Quem é a vítima?

Moro em um lugar que é escondido dos olhos do mundo e que só é visto quando se está em páginas policiais: a favela. Lugar que é dominado pelo tráfico, pelo crime e pela escassez de políticas públicas. Cresci, me formei e moldei meu caráter morando na favela. Grande parte da população brasileira vive assim. Contrariando aquele papo de que “ser bandido é consequência de crescer neste tipo de lugar”. E não é!

Mesmo com tantos problemas no lugar, não fui para o lado mais fácil. Muito pelo contrário, todas as manhãs encontro pessoas nas vielas e nos ônibus, que às 5h já estão lotados. Nesse horário, pessoas já descem o morro e a vida já bate na porta para mais um dia difícil na labuta. Na vila, existem creches que antes deste horário já recebem crianças. Os pais deixam chorando, com um aperto no peito e só um pensamento na cabeça: de que as coisas não são fáceis e que um dia vão melhorar.

Todos eles teriam motivos suficientes para escolher o mundo do crime, mas acabaram optando pelo caminho do bem. Ignoram o fato de que por crescer na favela, não recebem oportunidades e por isso podem acabar virando vítimas da sociedade. De fato, não receberam oportunidades. Eu também. E todos que moram em comunidades também não. Isso não nos torna bandidos, nos faz fortes. Nos faz ter força para seguir em frente, descer nossas vilas e ir em busca de algo melhor. Fazer nossos “corres” sem prejudicar ninguém.

A velha teoria de colocar a culpa no sistema ainda ecoa, e muito por aí. Talvez o transmissor desse ideal tenha frequentado uma boa faculdade, lido pilhas de livros do filósofo Karl Max, absorvido mundos de teorias e hoje grita aos quatro ventos em rede nacional que a culpa é da sociedade. Sem nunca ter subido o morro. Sem nunca ter sentido a sensação de ver um conhecido com uma arma na mão. É a banalização do crime sendo levada para o campo filosófico, sociológico, virando fenômeno comum e fugindo do foco, do que realmente importa.

Quem optou pelo caminho errado nunca será vítima da sociedade. A vítima é o vizinho dele. O cara que é obrigado a parar no sinal à noite. A pessoa que usa a mochila nas costas no centro. A senhora que acaba de sair do banco. O pedestre que anda com o celular na mão. A mulher que sai à noite da faculdade. A vítima é a sociedade.

Tenho muito orgulho da favela. Nesse lugar quero criar meus filhos, passar os ensinamentos que os meus pais me passaram. Instruir e educar para que ele admire aquelas pessoas. Essas que possuem quase nada, trabalham duro e tem pouquíssimo, mas não foram para o crime. Pessoas que mesmo com tão pouco, têm tudo que eu mais respeito. Afinal, ser bandido não é consequência de morar na favela, é só mais uma opção.