Os famosos, e Amanda Knox

O documentário produzido pela Netflix, que leva o nome da protagonista, incia dizendo “se eu sou culpada significa que devem me temer, porque não sou o tipo óbvio, por outro lado, se eu sou inocente, significa que estão vulneráveis, e isto é o pesadelo de todos.” Mesmo sendo uma fala recheada de apelo emocional, nesta, Amanda fadou sua confusa história. Onde as quantidades mentiras e desdobramentos ainda hoje, 9 anos após o crime, dificultam que cheguemos a uma conclusão.

Amanda Knox conta da personagem-título durante os anos em que fora condenada pelo assassinato de sua colega britânica Meredith Kercher, com quem dividia um aluguel na Itália. A história global que envolveu investigadores ingleses, britânicos e italianos, chega ao serviço de streaming mostrando os comportamentos estranhos de Knox, sua relação confusa com o namorado de cinco dias, Raffaele Sollecito, que também fora condenado, a cobertura tendenciosa e massiva da empresa e o orgulho sem escrúpulos dos investigadores locais.

Sou uma sociopata vestida em pele de cordeiro, ou eu sou você — Knox

Quanto a cobertura do caso, e o ego do jornalista

Para retratar o acompanhamento midiático do caso, o documentário aborda o fato globalizado e romanceado da situação, onde uma vítima britânica supostamente teria sido assassinada por uma americana, conhecida pela beleza, e seu namoro relâmpago o no interior da Itália.

Nick Pisa, que até hoje escreve para o DayliMail, usou justamente de todos estes artifícios literários, e como quem escreve um bom romance retorna aos personagens sempre que possível. Durante a uma hora e meia que dura o “vídeo”, Pisa é confiante e orgulhoso, apontando as vezes que fora capa de seu jornal e condenando o casal, na mesma via que desconsidera Rudy Guede, também apontado como suposto assassino e comprovadamente esteve no local, por ser “menos interessante.”

Quando compara a sensação de seu sucesso, ou quando julga que os investigadores se sentiam honrados por dar entrevista para um jornalista britânico, Nick nos relembra os principais problemas do jornalismo, essencialmente os que trabalham com. Seu ego não permite que ele separe a cobertura de sua visão, passando a mensagem de que é superior as provas e evidências. Não importasse o que fosse dito pelo juiz, Amanda Knox já era conhecida por “Foxy Knox”, uma “assassina depravada”, e assim seria reportada por ele.

Com toda certeza ela fez isto, ela é louca — Pisa

Quanto a investigação

Em vários momentos o documentário de Rod Blackhurst é uma batalha de egostismos. Giuliano Mignini se apresenta dizendo o quão fã de Sherlock Holmes é, de que sentencia um caso pelas minucias das provas, de que desde o início “indubitavelmente” duvidara da moça.

Da mesma forma que Pisa, Mignini relata os fatos se vangloriando, mas diferente do jornalista era ele quem dava as cartas, tendo a mídia a seu alcance quando precisava — e precisou diversas vezes.

O investigador não se incomodava com as câmeras dentro e entorno da investigação, dava entrevistas e sempre que podia se coloca como herói de Perúgia. Por ele a investigação era um embate pessoal, com Meredith Kercher de plano de fundo.

Mesmo sem traços que comprovassem que Knox ou Sollecito estiveram no quarto onde Kercher foi encontrada com a garganta cortada, ele decretou a promotoria que eram cúmplices.

Um homem não faria isso — Mignini

Por detrás de toda a mentira que se formou sobre a morte da jovem Meredith Kercher, Amanda Knox nos faz pensar sobre o comportamento humano quando em evidencia. Knox não demonstrava muito seus sentimentos, e isso aliado ao preço que dava a sua sexualidade foram capazes de pintar uma imagem negativa e condenável, muito antes da faca encontrada na casa de Sollecito, com quem Amanda namorava, onde seu DNA estava presente. “Adoradora de lúcifer, satanista, demoníaca, diabólica, uma bruxa da enganação”, como um dos jornais se referia.

Mignini e Pisa se esqueceram de suas batinas, tão pouco se lembravam de suas funções. Nick Pisa fala do compromisso com a ética e das praticas jornalísticas contra revelar fontes, sem perceber que exercia uma mídia sentenciadora e secessionalista. Ambos, mesmo hoje durante a gravação do documentário, não vivenciaram a realidade das ações contra a garota, quando foi torturada a tapas em seu depoimento.

A história de Amanda é complicada. De um lado temos esta figura confusa, que mente em depoimento no mesmo segundo que o desconsidera, de outro uma polícia do interior, despreparada e maquiavélica, que em momentos a fez acreditar ser HIV positivo para pressioná-la emocionalmente — tudo cercado por uma lógica de jornalismo mercadológico suja e sem compromisso.

Casa de Meredith Kercher e Amanda Knox, onde os crimes ocorreram.

As provas contra Knox foram facilmente taxadas de inconclusivas. A faca apenas provava que Amanda havia usado, mas não que a vítima tivesse se quer tocado, tal como a unica prova de que Raffaele Sollecito estivesse na cena, diferente de outros dois materiais genéticos encontrados, de homens ainda não identificados.

O caos tornava-se uma rixa internacional, onde os EUA apontavam para a Itália, que enfurecia os profissionais da jurisprudência, sobretudo Giuliano Mignini, que se recusara a aceitar a contaminação das evidencias, o desleixo e descaso das investigadores baseado em seu achismo.

Amanda Knox, o documentário, está disponível no Netflix.
Confira o Trailer:

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