Por uma vida menos anestesiada

Dor. Dói tudo

Doem os corpos que caem alvejados

E as crianças na rua vagando sem rumo

Doem todos aqueles sonhos abortados.

Dói ver as portas e as janelas cerradas

As grades de ferro cercando os muros

O medo estampado covardia nas caras

Doem todos aqueles gritos mudos.

Dói o câncer, a sífilis

E sua legião de enfermos

Dói a AIDS, a pneumonia, a hepatite

E as coisas que ainda não sabemos.

Dói a fome, a sede

Pior, tem comida, tem água sobrando

Dói a desnutrição e suas crias

Esqueletos humanos, crianças apáticas agonizando.

Dói a estupidez de mais uma guerra

Já foram tantas e outras mais diferentes

Dói ver o descolorido flagrante de nossa época

Pior, como dói saber que poderia ter sido diferente.

Doem todas as nossas misérias históricas

As desigualdades seculares e hipócritas

Dói o preconceito, a violência e o racismo

Dói não olhar o que é preciso ser visto.

Doem na pele as mentiras que engolimos

E todas as falsidades que alimentamos

Dói perceber que nunca fomos mais do que isso

E saber que assim jamais seremos diferentes do que somos.

A dor é profunda e às vezes dá vontade de parar

Mas a roda viva continua a todo vapor a girar e girar

Então, apesar dos males e das tristezas é preciso acreditar

Que, mesmo que tudo diga o contrário, é possível mudar.

E se a dor for ainda mais pungente e mordaz

Que nossos desejos de transformar a vida

Então é que num momento simples e fugaz

A gente pode descobrir que ela é mesmo bonita e bonita.

E como as águas da chuva que caem no chão

Ou as nuvens que passam velozes no céu distante

A vida corre depressa, e não espera não

É preciso saber fazer valer a pena cada instante.

Pode até doer às tristezas, mas sempre haverá alegrias

E motivos pra continuar firme caminhando e acreditando

Pois apesar de todas estas dores não quero anestesias

Prefiro de olhos abertos e pés no chão, continuar sonhando.