Resistência, rima e poesia
história do rap em Sorocaba

Estilo que cresceu na periferia de Sorocaba reflete transformações 
que aconteceram na cidade ao longo das últimas décadas.

Por Yuri Simeon

“Às vezes a gente tava na noite trocando uma ideia. E começava. Vamos mandar um som. Vamos mandar um som. Um ficava fazendo o beat box. Dali saia um som. Começava a se concentrar gente. Dali saia um show”, dessa forma Juliano Santana, 29, o Filologia, descreve o início do rap em Sorocaba. Ele conta como viu o estilo se desenvolver em Sorocaba, interligado à história da cidade. “Sempre compus sobre o que vejo nas ruas. O que eu vejo nas noites. As crianças na rua. E os bares lotados”.

O álbum ‘Interior tem o Dom’ foi a primeira coletânea de rap da região de Sorocaba. Foto: Yuri Simeon

Santana está criando um rap sobre como a construção de um shopping próximo ao seu bairro comprometeu a existência de um córrego que originou as primeiras comunidades de moradores na região. “Esse som traz vários relatos da minha mãe, que vive aqui há muito tempo e viu essa região quando ela ainda era uma área rural”.

Juliano analisa que o rap cresceu em Sorocaba. “Todo movimento que você faz, você faz para expandir e o rap teve essa expansão. A gente que cresceu nesse movimento [hip hop] vê isso”. Mas confessa, “eu gostava mais quando o playboy achava que rap era coisa de bandido. Que então tinha medo de colar e o rolê ficava só para favelado mesmo”.

As barreiras do movimento hip hop

MC D, 31, é membro do grupo Ato Favela. Ele começou a ouvir rap com 7 anos. Aos 10 tentou ser grafiteiro, DJ, entre outras coisas, mas logo descobriu que sua vocação era ser MC, aos 13 anos, em 1997. Segundo ele, construir o movimento hip hop e o rap em Sorocaba sempre foi um desafio. “Era difícil conseguir uma rua com a prefeitura [para fazer eventos] e quando se conseguia, no final do evento, sempre a PM vinha. Uma vez estava em um evento com meu grupo apresentando e a polícia invadiu o clube. Mandou todos os homens encostarem em uma parede e as mulheres em outra. Revistaram todo mundo e faziam isso dando soco no estômago. Até as mulheres apanharam”.

DJ Preto entrou para o universo do hip hop na década de 80 com a Black Music. Foto: Yuri Simeon

Ele diz que havia uma perseguição constante. “Uma semana depois estávamos conversando próximo ao ponto de ônibus, quando fomos surpreendidos pelos mesmos policias que estavam no clube. Eles nos reconheceram”. De acordo com o MC, ele e seus amigos apanharam por terem cantado uma música que criticava a PM por reprimir as pessoas da periferia. “Antes de nos agredir, o policial cantou um trecho da música”.

Rima e Revolução

Josue de Lima, 30, conheceu o rap na escola pública, na década de 90. “Conheci na escola a galera que fazia o rap. Foi um encontro de quem ouvia com quem fazia rap”. Ele diz que o que mais lhe facinava era ouvir na música o que vivenciava na rua. “ O que estava na letra do Racionais, eu via na rua de casa”. E também apresenta reflexos do rap no contexto sorocabano. “Naquela época tinham as tropinhas. Turminhas de um bairro, turminhas de outro. Quando o rap chegou no Brasil (vindo dos Estados Unidos) trouxe um reflexo de lá, a formação de gangues”. Ainda de acordo com ele, o rap americano surgiu com a migração de jamaicanos para o Brooklyn.

Josue Lima fez parte do Coletivo Posse Rima e Revolução e hoje é coordenador da Biblioteca Comunitária do Laranjeiras. Foto: Yuri Simeon

No início dos anos 2000, Josue e outros personagens do movimento hip hop em Sorocaba, criaram o coletivo Posse Rima e Revolução. Com essa organização passaram a defender a melhoria na qualidade de vida da população da periferia de Sorocaba. Segundo ele, uma das batalhas travadas por eles foi em relação à um bairro da periferia de Sorocaba que “foi criado de uma maneira totalmente irresponsável. Simplesmente despejaram as pessoas lá. Não tinha CEP, as únicas correspondências que chegavam eram contas de água e luz. Na 1ª Semana de Hip Hop no bairro, a juventude colocou isso como um problema de lá”. A partir disso o coletivo entrou na luta para garantir que os jovens do local tivessem um endereço, para enviar curriculos, por exemplo.

O rap serviu para expor essas revindicações, e após bastante esforço os moradores do bairro passaram a ter CEP, graças a união da população com coletivo. Em 2005, dessas articulações com grupos da região, buscando dar voz a população periférica, surgiu a primeira Coletânea de Rap da região de Sorocaba, a Coletânea Interior Tem Um Dom, com músicas de grupos de Sorocaba, Votorantim, Itapetininga e Itapeva.

Assim Josue expõe qual é a essência do rap para ele. “O rap deve ser usado para questionar a desigualdade social. É assim que ele surge. Como uma voz para a população excluída e marginalizada. E é essa a característica que ele jamais deve perder”.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.