Estúpidos no plural: tentando sobreviver em tempos estranhos.

Vivemos na Era da Estupidez. E quando não fomos estúpidos? E somos estúpidos não porque sabemos pouco, mas por acreditarmos que sabemos muito. Este “muito” que supostamente sabemos, que nos enche de certezas e imperativos, que nos faz nos sentir mais fortes, parece não expandir nossa visão de mundo. Pelo contrário, até que nos cega. E feito os cegos de José Saramago tateamos num mundo de frenéticas visibilidades e luzes ofuscantes. Cegamos e há luz. Quanto mais vemos, menos enxergamos. Quanto mais nos informamos, menos sabemos. Cada dia mais conectados. Incrivelmente, mais distantes e solitários. Se somos estúpidos, o somos no plural.

Os livros de autoajuda vendem milhões. Oferecem um manual, fórmulas, roteiros, para uma existência iminentemente antimanual. A vida é imprevisível. E o quanto isso nos assusta? Não tem problema. Até aquilo que nos apavora e paralisa movimenta o mercado. O grande Deus de nossa sociedade. Livros, remédios, terapias, produtos, etc. Consumir é a resposta mais rápida - e a mais cômoda – que aprendemos a dar para as questões/angústias que a existência interpõe em nossos caminhos cotidianamente. Na dúvida, na fúria, no medo, na coragem, no amor, na solidão, na fome, no excesso, no sonho, na realidade, consuma. Não importa se é dia ou não, a estação do ano, o mês. Consuma! Se isso não lhe fará melhor, pelo menos poderá olhar para o lado e se sentir fazendo parte de um “coletivo” – que não se conhece ou interage – mas que, como você, consume avidamente. O consumo, talvez, nos una mais do que a solidariedade ou o amor. Consumimos não apenas mercadorias ou serviços, mas, sobretudo, estilos de vida. Jeitos de existir são vendidos a mil nos mercados. Ligue a TV e haverá, em algum canal, alguma apresentadora simpática e maquiada, dizendo, da maneira mais feliz e sedutora possível, como você deve se vestir; como deve se portar publicamente; como você deve “encarar os desafios da vida”. E ela não fará isso sozinha! Com ela, um ou um pequeno esquadrão de especialistas proferindo supostas verdades de como devemos criar nossos filhos, cuidar de nossos animais de estimação, potencializar nossa carreira, etc. Verdades úteis ao funcionamento deste grande sistema que nos captura, pois nos seduz. Não é a violência que nos cerceia, mas um jogo de sedução e beleza. De certo modo, a estupidez é bonita, pois reflete, não a alienação que a produz, mas o estilo de vida que disseram que devemos almejar.

O estilo de vida que tanto almejamos e que nos faz cada vez mais estúpidos, é o mesmo que ajuda a destruir o planeta. O aquecimento global e a inegável mudança climática parecem não nos fazer rever nossos hábitos. Vivemos como se não houvéssemos que cuidar da natureza da qual fazemos parte. Viver como se não houvesse o amanhã, não significa nos eximir de nossas responsabilidades com este mundo. Pelo contrário, significa que, no tempo presente, eu preciso aprender a ser capaz de valorizar o agora e cuidar do que na vida me faz mais potente. O homem não é algo a parte a natureza, ele é a natureza. Destruir esta é nos destruir. Somos estúpidos quando um rio é destruído – como aconteceu com o Rio Doce – e o máximo que conseguimos fazer, de articulação coletiva, é publicar nossa tristeza no Facebook através de pequenos folders com frases de efeito. O Rio continua contaminado e este acontecimento não produziu sequer um arranhão, quiçá um desvio, neste nosso estilo de vida. “A Samarco e a Vale do Rio Doce tem que pagar pelo que fizeram!” O que esta frase oculta é que nós, também, somos os responsáveis por esta tragédia. E por tantas outras, ambientais ou não, que sempre percebemos como distante a nós.

A cartilha do mercado nos diz: sejam competitivos! Os mais fortes, quer dizer, os supostamente mais bem preparados vão vencer. Qualquer um pode vencer! Basta estudar, se esforçar, trabalhar arduamente que chegará lá. Naquele oásis de dinheiro, status e conforto que que nos espera depois de um estranho arco íris monocromático de uma vida entregue ao trabalho. O mercado capitalista é cruel. Coloca o lucro acima de qualquer coisa. As fábricas de armas precisam de guerras como as fábricas de remédios precisam de doenças. A morte de uma população interessa se justifica, desde que dê algum tipo de lucro para alguém ou alguma empresa. Nos submetermos acriticamente a todas as demandas do mercado é uma estupidez. “Mas precisamos sobreviver! Precisamos ter emprego, dinheiro, para mantermos e desenvolvermos nossas vidas”. Contudo, até onde estamos apenas sobrevivendo? Até onde optamos por um estilo de vida que nos despotencializa pois passivamente nos coloca diante da esperança de, em algum dia, ter “uma vida plena”. Esta soa como mais uma ilusão que, por mais que a persigamos, fugaz escapa de nós. A vida plena não chega e ela jamais chegará enquanto tal vida melhor for vivida de modo egoísta. Não pode haver “minha vida plena, feliz”, enquanto milhares morrem de inanição, apesar de toda comida que jogamos fora todos os dias. Não haverá vida melhor enquanto parcela significativa da população do planeta vive abaixo da linha da pobreza; enquanto povos são massacrados por estúpidas guerras; enquanto àqueles que fogem destas são deixados para morrer no mar, no deserto, no meio do caminho que os levariam a uma vida menos bélica; enquanto inúmeros são perseguidos, torturados e assassinados por suas opções religiosas, políticas ou afetivas. Milhares padecem diariamente, mas os sinos, de John Donne, insistem em não dobrar. Se o fazem, surdos, já não o ouvimos. A vida plena que o mercado nos promete é uma vida que não chega, pois não existe.

Os discursos midiáticos pautam nossas vidas. Os jornais se destacam menos pelo que publicam e mais pelo que silenciam. Produzem consensos úteis aos jogos de interesses. Fabricam superficiais análises e respostas simples, facilmente digeríveis. A “grande mídia”, como é chamada as grandes corporações midiáticas, vendem uma determinada versão dos fatos e da história. O perigo de uma histórica única nos cerca, como diria Chimamanda Ngozi Adichie. Criam violões e mocinhos. Sustentam, hipocritamente, que o seu jornalismo é imparcial e eticamente comprometido. É um estratégico e perigoso canto de sereia. Ora! Todo jornalismo, toda mídia, fabrica uma notícia, vincula uma informação, sempre a partir de determinado ponto de vista. Não há imparcialidade, mas ferrenha luta para impor o seu ponto de vista como o mais verdadeiro. Somos estúpidos quando tomamos a produção discursiva da “grande mídia” como norteadora inquestionável de nossas análises sobre a sociedade e o mundo. Na verdade, não analisamos nada. Reproduzimos os discursos que nos aparecem como os certos. Sequer nos damos o trabalho de averiguá-los a partir de diferentes fontes. Afinal, estamos ensoberbados em demasia porque não há tempo, porque chegamos cansados demais do trabalho, porque a quantidade de informações em nossa timeline do Facebook é mais veloz do que nossa capacidade de parar para analisar cada um. É muito mais simples comprarmos, como se nós mesmos as tivéssemos pensado, as verdades que as mídias nos vendem. Novamente, cegamos com a certeza que sabemos muito sobre tudo. Quando, na verdade, nem sabemos como gerir tantas informações.

Parafraseando Bertold Brecht, que tempos são estes que temos que defender o óbvio de uma vida menos estúpida? Não temos respostas de como mudar o mundo e transformar a vida. Até porque jamais haverá uma resposta única ou mais verdadeira. O mundo é plural. As possibilidades de caminhos, também. Mas sequer começamos a fazer as perguntas! E questionar é muito mais importante do que decorar teorias ou fórmulas para o sucesso no mundo do trabalho. É provocar uma fagulha que pode incendiar um jeito engessado de olhar o mundo e abrir caminhos para outros mundos – menos estúpidos – possíveis. “Vivemos tempos estranhos”, como diz Isabelle Stengers. Façamos deste tempo estranho um tempo de estranhamentos.