O Carandiru ainda não acabou
“ O Robocop do governo é frio, não sente pena
Só ódio e ri como a hiena
Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue”
Por Yuri Simeon
Os versos do rap “Diário de Um Detento” do grupo Racionais MC’s nos expõem a perspectiva de um sobrevivente do Massacre do Carandiru. O massacre aconteceu na tarde do dia dois de outubro de 1992 na Casa de Detenção de São Paulo, o popular Carandiru, e causou a morte de 111 pessoas, além de 100 feridos.
O massacre foi uma resposta à rebelião que começou com uma briga entre detentos, às 14h do mesmo dia. Duas horas depois do início da rebelião, a tropa de choque da polícia militar invadiu o local, causando o massacre no Pavilhão 9. Na véspera de eleições, a cobertura do massacre foi pequena.
Ao verem as equipes policiais se preparando para a invasão, muitos presos jogaram estiletes e outras armas como sinal de trégua. Já previam a sangrenta ação que se sucederia. Muitos corpos foram encontrados com marcas de mordida de cães e com as mãos na cabeça, sinal de redenção.
Em 2014, foi concluído o julgamento dos acusados de participarem do massacre no Pavilhão 9.Foram condenados 73 policiais militares a penas que variaram entre 48 e 624 anos de prisão. Todos recorreram em liberdade.
O comandante da ação, coronel Ubiratan Guimarães, condenado a mais de 600 anos de prisão, recorreu da sentença e teve o julgamento anulado. Ele foi assassinado em 2006, em circunstâncias não esclarecidas. Em audiências, Luiz Antônio Fleury Filho, governador de São Paulo na época do massacre, negou ter dado ordens, mas disse que se estivesse em seu gabinete e soubesse das informações teria dado ordem para a ação.
O massacre do Carandiru também ocasionou um processo de organização entre a população carcerária para expor denúncias de maus tratos. Essas organizações foram tomando grandes proporções, até se tornarem facções, finalidade planejada.
O Carandiru foi implodido em 2002 e deu lugar ao Parque da Juventude.
“Fumaça na janela, tem fogo na cela
Fudeu, foi além, se pã!, tem refém
Na maioria, se deixou envolver
Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder
Dois ladrões considerados passaram a discutir
Mas não imaginavam o que estaria por vir
Traficantes, homicidas, estelionatários
Uma maioria de moleque primário.
Era a brecha que o sistema queria
Avise o IML, chegou o grande dia
Depende do sim ou não de um só homem
Que prefere ser neutro pelo telefone
Ratatatá, caviar e champanhe
Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!
Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo
Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!
O ser humano é descartável no Brasil”
A mesma realidade
“Ladrão sangue bom tem moral na quebrada
Mas pro Estado é só um número, mais nada
Nove pavilhões, sete mil homens
Que custam trezentos reais por mês, cada”.
Após mais de duas décadas a situação dos presídios brasileiros segue similar ao Carandiru. Em 2014, a população carcerária do Brasil foi de 607 mil pessoas, a 4ª maior do planeta. O estado de São Paulo corresponde à 36% da população prisional, com 219 mil pessoas detidas.
Representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Sorocaba, o advogado Ítalo Rosendo diz que isso “ilustra uma realidade que não mudou muito”.
Segundo ele, a estrutura do sistema carcerário brasileiro é majoritariamente arcaica e falida. “A realidade do Carandiru, e da atualidade, é que o sistema prisional é um depósito de gente, principalmente pobre e negra”.
“O sistema prisional é um depósito de gente, principalmente pobre e negra”
Ele diz que só o estado pode punir legalmente e privar de liberdade conforme a pena do crime, após um processo legal e ampla defesa. E tendo essas competências o estado não pode cometer abusos ou falhas. “O estado não pode servir a interesses privados e pessoais”.
Ítalo afirma que o estado não pode infringir o que está garantido na Constituição brasileira e na Declaração Universal de Direitos Humanos. “A finalidade do estado seria a construção de uma sociedade mais justa, livre, fraterna e solidária. Isso é uma determinação constitucional”.
O advogado analisa que caso o estado não siga essas orientações irá colaborar com a manutenção da estrutura [social] vigente e com o aumento da criminalidade. “Não se pode admitir que o estado atue com vingança, deixando de trabalhar a ressocialização das pessoas pelas quais ele é responsável”.
“Não se pode admitir que o estado atue com vingança, deixando de trabalhar a ressocialização das pessoas pelas quais ele é responsável”
Rosendo diz que não há como haver progresso humano, sem uma estrutura pública de qualidade. “O estado deve plantar para colher, sendo reflexo para a sociedade. E a sociedade deve construir o estado”, conclui.
Nas ruas tem massacre todo dia
“Cada detento uma mãe, uma crença
Cada crime uma sentença
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química
Pronto: eis um novo detento”
“Em 1992, eramos jovens, eu tinha 12 anos, mas já entendia o sistema. A polícia sempre teve imagem de repressão com o povo pobre e preto. Levamos até como uma coisa que já era premeditada”, relata MC Eggs do grupo de hip hop X4.
“A polícia sempre teve imagem de repressão com o povo pobre e preto.
Levamos até como uma coisa que já era premeditada”
Ele cresceu na periferia e vivenciou a repressão rotineira nesses lugares. Segundo ele, aqui fora continua o “derramamento de sangue”.
“Essa repressão ainda existe, a gente vê a todo momento, até mesmo em cima dos trabalhadores” afirma ele, concluindo que as chacinas acontecem frequentemente.
Para ele o rap tem a função de narrar o cotidiano da periferia, seus aspectos positivos e negativos. “A periferia também tem seu lado bom”, diz. Um exemplo são as músicas do grupo X4 que falam sobre o skate para a juventude da periferia.
MC Eggs conta que antigamente era o samba que tinha esse papel de ser a voz da periferia. “ Bezerra da Silva se dizia a voz da favela”.
Para ele é importante também mostrar o lado alto astral da periferia, “mas nunca deixando a consciência [política] de lado”.
O MC afirma que se não fosse o rap e o movimento hip hop, os integrantes do grupo poderiam estar presos ou mortos, casos comuns entre a juventude marginalizada.
Diário “do” Detento
Segundo Eggs, tanto para ele como para os outros integrantes do grupo X4, um grande diferencial do rap “Diário de um Detento” é que foram utilizados versos de um ex-morador do Carandiru. Josemir Prado. Chamado de Jocenir por Mano Brown.
Ele foi detido no Carandiru alguns anos após o massacre e as más lembranças ainda estavam entre os detentos. Em uma visita que fez ao presídio, Brown conheceu esse senhor, que lhe indicou alguns versos sobre o caso.
Esses versos foram utilizados pelo grupo Racionais MC’s. E o rap “Diário de um Detento” expôs as mazelas do sistema prisional brasileiro. Ainda muito presentes, passados mais de 20 anos.