Quando tudo se foi pelos ares.

inconstâncias.
Sep 3, 2018 · 2 min read

Domingo é sempre um dia silencioso aqui em casa. Quando não é ressaca, é preguiça. É churrasco que invade a tarde e sono de depois do almoço que se emenda à noite. Ontem, por acaso, tomei meu antialérgico e fui dormir antes do sol. Acordei pouco depois da meia-noite morrendo de sede. Enquanto esvaziava minha garrafa, peguei o celular e, completamente drogada, li “FERNANDA, O MUSEU” da minha prima e “você ainda tem as fotos?” de uma amiga. Sem entender e até pensando se seria um sonho, desbloqueei a tela e as fotos iluminaram meu quarto. O fogo tinha tomado o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. Abri o Facebook e procurei pelas fotos do meu passeio escolar em 2012. Com um rabo de cavalo muito bem alisado, brincos chamativos e o uniforme muito bem passado, lá estava eu: na frente do museu, abraçada às amigas da época. Fechei meus olhos e tentei me lembrar de como foi. Cheiros, texturas, visões, risadas, gostos, conversas, cochichos, paradas, corridas, olhares. Dentre as tantas coisas, imagens confusas muito bem noticiadas na reportagem sobre as perdas me alcançaram. Luzia, o crânio brasileiro de 11 mil anos, os esqueletos de diversos animais encontrados no nosso solo e toda a história da Família Real Portuguesa resistiram a todo e qualquer dano do tempo, mas arderam em destruição no Brasil atual. Pisar sob os tetos pintados a mão e respirar a história do meu país foi um privilégio imensurável alcançado graças a professores que ainda não se preocupavam com a pressa capitalista de nos preparar para o vestibular. Ainda tínhamos tempo e paciência para aprender com o passado. Ainda tínhamos verba para viajar e revisitar centenas (milhares!) de anos atrás. Ainda acreditávamos em um Brasil rico e diverso. Nunca uma frase como “Um povo sem história é um povo sem memória”, da Helena Pignatari, fez tanto sentido quanto agora. Completamente nus, como nossos povos antepassados, às vésperas de um 07 de Setembro, não temos nada. Em meio às discussões políticas, como num gesto desesperado e de último pedido de socorro, sobe a chama no palco da Primeira Assembleia Constituinte da República que clama por luta. Precisamos de um futuro que não queiramos queimar — tão rico e único como o passado em exposição que se foi. Amanheceu fuligem e documentos pelo ar: um crime muito bem arquitetado lá de Brasília. De todas as vezes que fomos assaltados pelo governo, hoje vivemos o maior dos roubos: acordamos milhares de anos mais pobres.

    inconstâncias.

    Written by

    escrita é ferramenta de afeto pra transitar no mundo. Por Fernanda Zeloschi.