Sobre o valor da realização

Tenho ficado muito incomodado com o momento que vivemos.

Essa sensação de que “todo mundo” critica tudo o que todo mundo diz é presente em todas as discussões, online ou não. E as pessoas simplificam isso tudo dando o nome de “chatice”.

Falando com alguns amigos por aí, comecei a elaborar algumas conclusões. E confesso que relutei (e ainda reluto escrevendo este texto) em publicá-lo.

A internet está estragando as coisas.

Calma. Isso é só uma frase de efeito, e é em torno deste tipo de recurso que eu quero falar.

A internet transformou todas as pessoas em mídia. A internet não, o capital social.

Este, mudou a forma como nos relacionamos socialmente, como falamos sobre os produtos e serviços, como conseguimos descontos, e como muita gente ganha a vida — se transformando em pessoas relevantes, midiáticas, especialistas e autoridades (muitas vezes sem formação e credenciamento para tal).

Esse capital social inverteu a relação de poder da mídia, das marcas e das pessoas. Criou organização para as pessoas irem às ruas se manifestar. Criou escala para economia informal. Criou ideais até então impensáveis e uma geração de pessoas que realmente acham que vão ficar facilmente milionárias lançando “um app de troca sustentável de porta-copos ecológicos através de geolocalização”.

E aqui está um dos problemas: este “sonho” se torna possível porque existem histórias que validam esses sonhos. Mas muitas dessas histórias são editadas. Editadas para serem reconhecidas como bem sucedidas, quando nem sempre são. O que faz desses sonhos, possibilidades. Possibilidades para poucos. Mas ainda possibilidades.


O mundo está funcionando desse jeito:
Tudo o que você diz, compartilha e interage, serve para construir sua persona.


Serve para construir a forma como você é visto pelas pessoas que são seus seguidores, amigos e semelhantes (nas redes que você escolheu estar presente).

Juntando esse contexto ao ego, chega-se a realidade editada ou projetada.

Ou seja. Por que compartilhar uma foto com uma couve presa nos dentes, se tenho a escolha de postar uma sem? Por que postar uma foto da multa que você recebeu? Para criticar o guarda ou para assumir publicamente que errou? Por que construir uma imagem de derrota no lugar de uma de vitória? Óbvio. Porque ninguém quer parecer um perdedor.

Algumas marcas entenderam isso e geram conteúdos com esse objetivo. Isso é técnica. Compartilho porque quero que a atitude de uma marca que luta por uma causa que eu acredito me represente.

Essa é a regra hoje.


Você compartilha porque te representa e não por que você gostou, riu ou achou importante repassar.


E é exatamente por isso o grande número cases de ONGs em Cannes. Por isso e pelos prêmios, que junto com os releases, constroem a imagem dos profissionais e das agências — que muitas vezes não são o que esses trabalhos representam. Entende?

O perverso é construir-se um vencedor sem ser. E através desse recurso virar um líder/chefe/empresário/empreendedor/empresa incompetente.

É publicar fotos da sua viagem de 3 dias durante um mês, para parecer uma pessoa com uma vida mais interessante do que é. Para qualquer um querer e achar que é plenamente possível viver dessa forma.

Isso é quase que uma armadilha da nossa psique. Você precisa pensar que nem tudo merece esse filtro de equity pessoal. Que nem sempre comentar atacando uma pessoa vai construir aquilo que você acha que vai. Já passou da hora de entender que você precisa escolher suas brigas.

// Aqui vale lembrar que eu não sou um estudioso. Essas são conclusões minhas. Provavelmente alguém mais capacitado, inteligente e até com mais dados concretos do que a minha mera percepção do mundo, tenham escrito coisas parecidas. Não perca seu tempo em comentar e jogar essas referências na minha cara para se sentir superior ou vitorioso. Compartilhe para agregar ao assunto. Faça esse exercício. //

Essas teorias de realidades projetada e editada, fazem sentido e complementam (ou constroem) essa teoria: Hoje, o valor do argumento é maior do que o do fato.

Por exemplo: trocar a foto do perfil para apoiar a aprovação Norte Americana do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Barbada! Mais do que acreditar nisso, é importante agregar a causa à sua imagem. É legal que isso te represente — entende? (Óbvio que a maioria das pessoas que trocou acredita mesmo que isso é uma boa, mas essa não é a pauta por aqui).

// Aqui vale outro break. O Facebook sabe TANTO deste fenômeno social que desenvolveu uma ferramenta no timing ideal para você brilhar! Ele quer tanto que você surfe nesse ufanismo maluco, que o algoritmo passa a reconhecer que seu circulo de amigos fizeram algo que você também fez, e passa a apresentar os posts de vocês entre vocês. E só depois sai a notícia de que esse “todomundismo” é uma sensação falsa que o usuário tem sob seu próprio ponto de vista. Apenas 2% do FB trocou suas fotos de perfil. Fique esperto! //

Só que esse fenômeno vazou pra fora do mundo da Social Media. Note, eu sei que ele sempre existiu. Estou aqui dizendo sobre a escala que a internet deu pra isso. Isso virou a prática do mundo.

A Dilma não precisa resolver um problema. Ela precisa de um bom discurso que comprove que o problema não existe, ou que não é tão grave quanto você imagina, ou ainda que diga que ja foi resolvido. Retóricas ou negativas argumentativas são a lei. Igual com o Dunga. Igual com Cannes. Igual com o problema da sua TV a cabo. Todo mundo busca a declaração e não a realização. Queremos empatia no lugar de solução. E isso tem embrulhado o meu estômago.

O que antes era um recurso que se limitava a advogados, políticos, publicitários e argumentadores em geral, sempre em salas fechadas onde o contexto era levado em consideração, agora é comum à toda e qualquer pessoa.

E isso tem causado uma alteração muito complicada no altura do sarrafo da opinião pública. São raras as pessoas preparadas para enfrentar as discussões que participam. E infelizmente se não são, vão ser escrutinadas e expostas ao julgamento da sociedade.

Isso é muito complicado. Isso leva ao chamado “Public Shaming”. Isso leva ao suicídio. A sociedade não é formada por advogados que estudam e tem conhecimento sobre o que discutem. Na vida real, errar ainda deve ser humano. Isso é queimar bruxas em 2015, só que sentadinho em frente ao notebook. Porra!


Há algum tempo o falar tem valido mais do que o fazer. Nunca foi novidade pra ninguém que fazer é melhor do que falar, mas os níveis estão alarmantes por causa dessa falsa sensação de relevância que as redes sociais nos proporcionam.


Se todos viraram “mídia” com as redes sociais e essa exposição inevitável que sofremos, nossos objetivos acabam virando muito mais noticiosos do que conquistáveis. E isso vale para tudo. Se no final das contas o que vai te construir e te representar é a forma como as pessoas vão ler sobre o que você faz, basta escrever direito e você não precisa fazer nada. Fazendo um paralelo ao mundo da propaganda old school, é meio que fazer um video case da vida, e no caso, a vida é uma campanha fantasma.

E o mesmo tem acontecido com a política, com o futebol, com as agências de propaganda e em todas as esferas do mundo. A maioria esta só falando o que deve ser feito em busca de reconhecimento. De likes. De retweets.

Quem só fala, tem que saber falar bem e tem que saber o que fala.

Se tiver furo, o lado bom e ruim das pessoas aparece, e a verdade vem à tona.

Eu não tenho solução para o problema.

Na real até tenho.

Focar na verdade.

Focar em fazer mais e em falar menos.

O que é um tanto contraditório é ter essa frase presente no final do texto — que basicamente é um recurso meta-linguistico que fora deste contexto vai ajudar a construir a imagem deste que vos escreve.

Nesse caso, não é o objetivo. É efeito colateral.

O que eu quero é que você reflita e valorize o fazer no lugar do falar.

Não para que eu esteja certo.

Mas para que as coisas melhorem

Texto publicado originalmente no @Youpix > https://www.youpix.com.br/sobre-o-valor-da-realiza%C3%A7%C3%A3o-7156716ca472
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