Os pisos novos do chão da vida.
Esses últimos dias foram silenciosos por aqui. Quando preciso gritar, calo a escrita e deixo meu travesseiro ouvir tudo o que não tinha como ser dito. É incrível quando sentimos o fluxo da vida e percebemos que o equilíbrio também é fluido: não é só paz, é paciência também. Semana passada minha amiga teve alguns problemas no apartamento dela: o piso estourou. Enquanto eu acompanhava as brigas com a proprietária e a imobiliária, fui acompanhando as maiores certezas da minha vida estourando também. Cada dia uma: uma mensagem de manhã na segunda, uma ligação difícil na terça a noite, uma notícia que colocou tudo a perder na quarta… E em paralelo, a discussão na imobiliária ia se tornando parte dos dias corridos dela. A gente começou a cogitar que, naquela altura do campeonato, era muita conexão pra gente estar tão atoladas ao mesmo tempo. Quase que quando os ciclos menstruais se alinham (só que bem pior do que TPM em conjunto). O sentimento sem nome, mas muito peculiar e incômodo de que tem muita bagunça e poeira e piso quebrado e gente estranha por aqui não cabe só à casa: cabe à vida. Aos períodos incertos, tumultuados e incontroláveis. Ao final das contas, os pisos foram trocados. Todos. Lá no apartamento dela e aqui — porque estou pisando sob novas crenças, sonhos e vontades. Limpamos a poeira da obra, despedimos da aparência antiga dos cômodos e estamos tentando nos sentir em casa de novo com as mudanças. Tudo foi tão cansativo que não é preciso fazer muito esforço pra se sentir confortável ao ver tudo voltando ao lugar: é lar. Hoje acordei com o coração acelerado, meio assustada e precisei me lembrar que não tem mais nenhuma pendência pra resolver: a obra interna acabou. Até pegar o meu celular e ver que minha amiga me mandou uma mensagem: mês que vem a proprietária quer trocar os azulejos da cozinha, se prepara. E então, percebi que a vida é isso: um troca-troca de chão, de quadro, de móvel, de parede. Obra e arte, caos e paz.
