Em um relacionamento sério
com os discos de vinil

Biblioteca comunitária na periferia de Sorocaba abriga acervo com centenas de discos, os exemplares podem ser ouvidos por qualquer visitante, de graça

Por Yuri Simeon

“O disco começa pela capa, você admira a capa, o encarte, você lê, vê as imagens, cria um relacionamento com o disco, fica bastante tempo com ele na mão antes de ouvir. Quando você põe para ouvir, já ‘tá’ com tesão para ouvir”, assim Josue Lima, 30, vigia e coordenador da biblioteca, descreve a relação que se cria ao apreciar um disco de vinil.

Quem passa em frente à Biblioteca Comunitária Laranjeiras talvez nem imagine que em meio às prateleiras de livros, o espaço abriga um acervo com de mais de 900 discos de vinil. A coleção surgiu como um desejo dos coordenadores da biblioteca em oferecer esse material à população, como conta Lima. “Lá por volta de 2004, 2005, a gente via o pessoal do rap sempre usando vários discos, isso criou aquele sonho na gente em ter uma coleção de discos para a comunidade”.

O projeto da biblioteca comunitária surgiu a partir da ausência de bibliotecas, observada por moradores, na periferia da zona norte de Sorocaba. Para suprir essa demanda da comunidade, a própria população, com grande influência de grupos ligados ao hip hop, se uniu e criou a biblioteca, em 2005, no bairro Santo André II. A administração da biblioteca é feita por coordenadores que são moradores da região. Após alguns anos a biblioteca precisou ser transferida para o Jardim Parque das Laranjeiras.

Passados alguns anos, os coordenadores da biblioteca continuaram nutrindo o desejo de um acervo de vinis, que começou quando a biblioteca se instalou no Jardim Parque das Laranjeiras, onde pessoas que iam doar livros perguntavam se eles também aceitavam discos, a biblioteca passou a receber as doações. Hoje quem vai a biblioteca com certeza ouvirá um vinil tocando na vitrola. “Aqui, televisão só quando tem jogo. Datena? Na hora que ele entra no ar, aqui já ‘tamo’ ouvindo Bezerra da Silva faz tempo”, brinca Lima. Ainda segundo ele, as crianças costumam achar estranho o uso do vinil na vitrola, “elas não acreditam como o disco funciona”.

“Aqui, televisão só quando tem jogo. Datena? Na hora que ele entra no ar, aqui já ‘tamo’ ouvindo Bezerra da Silva faz tempo”

Sérgio Ramos, 43, funcionário de uma indústria em Sorocaba, é um grande fã de rock, ele conheceu a biblioteca através de um amigo ligado ao hip hop que lhe apresentou o espaço. Atualmente é um frequente visitante do lugar e voraz ouvinte do acervo. “Por diversas vezes estou lá escuntando algo com o Josue e alguém puxa um ‘bolachão’ e diz vamos escutar esse. Muitas vezes nos surpreendemos por ser algo muito bom e que ainda não tínhamos escutado. Em outras ocasiões alguém pergunta de alguma banda que conhecemos pelo menos de nome, e dizemos, vamos escutar então! Isso é muito bom”, descreve.

Além de muitos admiradores, o acervo da biblioteca acúmula histórias curiosas. “No acervo tem um disco do Led Zeppelin de 1973, muito raro, um colecionador ofereceu R$700 por ele. A gente não acreditou no valor da oferta e ele não acreditou quando não aceitamos. E até hoje tem muita gente que não acredita que houve essa proposta”, lembra Josue.

“No acervo tem um disco do Led Zeppelin de 1973, muito raro, um colecionador ofereceu R$700 por ele. A gente não acreditou no valor da oferta e ele não acreditou quando não aceitamos. E até hoje tem muita gente que não acredita que houve essa proposta”

Entre os discos que se destacam no acervo existem exemplares do início da carreira de Zeca Pagodinho e de Chitãozinho e Xororó, de quando ainda eram adolescentes, do Roberto Carlos, “o preferido das senhoras”, como conta Lima, e também dos Mamonas Assassinas, um de seus preferidos.

Para desbravar, experimentar e se encantar com esse rico acervo, basta visitar a Biblioteca Comunitária Laranjeiras, na Rua Michel Chicri Maluf, nº 450, no Parque das Laranjeiras, em Sorocaba.