“Percebemos que não sabíamos nada sobre nossa própria história”

Núcleo de Cultura Afro-Brasileira da Uniso desenvolve pesquisas para a geração
de conhecimento sobre a participação da população negra na história da humanidade.

Por Yuri Simeon

Núcleo possui rico acervo sobre a cultura negra. Foto: Yuri Simeon

Tendo a princípio 20 jovens, negras e negros, com idade entre 18 e 20 anos, nascia em 1979 o Instituto de Cultura Afro-Brasileira (ICAB). O objetivo era descobrir coletivamente através de estudos e pesquisas a história da população negra brasileira. O motivo era que esses jovens não conheciam as histórias de seus antepassados, suas próprias histórias. O ICAB surge na “Sociedade Cultural e Beneficiente 28 de Setembro” de Sorocaba, um clube social destinado à população negra.

Incorporado em 1992 à Fida (Faculdades Integradas Dom Aguirre), que dois anos depois se tornaria a Universidade de Sorocaba, o ICAB passou a ser NUCAB (Núcleo de Cultura Afro-Brasileira), se tornando o primeiro projeto da extensão da Uniso. E manteve o objetivo de promover a expansão do conhecimento sobre a cultura africana e afro-brasileira.

O início, descobrindo a própria história

Estudantes buscaram entender o presente através do passado. Foto: Gabriela Guedes

A coordenadora do NUCAB, a professora Ana Maria Mendes, 67, era uma das jovens que participou da fundação do ICAB e se recorda de como era a composição desse grupo.

“Éramos muito diferentes. Éramos a primeira geração de jovens negros com escolaridade regular a termo [idade compatível com o período escolar] em Sorocaba. E percebemos que não se tinha material na educação formal sobre a participação do movimento negro ao longo da história”.

Esses jovens estudantes de diversas áreas do conhecimento, netas e netos de ex-escravos, perceberam como o sistema tentava fazer a sociedade brasileira esquecer todo o seu passado escravagista.

“Tínhamos necessidades e anseios. Percebemos que não sabíamos nada sobre nossa história, sobre nós mesmos”.
Ori, que significa cabeça, é a essência real do ser. Foto: Yuri Simeon

A partir dessa constatação o grupo começou a buscar informações que os ajudassem a desvendar suas origens, o passado de seus ancestrais.

“Conversando com nossas famílias fomos descobrindo como nossos antepassados ‘se viraram’ após a abolição. Depois juntamos nossas histórias, todas muito ricas”.

Após esse primeiro momento de descobertas o grupo começou a desbravar períodos mais remotos. “Então fomos descobrir o continente Africano e quão rico ele é, não só por sua dança, por sua peculiaridade da religião. Fomos descobrir quem é essa África, tão cobiçada, tão desprezada e tão vilipendiada até os dias de hoje”.

A professora Ana Mendes, através do NUCAB, busca educar para a diversidade. Foto: Yuri Simeon

Para a professora é o processo de descobrimento da própria história que levará a sociedade a avançar na construção de sua identidade nacional, se tornando um país mais forte.

“Precisamos apreender, nos aparelharmos da profundidade dos problemas causados nesses mais de 500 anos. A solução está nas nossas mãos, não virá de fora. É de nós brasileiros”

Para alcançar tais objetivos o NUCAB, mantendo a estrutura do ICAB, se divide em câmaras de estudo que abrangem todas as áreas do conhecimento dando enfoque aos estudos africanistas. As pesquisas se desenvolvem nas câmaras de estudos jurídicos, estudos políticos e sociais, estudos da cultura artística, estudos da preservação cultural, estudos da história, estudos da literatura e estudos da qualidade de vida. A câmara de difusão e cultural é o instrumento para a propagação dos trabalhos gerados pelo núcleo.

Todos podem visitar o espaço do NUCAB. Foto: Yuri Simeon

A população negra nos livros

A juventude negra que conseguia frequentar a escola tinha um material muito limitado sobre a população negra à sua disposição. A situação não foi completamente sanada nos dias de hoje. Ana diz que durante seu período escolar só aprendeu três coisas sobre a população escravizada no Brasil, que receberam direitos com a Lei Áurea, a Lei do Ventre Livre e a Lei do Sexagenário. Porém as informações sempre foram incompletas.

“Como ensinam normalmente no 4º ano do fundamental, é contado que declararam a Lei do Ventre Livre e toda criança filha de escravos seria livre, mas não dizem que essa lei instituiu o orfanato no Brasil. O dono de uma escrava que não quisesse que a mulher tivesse o filho podia jogar a criança em um orfanato. Se deixasse a criança nascer recebia uma ajuda de custo. E se deixasse a criança crescer com a mãe podia cobrar da criança, a partir do 14 anos, que pagasse em trabalho até os 21 anos, por tudo que havia comido até então. No caso da Lei do Sexagenário não é mencionado que a idade média da população naquele período era de 35 anos. Imagine então para um escravo chegar aos 60 anos”, explica Ana. A partir das informações que iam surgindo os estudantes questionaram-se.

“Essa gente não viveu? Não resistiu? Não fez nada?”

Foi assim que eles descobriram as várias demonstrações de resistência do povo negro ao longo da história. Como a Frente Negra Brasileira e a própria história do Clube 28 de Setembro que abrigava o ICAB.

Foto: Yuri Simeon
Foto: Yuri Simeon

Falta de espaços para promover a cultura negra

A pesquisa sobre suas raízes é, por si só, algo difícil. Porém os jovens enfrentavam outro problema. A falta de espaços para debater sobre a cultura afro-brasileira. “Lanchonetes e rodas de samba acabavam sendo fechados. Os jovens não tinham um ponto de encontro e o ’28 de setembro’ não fazia parte do cotidiano da maioria dos jovens. Era difícil de promover o debate”, analisa Mendes, enquanto se recorda que nesse período ainda havia uma Ditadura Militar.

Atualmente existem diversos livros publicados frutos das pesquisas do ICAB e posteriormente do NUCAB. Também houve uma expansão no número de entidades com o objetivo de propagar a história e a cultura do movimento negro. Algumas dessas entidades surgiram a partir de membros do ICAB. Por exemplo o MOMUNES (Movimento das Mulheres Negras de Sorocaba) e o Centro Cultural Quilombinho. A cultura do Hip Hop promove esse debate, nas palavras da professora Ana, “sofrendo a pressão do entorno que é muito séria, mas fazendo uma ação preventiva muito interessante”.

Jovens começaram estudando passado de suas famílias. Foto: Yuri Simeon

Conhecendo o NUCAB

Todos podem usufruir do material disponível no NUCAB, além de fazer convites para a entidade participar de espaços de debate promovidos para o ensino fundamental e médio. Muitos visitam o espaço na biblioteca do Campus Cidade Universitária.

“Quando são despertados por algum motivo [as pessoas] correm para cá formar sua opinião sobre questões relacionadas ao movimento negro, e aqui têm material de diversas áreas, que garante um conhecimento aprofundado”.
Descreve a professora, concluindo
“Basta querer conhecer e espalhar conhecimento”.

O Núcleo de Cultura Afro-Brasileira fica no 5º piso da Biblioteca Aluísio de Almeida no Campus Cidade Universitária da Uniso, Rodovia Raposo Tavares, km 92,5.