A resistência negra na cultura brasileira (parte II)
Por Yuri Simeon
Pesquisa publicada prova
Preferencialmente preto
Pobre, prostituta, pra polícia prender
Pare, pense, por quê?
Como descreve o raper Gog em sua composição, ‘Brasil com P’, a sociedade brasileira ainda possui muitos resquícios de seu passado escravagista. A própria estrutura urbana demonstra isso, com a população negra se concentrando nas periferias. Dados apontam que jovens negros têm 2,6 vezes mais chances de serem mortos que jovens brancos.
A participação da população negra dentro das universidades é visivelmente desigual, quando comparada ao percentual de negras e negros na sociedade brasileira. Políticas públicas que garantam uma alteração nesse quadro ainda são questionadas por parte da sociedade civil.
Tocando na ferida
Me ver
Pobre, preso ou morto
Já é cultural
O rap “Negro Drama”, do grupo Racionais MC’s, expõe as mazelas do racismo construído historicamente na sociedade brasileira, e a constante resistência da população negra. Como forma de alterar esse quadro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) criou, em 2015, a Comissão Nacional da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil. A proposta é revelar informações sobre esse momento histórico e criar mecanismos que revertam ou minimizem danos causados nesse processo.
A advogada Tamara Caroline Braga é membro da Comissão Estadual da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil, construída pela OAB Seção de São Paulo. Ela também é membro da Comissão Regional da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil, iniciativa da OAB Sub-Seção Sorocaba.
Segundo Tamara, a comissão deve emitir relatórios relacionados ao período da escravidão negra no Brasil. “O objetivo é saber mais sobre os agentes envolvidos no processo da escravidão negra. Quem? Onde? Como? Quando?”, conta.
Ela explica que a comissão é multidisciplinar, contando com representantes de diversas áreas do conhecimento. E para a eficácia desse processo de investigação histórica, serão firmados convênios com instituições, como o Tribunal de Justiça, prefeituras, cartórios, orgãos públicos, Igreja Católica e organizações da população negra. “Esses dados, levantados através de pesquisas bibliográficas, convênios e parcerias, servirão para dar um panorama regional sobre esse período histórico. E também serão base para o levantamento de dados estaduais e nacionais”, descreve.
Para ela, uma das possíveis consequências da Comissão da Verdade pode ser a fomentação de novas políticas públicas. “Esse amplo processo de pesquisa histórica pode trazer subterfúgios para mais políticas públicas, até mesmo a criação de secretarias específicas, por exemplo”. Além de revelar novos fatos históricos, trazer “um novo olhar sobre personagens já conhecidos”. E apresentar a participação da população negra ao longo da história, “vamos descobrir, no Tropeirismo, cadê o negro aqui?”, observa.
De acordo com a advogada, a Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil deverá seguir os moldes da Comissão da Verdade sobre a Ditadura Militar. Tendo duração próxima à dois anos. E elaborando, ao seu final, um relatório, onde será apontada a responsabilização dos agentes envolvidos e propostas de reparação.
Dados da ONU confirmam a existência do racismo institucional no Brasil. Quando mecânismos do estado sustentam uma hierarquia racial. Exemplo disso é a abordagem policial que considera tom de pele um fator determinante. Essa realidade serve de inspiração para a música ‘Todo camburão tem um pouco de navio negreiro’, do grupo O Rappa.
Qual é negão? qual é negão?
O que que tá pegando?
Qual é negão? qual é negão?
É mole de ver
Que em qualquer dura
O tempo passa mais lento pro negão
Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista
Pra passar na revista
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Resistindo em rimas
Com o nome “Resistindo em rimas”, o álbum do grupo LPJ MC’s, explora questões como a organização popular, o monopólio da mídia e a importância da mulher na sociedade. Diego Zamura, um dos membros do grupo descobriu o rap ainda na infância. Com 16 anos começou a fazer rimas com um grupo de amigos na escola.
Segundo ele, a velocidade em que as rimas eram compostas atraia os jovens para o rap. “O que impressionava a gente era o improviso. A habilidade que havia para fazer as rimas”, conta. Ele e seus amigos se revezavam na construção das rimas, “no colégio, um ‘segurava’ a base no beatbox, e eu e mais um mano soltávamos a rima”, descreve.
Diego conta que logo conheceu o racismo, antes mesmo de começar a compor. “Por ser negro, por experiência própria, tomei conhecimento de como o racismo opera na sociedade”. O rap o ajudou nesse processo de entender a sociedade. “Fui amadurecendo isso [senso crítico] ouvindo rap, Racionais MC’s principalmente”, relata.
O LPJ MC’s surge quando Zamura entra na universidade para estudar sociologia. Como graduando ele teve a oportunidade de lecionar em escolas rurais. Lá ele conheceu melhor o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), compreendendo o projeto político do movimento popular. Isso influenciou na linha política do grupo de rap.
O LPJ MC’s lançou o CD Resistindo em Rimas, com a união de Diego, Levi de Souza, Jane Joffre, Dudu Drewinskie e Robson Gil. Entre as faixas existe ‘É por amor’, que ressalta a importância da organização popular, ‘Resistindo em Rimas’, que critica o monopólio da mídia, e ‘Salve Mulher’, que homenageia as mulheres, inclusive as mães dos MC’s. O rap vem com a ideia de tocar na ferida, segundo Zamura o rap tem “caráter de denúncia, que a mídia não tem”, conclui.