Canudos, música e lutas populares

(parte I)

Por Yuri Simeon

Que horizonte mais errante
Que crendice mais descrente
Que descrença mais distante
Que distância mais presente
Que distância mais presente
Desgoverno governante
Quanta gente confiante
Em Antônio penitente
Reprodução/ Fonte: Wikipedia

Na letra de ‘Canudos’, de Edu Lobo, surgem elementos que sintetizam esse momento histórico de um povoado que lutou contra o latifúndio e o exército, por liberdade e autonomia. Antônio Conselheiro não foi a única, mas a mais conhecida liderança de Canudos, um movimento popular que surgiu no final do século XIX, no interior do estado da Bahia. Canudos foi devastado pelo Exército Brasileiro, na famosa Guerra de Canudos, que necessitou de quatro ‘expedições’ do exército, totalizando mais de 12 mil soldados, de 17 estados. A destruição do povoado matou aproximadamente 25 mil pessoas.

https://youtu.be/nLt8CCk25Qk

Segundo Felipe Benevides, graduado em História, Canudos surge como uma contradição dentro da lógica do Coronelismo. “Haviam os Coronéis, latifundiários que compravam do exército o título de coronel, aproveitando a ausência do estado, para construir um poder político próprio no sertão nordestino “, explica.

De acordo com Benevides, a existência de populações sobrevivendo em torno das terras dos coronéis era o que legitimava o poder dos mandatários naqueles locais. “A população abandonada pelo estado, composta por descendente de indígenas, que sobreviveram até ali, por europeus empobrecidos e por negros, se torna mão de obra barata e base eleitoral para os coronéis, numa lógica de senhor de terras”.

https://youtu.be/nLt8CCk25Qk

Canudos nega a necessidade do povo ter que trabalhar para o latifundiário, retirando o latifundiário de suas vidas. ” E coloca a lógica da agricultura de subsistência. Nessa lógica não ficam devendo ao Coronel. Isso atrai diversas famílias para essa experiência comunitária”, descreve Felipe.

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

https://youtu.be/suO77fmI5Zw

Luiz Gonzaga, em sua canção ‘Súplica Cearense’, descreve o que seriam preces de Antonio Conselheiro, considerado um beato. A letra inspirou também o grupo O Rappa, que regravou a canção. Na nova versão a relação da música com Canudos fica mais exposta.

https://youtu.be/F19PnbWigSA

Benevides diz que Canudos não é o único caso de resistência popular nesse contexto, porém é o de maior visibilidade. A contradição que Canudos simboliza, dentro da lógica do Coronelismo, ameaça o poder dos Coronéis. Existe então um tensionamento entre coronéis e o estado para que se tomem medidas contra Canudos.

Porém era necessário um argumento para legitimar o ataque à Canudos. “Então começam a se espalhar notícias, através de folhetins, que atrelam o monarquismo à comunidade [de Canudos] e a Antônio Conselheiro. Vão dizer que Canudos era um núcleo que defendia a volta da monarquia. Em um período em que a república acabava de ser implantada”, conta Felipe. Isso bastou para garantir a intervenção militar em Canudos.

“Para a luta popular, Canudos representa a importância da organização do povo. E que o povo, por si só, pode começar a entender as contradições que vive”

A partir disso foram enviadas quatro expedições para Canudos. Somente a última expedição saiu vitoriosa, devastando Canudos. Para Benevides, “Canudos representa o processo do povo se organizar e resistir, mesmo sem consciência do processo político em um contexto geral. E de [o povo] resistir de maneiras inteligentes, por exemplo, utilizando armas das expedições derrotadas contras as que estavam chegando”, descreve.

“Para a luta popular, Canudos representa a importância da organização do povo. E que o povo, por si só, pode começar a entender as contradições que vive”, conclui.