Na Uniso, Caco Barcellos critica mídia sensacionalista
Repórter faz crítica à modelo jornalístico que promove preconceitos e não expõe a pluralidade, ele foi convidado para participar da Comissão que debate a redução da maioridade penal.
Por Yuri Simeon
O jornalista investigativo Caco Barcellos, 65, debateu sobre o jornalismo e a sociedade em palestra na Uniso. O evento faz parte da Semana de Geografia e Relações Internacionais promovida pelos respectivos cursos da Universidade de Sorocaba e aconteceu no Salão Vermelho do Campus Trujillo. Segundo Caco o repórter “deve guardar suas opiniões em casa antes de sair para fazer uma matéria, e sempre apresentar todos os lados do fato, se forem oito lados, deve apresentar os oito lados daquele fato”, se atentando para não repetir erros da mídia sensacionalista que criminaliza parcelas da população, promove preconceitos e estereótipos. O evento ocorreu quase que simultaneamente à divulgaçãodo convite de Caco Barcellos para participar da Comissão Especial que debate a redução da maioridade penal.
Centenas de estudantes dos cursos de Jornalismo, Geografia, Relações Internacionais e História participaram entusiasmados da palestra com o tema “Brasil: Da rota 66 à continuidade da violência”. Barcellos expôs um pouco de sua carreira como repórter na cobertura de acontecimentos internacionais e de importantes episódios do país, além de contar como foi o início da carreira. A partir dessas experiências discorreu sobre a atualidade, a violência urbana e suas causas.
“Violência não existe por si só, sempre tem uma origem”.
Ele citou casos como exemplo. “Rotineiramente programas apresentam matérias sobre ônibus incendiados pelo Brasil, na maioria de vezes no Rio de Janeiro e em São Paulo. O que eles não falam é que para cada ônibus incendiado existe um menor que foi assassinado naquela comunidade, o que gera a revolta da população”.
O jornalista não mencionou nomes, mas as posturas criticadas são observadas nos programadas de José Luiz Datena, Marcelo Rezende e Rachel Sheherazade. Os três junto a Caco foram convidados para participar da Comissão Especial que debate a redução da maioridade penal. Recentemente Barcellos foi criticado pelos defensores da redução por uma reportagem em seu programa Profissão Repórter que evidência a falta de fundamentos para a redução da maioridade penal.
O jornalista ressaltou como muitos apresentadores ao omitirem parte das informações de um mesmo fato comprometem a credibilidade da notícia ao criminalizar determinados grupos.
“Dizem que o MST é agressivo, 1,2 mil militantes foram assassinados. Nunca morreu um latifundiário assassinado, temos que rever quem é agressivo”.
Durante a palestra Barcellos deu destaque aos concorrentes diretos dos jornalistas investigativos/repórteres que seriam os internautas, os jornalistas de opinião e os humoristas que se transvestem de jornalistas. Ele afirma que há diferenças, pois o jornalista repórter tem comprometimento com a realidade, mas diz que existem benefícios nesse novo quadro. “Há muita concorrência [para dar a notícia]. Isso é bom, no passado éramos contadores de histórias sozinhos”.
O professor Rodrigo Barchi, 38, é coordenador do curso de Geografia da universidade. Ele foi um dos organizadores do espaço e descreve a importância da participação de Caco pelo seu discurso objetivo e com responsabilidade social. “Realizamos a Semana com o intuito de fazer uma discussão abrangente sobre o mundo contemporâneo. A contribuição do Caco foi pontual pelo fato dele ser um jornalista diferenciado, e sugerir que os profissionais da área não se atenham somente ao trivial. Suas perspectivas sociais e políticas permitem que o jornalismo exponha a realidade social de um modo que poucas vezes se vê na TV, ou seja, ouvindo o lado mais fraco”, afirma o professor.
De acordo com ele, a avaliação da palestra entre os estudantes foi bastante positiva, porém ele gostaria de explorar mais o debate sobre a violência urbana. “Diversos dos meus alunos e alunas, com uma posição política bastante incisiva no que diz respeito à defesa dos oprimidos e das classes menos abastadas, gostaram bastante da fala do Caco. Eu também, apesar de estar esperando um aprofundamento maior sobre a questão da violência nas cidades brasileiras”, conclui.
O estudante do 7º semestre de jornalismo da Uniso, Lucas Montenegro, 25, considerou a palestra muito útil pela bagagem que o jornalista trás consigo. “Foi proveitosa por essa experiência de um jornalista prestigiado e competente. Esclareceu dúvidas que eu tinha como estudante de jornalismo e serviu para eu conhecer a história dele e sua formação jornalística”, diz.
Roberto Hatadani, 33, do 3º semestre de geografia gostou das falas de Barcellos, que segundo ele “mostra como deve ser o verdadeiro jornalismo, olhando para a população”. Roberto considera que esse posicionamento progressista de Caco tem relação com sua origem humilde. “Quando ele tinha nove anos ganhou seu primeiro tênis, um Ki-chute, da escola onde estudava na gestão do então governador Leonel Brizola. Por isso ele tem um pensamento diferenciado do que a gente vê na Globo”.
Longa fila e auditório lotado na busca por boas palestras
Se a palestra de Caco Barcellos foi empolgante para todos, o mesmo não aconteceu quando os estudantes chegavam ao local. A palestra que a princípio seria para os cursos de Geografia e Relações Internacionais também teve participação dos estudantes dos cursos de Jornalismo e História. Porém o espaço escolhido para o evento tinha capacidade limitada. Isso gerou alguns transtornos.
No início os estudantes que chegavam ao Salão Vermelho eram separados, os de Geografia e Relações Internacionais entravam no auditório. Os de História e Jornalismo precisaram aguardar em uma fila que se formou por vários metros.
Após a entrada dos estudantes que estavam na fila foi observada a presença de faixas de isolamento reservando parte das cadeiras para os estudantes prioritários. O auditório ficou dividido entre cursos, dificultando a interação entre os estudantes.
Para o alívio de todos, o auditório conseguiu receber aqueles que desejavam participar da palestra, no entanto muitos ficaram sem lugar para sentar.
O caso demostra o interesse dos estudantes em participar de espaços de debate com profissionais que realmente se destacam em suas áreas, seja por sua carreira ou por suas posições contundentes. Saindo da lógica de conformismo em se ater a profissionais que possuem maior vínculo com a instituição em razão de ligações internas, ligações ideológicas ou por pertencerem ao mercado local.