A resistência negra na cultura brasileira (parte I)

Por Yuri Simeon

Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há
Um princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados em carros de boi
Foto: Reprodução

Esses versos descrevem um leilão de escravos, onde são ofertados à seus possíveis compradores, negras e negros, divididos em diversas etnias. A música Zumbi de Jorge Ben resgata com precisão e sutileza elementos que compõe o período histórico da escravidão negra no Brasil.

A escravidão negra no Brasil durou, desde o início do período colonial, até próximo ao fim do período imperial. Sendo institucionalmente prática no Brasil por quase 400 anos. A escravidão foi abolida com a Lei Áurea, mas seus reflexos se perpetuam pelos séculos seguintes.

História mal contada

Segundo a professora Ana Maria Mendes, coordenadora do Núcleo de Cultura Afro-brasileira (NUCAB) da Universidade de Sorocaba, o debate histórico sobre a escravidão negra no Brasil é pouco aprofundado na educação escolar. “Habitualmente se ensina de maneira rasa sobre a escravidão negra no Brasil. Mencionam três leis criadas nesses período, a Lei do Sexagenário, a Lei do Ventre Livre e a Lei Áurea. Mas existe pouco aprofundamento sobre o contexto em que essas leis são criadas e como elas interferem na vida da população escravizada”, explica.

De acordo com ela, a Lei do Sexagenário garante liberdade para o escravo a partir dos 60 anos, porém era praticamente impossível um escravo atingir essa idade. A Lei do Ventre Livre garantia liberdade para os filhos de escravos que nascessem após essa lei ser promulgada, porém a criança que nascia “livre” precisava trabalhar a partir dos seus 14 anos para pagar por “tudo que havia comido até ali”. Outra questão sobre a Lei do Ventre-Livre é que o dono de escravos podia entregar a criança para o orfanato, “a Lei do Ventre-Livre cria institucionalmente os orfanatos no Brasil”.

A Lei Áurea foi promulgada durante um processo de introdução de mão de obra branca no país, com políticas públicas articuladas com o grande fluxo de imigrantes europeus. Substituindo a mão de obra da população negra, até aquele período escrava, por essa branca. Não havendo para os negros possibilidades de ascensão diante de sua alforria, nem mesmo a possibilidade de se adquirir terra. “Esse povo todo ficou sem amparo, entregue ao destino. Muitos continuaram servindo para seus antigos senhores como única possibilidade de sobrevivência”, descreve Ana.

Sempre houve resistência

Reprodução/Fonte: cienciahoje.tumblr.com

Outra questão levantada por Mendes, é a ausência de relatos sobre a resistência da população negra durante a escravidão. “As revoltas urbanas foram muitas e foram intensas. Havia a luta constante para não ser escravo”, conta ela. O mais famoso núcleo de resistência foi o Quilombo dos Palmares, que abrigou milhares de pessoas, ex-escravos que fugiram ou foram resgatados de seus campos de trabalho.

O Quilombo de Palmares teve diversas lideranças, existindo por quase um século, e sendo constituído por sete cidadelas. Uma das razões de seu longo período de resistência, foi a avançada estratégia militar utilizada em sua organização. “A população negra trazida para o Brasil possuía conhecimentos avançados em engenharia, agricultura e táticas militares. Muito do que passou a ser utilizado no Brasil foi trazido da África. A África no período da escravidão já possuía um histórico de relações com a população asiática”, diz a professora.

De acordo com Ana, houve omissão histórica sobre a participação das mulheres negras na resistência contra a escravidão. “Dandara é destituída de importância tanto no Quilombo, quanto fora”. As mulheres africanas possuíam maior participação na vida econômica e política de suas comunidades. ” Isso pode ser analisado, por exemplo, em Congo e Angola, onde ainda hoje as mulheres são responsáveis por suas casas e existe a cultura da mulher ter grande espaço no comércio varejista, superando a presença dos homens”, relata.

Canto de revolta

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Como descreve a música “Canto das Três Raças”, de Clara Nunes, a população negra entoa, também através da cultura, um canto de revolta, de resistência da cultura de matriz africana. Na atualidade isso está presente no samba, no rap, na MPB e em outros diversos elementos do acervo musical brasileiro. Como descreve a professora Ana, “existe uma imbricação cultural”.

O músico Renato Moreira passou por dois grupos de rap, entre o final da adolescência e o início da vida adulta. Primeiro participou do grupo FV Coerente, com o qual conquistou visibilidade no espaço hip hop de Florianópolis. Depois compôs o grupo Imaginários. Porém após o lançamento de alguns CD’s e a conquista de importantes premiações, Renato decidiu se mudar para Tatuí e estudar música no conservatório da cidade. Onde permaneceu por cinco anos. “Me sentia limitado como músico, e fui para Tatuí estudar música”, diz.

Para ele a cultura afro-brasileira está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento dos estilos e técnicas musicais brasileiros. “Eu como negro e sambista, digo que vivo entre a tristeza e a beleza. Eu alimento meus sambas com a tristeza que transformo em beleza. A história dos sambistas é mais ou menos essa. A cultura afro está totalmente enraizada em nossa música. Tanto na composição, quanto musicalmente, com vários elementos. E não tem como fugir não”, descreve Renato.

Ele analisa que existem muitas críticas sociais nas letras do samba. “Bezerra da Silva é um grande crítico social, o cara foi bom mesmo. O samba faz isso de um jeito malandro”. Porém para ele há pouco espaço para expor esses trabalhos na mídia. “Não vejo espaço na mídia para esses estilos”, afirma.

Ele relata como essa influência cultural está presente em sua formação. “O samba e o rap tiveram participações absurdas na formação de quem sou hoje, minhas atitudes e posturas”. Para ele, “a música e toda essa história de crítica social influência muito o negro. Quem escuta [principalmente esses estilos] são os negros, e nós [artistas] por sermos formadores de opinião, formamos os nossos [população negra, que compartilha uma mesma opressão social]”. E conclui, “eu mesmo já sofri racismo no condomínio que moro”.

Para o músico, “esses elementos afros só tendem à enriquecer mais nossa música” e indica para conhecer como referências da “identidade afro-brasileira, Clara Nunes e Roque Ferreira, que são ótimos exemplos”.