Carrinhos espalhados pela sala e você, Bibi.

Na noite de sábado achei que nunca mais ia conseguir dormir. Senti sua presença no meu quarto e acendi a lanterna do celular na esperança de que você estivesse ali, na cama de baixo, olhando pra mim e agradecendo por não ir dormir sozinho, como a gente fazia quando era criança. No domingo, viajei pra te ver pela última vez. Mesmo que soubesse do acidente, eu tinha certeza de que você abriria o portão da sua casa nova pra gente. E me mostraria seu quarto, o som novo que tinha comprado e o seu tão amado Gol. No lugar, paramos o carro em um descampado. Lá no meio da grama, um pontinho todo de preto caminhava em nossa direção devagar: sua mãe, minha prima. Saí correndo em direção a ela e pensei como essa cena seria bonita se não fosse tão dolorida. Quando a abracei, ela se soltou inteira e segurei o choro porque ela precisava de mim — não que eu seja forte, mas nesse momento, você seria. E então, achei que nunca mais conseguiria me livrar da dor enorme que me invadia. Voltar pra casa não foi fácil. Desfazer a mala, tomar um remédio pra dormir, acordar cansada, tomar muito café, voltar pra cama, encarar o teto, ficar ali. O dia estava quase terminando quando eu comecei a achar que nunca mais caminharia sem sentir o vazio remexer dentro de mim. Abri meu computador sem um objetivo em mente e comecei a passear pelas fotos. Te encontrei sem os machucados pelo corpo, sem o curativo no rosto, com os olhos abertos: abraçado comigo, sorrindo. Dentro da barraca, gargalhando da minha careta. No meio dos carrinhos espalhados na sala e a pista que montamos juntos. Na piscina, com o colete amarelo e o medo de não aprender a nadar. No balanço da árvore, me gangorrando. No carona do carro porque era você quem mostrava o caminho nas viagens e dirigia com o seu volante imaginário. Nos braços da vovó e nos meus. Respirei fundo, sem chorar, e me deixei ser atravessada por um calor no peito que se espalhou pelo meu corpo: só você pode me curar da dor da saudade que você deixou pra trás. Te deixei se achegar em mim, levando embora todas as imagens difíceis de digerir e trazendo o som da sua risada e seu cheiro no meu quarto. Eu sei, Bibi, que é hora de seguir. Continuamos juntos: é você quem mostra o caminho de volta.

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