Canudos, música e lutas populares

(parte II)

Por Yuri Simeon

O homem chega e já desfaz a natureza
Tira a gente põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia, vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia
Do beato que dizia que o sertão ia alagar
O sertão vai virar mar…
Dá no coração
O medo que algum dia
o mar também vire sertão.
Reprodução/ Fonte: EBC

Os versos de ‘Sobradinho’, de Sá e Guarabyra, trazem elementos relacionados à Canudos, entrelaçados à debates contemporâneos. A música também faz menção ao caso de Sobradinho. A barragem de Sobradinho, construída no interior da Bahia, após sua inauguração em 1979, inundou sete municípios e atingiu 70 mil pessoas. Dessas, 12 mil famílias foram deslocadas, sem haver uma reparação pelas infrações aos direitos humanos que sofreram.

https://youtu.be/8ERBwtuaYmY

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é construído para organizar a população ribeirinha, quilombola, trabalhadora rural e demais que são afetadas pela construção de barragens. Esse movimento popular surge na década de 70, como resposta o crescente processo de construção de barragens, ameaçando a existência de comunidades onde o modo de vida é totalmente ligado ao meio ambiente em que vivem.

Isso pode ser observado em uma produção do MAB, o documentário expõe os questionamentos da população que vive ao redor do Rio Uruguai. Eles serão afetados pela construção da barragem Garabi Panambi, no último trecho sem barragens do rio. Confira o documentário Garabi Panambi: a última batalha do rio Uruguai.

https://youtu.be/Va9PHGEKPuA

Jadir Bonacina é músico popular e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens. Ele está concluindo um projeto onde debate sobre o papel da música no MAB. “A música faz parte da vida das pessoas, não tem algo separado das lutas populares. A música faz parte das lutas populares. como ideologia e forma de expressão, até mesmo como animação e descontração”, descreve.

“Perguntaram-me esses dias por que música nas escolas. Eu respondi, por que português? Por que biologia ou matemática? Pois não vejo diferença”, conta Jadir. Ele vê na música um grande meio de expressão e reflexão.

“Não existe música fora da política, nem cultura fora da política”

Segundo ele, todas as formas de expressão cultural são interligadas ao contexto social. “Não existe música fora da política, nem cultura fora da política”. E para finalizar a entrevista, fica a sugestão dele, de outra música também inspirada em Canudos. A composição ‘Deixe-me Viver’, do padre Enoque de Oliveira, faz uma crítica social, saudando a organização popular e trazendo elementos de Canudos. Enoque é militante do Movimento Popular e Histórico de Canudos.

Deixe-me viver
Deixe-me falar
Deixe-me crescer
Deixe-me organizar
Quando eu vivia no sertão
Aos pés de quem devia me mandar
Gemia, calo e dor nas minhas mãos
A canga era pesada pra levar
Aí apareceu pelo sertão
Um Monte que passou a cativar
Tão belo que ajuntou o povo irmão
Patrão e opressor não tinha lá
Canudos outra vez vai florescer
A vida como um galho vai frondar
A luta pela terra gera o pão
Amores vão de novo começar
Canudos se espalhou pelo país
Embora os tubarões queiram morder
Na roça e na vila, o que se diz:
O povo organizado vai vencer

https://youtu.be/o1gf7R4u0ro