O país do futebol


Ontem o dia exalava forte as batalhas, beleza, paixão, glória ou dor que explodiriam de noite para os amantes genuínos do esporte mais popular do planeta. Era dia de decisão da Taça Libertadores, a taça dos sonhos de qualquer clube e torcedor de nosso continente. O que havia, porém, na grande mídia brasileira sobre os preparativos finais e clima em Buenos Aires antes do jogaço entre River e Tigres? Meras notinhas frias nos grandes jornais ou o pachequismo estúpido e infantiloide de quem sempre torce contra qualquer clube ou produto argentino. Sim, a infantilidade povoou o dia todo da programação da única rádio brasileira exclusivamente esportiva, a Bradesco Esportes, em que um a um os jornalistas (?) foram declarando sua torcida pelo Tigres e a emissora ainda emitia de fundo o funk do bonde do Tigrão.
Em vez do bairrismo estúpido ou desinformação mesmo, nossa mídia devia é ter feito jornalismo.
Deviam também ter respeitado quem ama futebol. E quem ama futebol sabe que o país do futebol, falando em paixão e loucura do torcedor por um clube, e por como se respira futebol em todos os cantos do país, chama-se Argentina.
A Argentina em que qualquer taxista, funcionário de bar, café, restaurante, hotel ou qualquer outro comércio, se tocamos no assunto, começa a falar empolgado sobre seu clube de coração, ou sobre seus clubes de coração como costumam ser dois: o pequeno clube de seu bairro e o clube grande por quem já fez qualquer loucura.
A Argentina em que os torcedores dos clubes foram, são e serão sempre realmente um bando de loucos a cantar-empurrar seus times o jogo, campeonato, ano e vida inteira, nos bons e maus momentos. E farão isso cantando, pulando e correndo em estádios vivos, infernais, emocionantes, e não nas arenas belas (nem todas) mas assépticas que surgiram no Brasil e não deixaram espaço e ingresso popular para o povo e torcedores mais apaixonados.
A Argentina que arrepia qualquer amante da bola do resto do mundo que sente o clamor de suas torcidas mesmo quando entramos num passeio numa Bombonera vazia.
A Argentina que nos arrepia a cada transmissão de TV com esse clamor sem fim de hinchas comoventes, do mais simplório trabalhador ao Deus da bola que vira sempre menino quando está, quase sempre, na tribuna, Don Diego Maradona.
A Argentina que escreveu os mais belos textos — sejam reportagens nos jornais, revistas e sites ou livros — sobre futebol com mitos das letras chamados de ontem e hoje, de Osvaldo Soriano e Roberto Fontanarrosa a Ariel Scher, Eduardo Saccheri e cia.
A Argentina que produziu a mais bela, poderosa e emocionante cena de futebol de um filme, a filmada num jogo do Racing (una pasión!) no sensacional ganhador do Oscar O Segredo dos Seus Olhos, drama-romance-policial-filme político e também comédia (tudo num filme só) inspirado num livro de Saccheri.
A Argentina cuja capital Buenos Aires e arredores deve ser a capital com mais pequenos e grandes clubes do planeta.
A Argentina que viu uma equipe inferior tecnicamente, mas toneladas de alma superior, conquistar de forma gloriosa a Libertadores na maravilhosa noite chuvosa com o Monumental de Nuñez lotado ontem.
A Argentina cujo segundo clube mais popular do país, o River Plate (pouco atrás do Boca, com quem possui a maior rivalidade do planeta) completou mais uma página sensacional da sua redenção do inferno da caída para a 2ª divisão, poucos anos atrás, e poucos meses depois de se classificar de forma milagrosa na 1ª fase dessa Liberta. Dessa Liberta das mais improváveis e heroicas conquistas de um clube no campeonato que sempre exige doses máximas de heroísmo.
A Argentina não foi o River ontem, pois sua mídia boleira e não-boleira não comete essas bobagens mentirosas, até ridículas, pra ganhar audiência. Mas a maioria dos apaixonados por futebol do resto do mundo — exceto uma enormidade de brasileiros que caem na bobagem do bairrismo com os hermanos, talvez porque nunca tenham pisado em solo portenho ou argentino e respirado a loucura futebolística no ar — foi River ontem.
Pena que não poderemos ler ou ver muita coisa no Brasil sobre essa conquista maravilhosa.
Pena que os bairristas mostrarão e falarão apenas do festival de pontapés do 1º tempo e esquecerão que tanto River como Tigres atacaram com uma coragem rara em uma final em toda essa 1ª etapa.
Pena que não se cantará, em prosa e verso, em corpo e alma, os gols e jogadas mágicas que resultaram numa das conquistas mais incríveis da história da Liberta.
Parabéns, River, e muito obrigado, hinchas de branco e vermelho, cor do amor puro e ultrapassional, pela maravilhosa atuação empurrando seu clube, seu coração, para esse título inesquecível.

Por Zé Augusto de Aguiar

PS — Claro que há muitos problemas no futebol argentino, como a selvageria dos idiotas-bandidos das torcidas-bandos organizados, a falta de muitos talentos, emigrados há décadas para o futebol europeu, a crise econômica dos clubes etc, mas só quis discutir um pouco a bobagem da birra hermanos-brasileiros. Lá eles não têm a mesma birra com a gente, com exceções do sempre gozador e algumas vezes de mau gosto jornal Olé. E quanto ao amor pelo futebol, só indo lá para perceber a dimensão e como é maior que a nossa. Basta saber que no Brasil, por exemplo, a última pesquisa sobre torcedores mostrou que há mais brasileiros que simplesmente não gostam de futebol que torcedores de alguma equipe em especial.

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