Opiniões

Eu sou uma pessoa de regras. Não que as siga o tempo todo ou em qualquer momento, mas gosto de vê-las e conhecê-las meio com para como saber quem são os parentes distantes ou quem são os ministros do governo atual. Não que eu os saiba também, mas gosto do processo.

O legal das regras é que elas tendem a ser universais, ou seja: se aplicam normalmente a todos, especialmente a mim. E, como não poderia deixar de ser, eu normalmente só consigo contar com minha limitada experiência do mundo para formular essas regras tais. Podemos então dizer que sou um tecelão de regras que aplicam-se primariamente a mim mesmo e, por inferência, para a humanidade.

Pouco pretensioso, não é? Mas, de certa forma, é o que fazemos diariamente: olhamos para o mundo ao redor e tiramos conclusões a partir do nosso ferramental cognitivo, seja ele arcabouçado por anos de estudo ou apenas por senso comum. Descartes faz isso, o taxista que me trouxe do aeroporto também. E eis aí a primeira regra: espelhamos a nós mesmos no mundo ao redor porque só entendemos dele aquilo que já carregamos conosco.

Ok, você pode dizer que tem a tal mente criativa e as pessoas sempre podem aprender mais e mais. Está certo, mas as pessoas precisam estar dispostas a largar as antigas maneiras de enxergar o mundo para entender uma nova, mesmo quando ela se manifesta de dentro para fora. Um alienígena pode caminhar na principal avenida das maiores cidades do mundo e passar (quase) desapercebido se não aprendermos a enxergá-lo como ele é. Entender o que nos é estranho não vem naturalmente.

Como disse, temos várias noções sobre as coisas ao nosso redor e sabemos por experiência (ou por estudo, o que é pior) o que esperar dessas coisas às quais temos noção. Isto é a essência do preconceito. É o uso do estereotipo para definir, planejar e reagir aos fatos da vida. Até aí nenhum problema. Isto nos trouxe das savanas até à selva de concreto que habitamos. Mas e quando o que supomos não é o que achamos?

Tergiverso para definir um conceito. Tudo que acho sobre algo é, para mim, a opinião sobre esse algo. Toda opinião sobre algo que se confirma como verdadeiro é, para mim, o saber sobre esse algo. Todo saber que se confirma universal (ou seja: não só para mim, mas para todos) é uma ciência.

Somos todos escravos da opinião, esta filha bastarda do preconceito e prima distante da ideia, do saber e da sabedoria. As opiniões governam nossos atos desde o amanhecer até a hora de dormir. Por conta das nossas opiniões escolhemos o “melhor” lugar na cama, a forma de escovar os dentes, o que comemos no café da manhã, os caminhos que faremos para os nossos trabalhos e assim por diante. Raramente nós perguntamos se nossas opiniões são fundamentadas, se elas se baseiam fatos e saberes. Mais raramente ainda se são ciências. Nós não somos seres científicos.

Recentemente nossa opinião passou a ter valor. Faz-se riqueza com o que achou sobre as coisas, dá-se voz e poder de acordo com os consensos (essa opinião que se multiplica na mente dos outros como virii) e paga-se (mal) para que todos tenhamos opinião sobre tudo e todos.

Dai temos dois graves problemas: dificilmente as opiniões são ciências (ou mesmo saberes) e nem todos conseguem (ou deveriam) ter opinião sobre tudo. Sobre o primeiro ponto, não me estendo, acho que é auto-explicativo. Sobre o segundo, tiro duas regras: a do ignorante e a do burro.

Ignorante é quem ignora e todos nós o somos em algum nível. No último grau, não sabemos quando morreremos ou qual a cor da cueca que estou usando hoje (eu não me lembro mais) e não há mal nenhum em dizer “eu não sei”. Só que, como disse antes, ter opiniões tem valor. Se eu não as tenho, não tenho sequer esse mínimo valor social, não tenho poder de troca.

Nas redes sociais fazemos propaganda de nós, nossos gostos e opiniões o tempo todo. É este o negócio delas. É esse o nosso negócio quando delas participamos. É nesta toada,exprimimos achismos por puro e simples pré-conceitos. Não nós damos o trabalho de descer um nível e ler algo na contrapartida, não chegamos fatos, dados e nomes. Não nós preocupamos com a ciência das coisas. O fluir das integrações propicia isso. E, convenhamos, é um saco ficar checando dados mas isto não justifica a opinião (mal-)dada. Além disso é humanamente impossível saber tudo sobre tudo. Que tal não ter opinião sobre aquilo que não se conhece, não se entende e não se interessa?

Quando somos apresentados a dados, fatos e nomes que contradizem nossas opiniões, nos abalamos. Eu posso até crer em fadas mas não tenho dados que comprovem minha crença, minha opinião. Isto pode mudar bem pouco minha conduta, mas o que falo pede valor automaticamente. Isto implica que sou pouco criterioso com o que penso é menos ainda com o que falo.

No momento em que fatos e dados apontam para o oposto do que eu penso o “correto” a se fazer é conferir esses fatos e dados (vai que a fonte se engana) e refazer minha opinião. Estar errando ante a ignorância não é mau nem é um mal. Se, no entanto, persisto no meu caminho, insisto no meu argumento e me fecho aos fato e dados, se nego a realidade ao meu redor por puro medo de perder o valor daquilo que falei, da opinião desembasada que emiti, torno-me um burro que teima no erro. Este, acima de tudo e todos, deveria manter a sua opinião no bolso ou apenas para seu séquito de ignaros.

A burrice contagia e se espalha como fogo em palha seca. Pior: ela não tem classe social, ideologia política ou nível educacional.

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Tags: burrice, ciência, ideias, opiniões


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