Avareza, a ambição dobrada

Parte correspondente a avareza do obra “Os sete pecados capitais” de Jérôme Bosch.
O pecado da avareza centraliza-se na ambição dobrada: obter o que não temos e manter o que temos. O contraponto do primeiro é o contentamento e do último a generosidade, ambos são o cerne da misericórdia.
Enquanto a ambição nega aos outros até mesmo a justiça, a misericórdia oferece mais do que apenas justiça — seu caráter é dar além da razão, além da justiça, além da expectativa. Como Portia, de Shakespeare, diz em O Mercador de Veneza: “A qualidade da misericórdia não é forçada”.
Em outras palavras, a avareza pode precipitar outros pecados tanto de comissão (como fraude, traição e violência) quanto de omissão (como a indiferença em relação às necessidades do próximo). Os estudiosos medievais caracterizavam, de maneira resumida, os pecados de omissão simplesmente como “insensibilidade para com a misericórdia”.
A misericórdia não é apenas ausência de avareza, mas presença de generosidade. Mais do que apenas “não ser avarento”, a misericórdia é pró-ativa no dar — não apenas abrir mão da riqueza, mas distribuí-la entre os necessitados. Como escreveu William F. May: “O oposto verdadeiro da avareza, do ser pão-duro, não é a mão vazia da morte, mas a mão aberta do amor”.

por GUINNESS, Os. Sete Pecados Capitais — Navegando através do caos em uma era de confusão moral. Ed: Shedd Publicações. 2006, p.128

* A imagem acima é a parte correspondente a avareza na obra “Representação dos sete pecados capitais” de Jeroen Bosch. A obra completa pode ser vista aqui: http://virusdaarte.net/wp-content/uploads/2013/03/pec-7.jpg


Originally published at zebruno.wordpress.com on February 17, 2016.