Stranger Things: o monstro NÃO É a Eleven

Você já viu Stranger Things, certo? Aquela série que só foi boa porque a Netflix usou seus algoritmos maquiavélico-capitalistas para o computador gerar magicamente o roteiro, referências, selecionar os atores, pessoal da arte, takes e tudo o mais. Sim, aquela que é um mix de E.T. - O Extraterrestre, Super 8, Silent Hill e mais um monte de sucessos que dariam até para formar um acrônimo com o título. Aquela mesma que daqui a pouco vai passar na TV brasileira com o nome de “Stranger Things: os poderes do mal” ou algo assim.

Um amigo me enviou um artigo com o que, segundo o próprio texto, está sendo considerado o conjunto com a melhor teoria sobre Stranger Things até o momento. Pegando as citações deste, cheguei ao texto “Teoria Stranger Things (I’m The Monster)”, do Abner Pereira .

Realmente tem muita coisa boa lá; muitas partes da teoria geral são bem legais. Mas, pessoalmente, discordo da maioria das conclusões, inclusive da principal, que é a de que o monstro é a Eleven. E é justamente essa “contra-interpretação” (totalmente pessoal) que vou apresentar nas próximas breves linhas: de que o Mundo Invertido não é “a Hawkins do futuro” e que o monstro não é a Eleven.

PS: Você entendeu que se não tiver lido o texto do Abner antes de continuar lendo este, vai ficar perdido, certo? Certo.


O nome da cidade é “Hawkins”

Uma das principais bases que o Abner usou para corroborar sua teoria de que o monstro é a Eleven é que a cidade em que a trama se passa se chama “Hawkins”, sendo esta uma referência direta a Stephen Hawking, um dos maiores nomes no que diz respeito a teorias que tratam de física quântica, dobras no espaço-tempo e buracos de minhoca.

Pessoalmente, acredito que a única coisa que isso indica é que… Bem, eles homenagearam o Stephen Hawking. Nada além, nada aquém.

Projetos Montauk e MK Ultra

Projetos Montauk e MK Ultra foram projetos reais — continuados e existentes até hoje, mas com outros nomes (mas isso é assunto para outro artigos) — que, não surpreendentemente, são relacionados com desenvolvimento da indústria bélica e controle/subjugação de pessoas para fins escusos. Partes desses projetos têm a ver com tanques de privação sensorial, desenvolvimento e controle de poderes da mente e contatos inter-dimensionais (também amplamente abordados na série).

Aqui, também não vejo como sustentadores da teoria de que o monstro é a Eleven, mas simplesmente como referências a fatos do mundo real para justificar e dar mais contextualização e coerência à trama da série — inclusive, gostei bastante da sacada do Abner de que a Becky, a tia que cuida da mãe da Eleven é, na verdade, sua manipuladora, já que, na vida real, é bastante comum manipuladores serem pessoas próximas, inclusive membros da família.

“O cara russo”

Aqui é um dos pontos chaves da “contra-interpretação”. Consta no texto:

[…] é também num tanque que Eleven entra algumas vezes para acessar o Mundo Invertido mentalmente, tipo o Cérebro usado pelo Professor Xavier em X-MEN. É aí que ela encontra o homem falando russo […] e logo em seguida escuta o som do monstro. Um episódio depois Eleven encontra o próprio monstro naquele lugar.

Dentre os comentários do texto, um que ajuda bastante a mostrar meu ponto de vista é:

E é exatamente isso — tirando a parte de que ela não “viaja” no espaço, efetivamente; é algo mais próximo do que o pessoal chama de “viagem astral” ou “desdobramento” relacionado à sua própria consciência. Os cientistas faziam experiência para desenvolver os poderes da Eleven para conseguirem, de alguma maneira que nem eles sabiam como — por nem conhecerem a total extensão dos poderes da carequinha — , obter vantagens em relação a outros países.

Tanto é que, na icônica cena, a Eleven escuta e retransmite a conversa do “cara russo” daquele universo, naquele tempo. Provavelmente o Governo não conseguiria tirar muitas vantagens em obter informações sigilosas de um russo de outra dimensão, não é verdade?

Aí vem a parte em que “depois Eleven encontra o próprio monstro naquele lugar”. Na minha interpretação, naquele momento, justamente por ela ainda não conseguir controlar (ou sequer conhecer) a extensão e totalidade das próprias habilidades, ela “misturou canais de contato” entre universos — o que responde as perguntas “O que faz um homem russo no mesmo ambiente onde está o monstro? Como ela uniria realidades tão distintas?”.

A fenda entre presente e futuro

Em certa parte do texto, diz o Abner que

Após El tocar no monstro no salão escuro (o que gerou um caos no tempo), a saída que a natureza encontrou para concertar esse desequilíbrio foi abrindo uma fenda entre o futuro e o presente já que dois seres haviam tido contato.

Não é bem assim. Basta assistir à cena (ep. 6) para ver que o que gerou essa “fenda” foi um imenso pico de poder incontrolado da Eleven decorrente do estado emocional em que ela ficou. A coisa toda não desencadeou quando ela tocou o monstro, mas sim quando ela ficou absurdamente assustada!

Sentindo a cútis macia.

Só isso já seria o suficiente para comprovar que o monstro não é a Eleven — não houve contato físico entre o mesmo ente em espaços-tempos diferentes para gerar uma possível ruptura/maluquice no continuum.

Em relação ao esqueleto encontrado no Mundo Invertido pela mãe do Will (ep. 8), nada — absolutamente nada — aponta que ele “pertencia àquele lugar” e, conseqüentemente, seres humanos já habitaram normalmente alguma dia o “outro lado”. Pode ser 1000 coisas.

Para dar exemplo de uma possibilidade: nada se sabe sobre o monstro (ou monstros) que habita aquele universo e o que é capaz de fazer. O esqueleto está envolto numa espécie de teia de aranha, mas não há qualquer indicativo do tempo em que ali está — que eu me lembre, não fizeram uma datação por Carbono-14 ou algo parecido. Desconhece-se, inclusive, os efeitos químicos que aquela teia de outra dimensão pode causar num corpo fresco, se pode deixá-lo num estado esquelético em poucas horas etc. O que, de ângulo algum a ser considerado, exclui a possibilidade de aquele ter sido um lanchinho recém-colhido de nossa dimensão.

Aliens já habitaram normalmente algum dia o “outro lado”?
O Mundo Invertido é a Hawkins do futuro que pode ter ficado daquele jeito naturalmente com a contaminação da fenda se alatrastrando pela cidade. (sic)

Nah… Mesmo uma contaminação mais hard core do tipo, sei lá, Raccoon City, não faz com que todo o ambiente fique no escuro todo o tempo. De nada tem a ver uma cidade ser contaminada por um câncer inter-dimensional com o Sol desaparecer. Sem sombra de dúvidas, aquela é uma dimensão com “regras” diferentes, não somente a mesma cidade depois de passados alguns anos.

O monstro

No texto, consta que os irmãos Duffer (os produtores de Stranger Things) afirmaram algumas coisas interessantes, dentre elas:

Sobre o Mundo Invertido, temos um documento de 30 páginas que explica sobre o que ele significa, [1] de onde o monstro veio e porque [2] não existem mais monstros
  1. O que fez o Abner chegar à conclusão de que “o monstro veio de um lugar. Ele não pertence ao mundo ‘invertido’”, eu não sei, mas, pessoalmente, acredito que dar uma única interpretação a esta afirmação é limitante. Quando falamos “a galinha veio do ovo”, não significa que dentro do ovo existe uma universo paralelo, por exemplo; é somente uma maneira de falar.
  2. O produtores terem afirmado isso, absolutamente não significa que seja o que acontece/vai acontecer na série. Não é novidade alguma que obras de ficção se alteram conforme sua popularidade, feedback do público, alteração de decisões internas etc, portanto, somente no momento em que o material final está concluído e é apresentado ao público é que se pode chamá-lo de “oficial”. Se aparecerem mais 20 monstros numa possível próxima temporada, não vai haver contradição alguma com um documento feito não sei lá quanto tempo antes na fase de planejamento do projeto.

Mais para o fim do texto, infelizmente leio a conclusão de que a cena final da batalha entre a El e o monstro é a prova cabal e definitiva de que se trata da mesma “pessoa” porque… Ambos estão com o braço direito levantado!

“Super-gêmeos! Ativar!”

Se Eleven e o monstro realmente fossem a mesma, ficariam as dúvidas-incoerências:

  • Por que sua forma se deteriorou ao ponto de parecer que a Umbrella Corps teve algo a ver com isso?
  • Por que e como ela perdeu seus poderes psíquicos? Ou, se não perdeu, por que não os usa mais?
  • Desde quando e por quais motivos ela resolveu mudar sua dieta de waffles para algo mais, digamos, “substancioso”?
  • Os quitutes que o Delegado Jim fica deixando na floresta servem para o quê, então?
  • E, a pergunta mais importante: por que diabos a mutação em “Demogorgon” não deixou as peitcholinha da menina crescerem?!

Concluindo: o monstro NÃO É a Eleven

No artigo do Abner, muito mais derivações da teoria principal de que o monstro é a Eleven são mostradas. Por aqui, me ative a somente contrapor pontos principais que, se bem entendidos, dispensam a “revisão” de tudo o que lá foi tratado.

Gostaria muito de agradecê-lo por ter escrito o artigo, em primeiro lugar. Sempre gostei de assistir a filmes e séries e ainda mais das “teorias ocultas” que nós, fãs, inventamos — e, às vezes, adivinhamos.

Para as inúmeras perguntas e questões em aberto que ficaram na série — para citar somente algumas, por que o Will foi atingido por um Slugulus Eructo e fica trocando de dimensões aleatoriamente? Por que as pessoas conseguem se comunicar através de luzes quando estão no Mundo Invertido e como descobriram que podiam fazer isso? Por que o Delegado Jim fica deixando oferendas para a El na floresta? Como a Nancy consegue ser tão magra? — , minha resposta é: eu não sei.

Uma das partes mais intrigantes do artigo do Abner foi que os irmãos Duffer têm um documento que explica mais sobre o Mundo Invertido. Como foi visto, devido aos sabores e dessabores da audiência, não significa que, seja lá o que nele conste, isso se tornará “oficial”.

Caso se torne e venha a fazer parte da trama que o monstro é a Eleven, não será a primeira vez que séries/filmes são incoerentes dentro do próprio universo que seus idealizadores criaram — especialmente quando o assunto é viagem no tempo.

Se isso realmente acontecer, pelo menos eles têm uma boa desculpa: qual é mesmo o nome da série?