população à pobreza. Embora a Venezuela disponha de uma abundância e diversidade de recursos em muito maior grau que o Chile, os chilenos gozam de uma qualidade de vida muito superior à dos venezuelanos.
Comparando o Brasil e Hong Kong: o primeiro é um país de proporções continentais e com o qual a natureza foi generosa, já Hong Kong é uma ilha de pedra, ocasionalmente acometida por tufões que resultam em inundações e deslizamentos de terra e este, ainda assim, possui um PIB per capita cinco vezes maior que o do Brasil. É evidente que decisões econômicas sobre aplicação e utilização de recursos são muito mais eficientes em promover aumento no padrão de vida de uma sociedade do que a simples existência de riquezas naturais em seu solo. Não adianta o petróleo ser “nosso” e a empresa que tem o monopólio do refino em solo nacional ter resultados desastrosos, desencadeando um caos no setor e levando centenas de empresas à bancarrota e milhares de indivíduos ao desemprego.
Por fim, a economia não trata exclusivamente, sequer principalmente, sobre dinheiro.
“O dinheiro não precisa sequer estar envolvido para tornar uma tomada de decisão em uma decisão econômica. Quando uma equipe médica militar chega em um campo de batalha onde os soldados têm uma variedade de feridas, eles são confrontados com o problema econômico clássico de alocação de recursos escassos que têm usos alternativos. Quase nunca há o suficiente de médicos, enfermeiros, ou paramédicos para atender a todos, nem há medicamentos o suficiente. Alguns dos feridos estão perto da morte e têm pouca chance de serem salvos, enquanto outros têm alguma chance, se receberem atendimento imediato, e outros ainda estão apenas ligeiramente feridos e provavelmente vão se recuperar quer recebam atendimento médico imediato ou não. Se a equipe médica não alocar seu tempo e medicamentos de forma eficiente, alguns soldados feridos morrerão desnecessariamente, enquanto o tempo está sendo gasto em assistência a outros que não necessitam de cuidados urgentes ou ainda outros cujas feridas são tão devastadoras que eles provavelmente vão morrer, apesar de tudo o que pode ser feito para eles. É um problema econômico, embora nem um centavo sequer muda de mãos. ” [2]
Tomar decisões deste tipo nos deixam extremamente incomodados, mas a realidade não se importa com nossos sentimentos e aspirações. A realidade nos apresenta as opções e cabe a nós sermos responsáveis e estarmos preparados para escolher as mais adequadas.
Lembremos sempre que se ignorarmos princípios elementares, como a escassez, permaneceremos no atoleiro econômico em que nos encontramos. O momento é de pensarmos seriamente nas consequências de promessas de salvadores da pátria e entendermos que não há soluções milagrosas.

[1] Sowell, Thomas. Basic Economics, 2000.
[2] Ibidem.
