Sobre a escolha do perdão e o processo de perdoar

Desde criancinhas nós estamos acostumados a ouvir sobre perdão. Quem costuma frequentar a igreja, principalmente, já deve ter perdido as contas de quantas vezes o perdão foi pregado e ovacionado como aquilo que há de mais nobre na atitude humana. Mas o que é, afinal, perdoar? Como a gente sabe que perdoou alguém?
Eu não aconselho que você busque por respostas desse tipo no Google, já que há muitas chances de você receber links com textos e mais textos dizendo que o perdão é quando você “deixa para lá alguma coisa”. Mas se parece tão simples, por que é tão difícil colocar em prática?
A minha experiência com o perdão mudou a minha vida e a minha maneira de ver o mundo e tudo o que nele está incluso. Há um tempo, eu vivenciei a oportunidade de perdoar uma pessoa muito próxima de mim, que tinha colocado a mim e a minha própria família em uma situação muito desconfortável. Digo que eu vivenciei a oportunidade porque, para mim, o perdão é uma escolha. Mas não é uma escolha dessas como decidir o sabor da pizza ou que peça de roupa vestir no fim de semana. É uma escolha que se faz para, então, se permitir passar pelo processo. Mas, ainda assim, é uma escolha.
“Decidir pelo perdão é o que vai abrir as portas para o processo que é perdoar alguém”
Comigo, o processo de escolher perdoar essa pessoa levou alguns meses. Intensos meses. Mas há quem leve semanas ou anos. Se há uma verdade sobre o processo de escolha do perdão é que ele leva o tempo que cada pessoa precisa para amadurecer coisas dentro de si mesmo. E isso de “amadurecer coisas dentro de si mesmo” foi, para mim, uma das etapas mais importantes de todo a caminhada.
Ainda sobre a questão de escolher passar pelo processo de perdão, eu defendo a ideia de que se trata de uma escolha tanto quanto quem defende a importância de se tomar decisões na vida. Decidir emagrecer, decidir guardar dinheiro na poupança, decidir largar o cigarro, decidir deixar de alimentar um sentimento rancoroso e destrutivo. Tomar a decisão de perdoar é o passo necessário e primeiro, porque enquanto você não decide romper com alguma coisa ou pessoa, a situação vai continuar sendo alimentada, seja lá o que for este alimento. E nós sabemos: tudo na vida é uma questão do quanto a gente nutre e do quão grande a gente decide ver.
O meu processo de perdão evidenciou uma série de coisas que valem a pena ser compartilhadas:
- A escolha pelo perdão é “apenas” a escolha. Entre aspas porque não é fácil, mas em negrito porque é apenas uma parte do todo. Por isso, não espere que tomar essa decisão vá resolver tudo o que você está sentindo logo no minuto seguinte. Como eu disse, essa escolha é a abertura para o processo.
- O processo do perdão é sobre a gente mesmo e nunca sobre quem ou que está sendo perdoado. Quando você decide perdoar, a sua escolha diz sobre você e o que o outro vai fazer com o seu perdão é uma escolha dele.
- É comum que se confunda o perdão com a desculpa. Desculpar (des + culpar) é retirar a culpa e isso não é pré-requisito para perdoar. Só a gente sabe o peso da consequência de certas coisas na nossa. Mas também aprendi — e quero estampar em todos os outdoors do mundo — que, assim como o que a gente faz diz sobre a gente, o que o outro faz diz sobre ele. Não diz sobre a gente e, portanto, a responsabilidade não é nossa.
Quando eu entendi essas 3 coisas, eu consegui entender que eu não preciso — e nem mereço — alimentar uma situação que me faz mal. Foi quando eu pratiquei o amor-próprio e me coloquei em evidência como alguém merecedora de paz e bons sentimentos. Foi quando eu senti que era hora de deixar ir uma coisa que me fazia tão mal (e somente a mim). Foi aí que a escolha pelo perdão se deu na minha vida. E eu recomendo fortemente que ele se dê na sua também.
