Das origens à modernidade: os encontros inusitados dos saraus de RicoChoro ComVida na Praça

Evento chega à terceira edição amanhã, na Praia Grande. Projeto percorrerá ainda outras seis praças de São Luís

Quando o choro surgiu no começo do século XX já era um híbrido de música europeia adaptada ao calor e alegria brasileiros. Polca, lundu, maxixe e tango eram ingredientes do caldeirão que ferveria, sendo temperado até tornar-se a mais genuína música nacional, conforme atestam diversos pesquisadores.

A origem do gênero musical é incerta, ao menos geograficamente falando. “Muita gente defende o Rio de Janeiro como berço, mas se a gente analisar, nomes como Antonio Rayol e o acervo do padre João Mohana já tinham choros em seus repertórios, ao mesmo tempo em que ele supostamente surgia. Ou seja, pode ter surgido no Rio de Janeiro, mas surgiu também no Maranhão”, defende Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, apresentador há 25 anos do Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM.

Quem também advogava raízes maranhenses para os gêneros fundantes da música popular brasileira era o compositor Antonio Vieira. Como o percussionista Arlindo Carvalho relembrou em seu depoimento à série Chorografia do Maranhão: “Uma vez [o compositor baiano] Riachão estava numa discussão com [a cantora e compositora] Dona Ivone Lara, se o samba nasceu no Rio ou na Bahia. Eu, calado, chamaram Vieira. “Vieira, o samba nasceu aonde? No Rio ou na Bahia?” Ele disse “nem um nem outro, nasceu no Maranhão!” [gargalhadas]. E acabou a discussão”.

Arlindo e Vieira conheceram-se no final da década de 1970, quando integraram a formação original do Regional Tira-Teima, fundado pelo multi-instrumentista Ubiratan Sousa, cuja música batiza o grupo, que viria a acompanhar Chico Maranhão no mítico Lances de agora (1978).

O percussionista participaria, depois, de outras formações com o compositor, como o Sururu no Galinheiro e o Surra Curuba, regional com que Vieira, aos 80 anos, gravou seu primeiro disco, ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, com produção de Zeca Baleiro. Além destes, fundaram também o Urubu Malandro, batizado por choro de Louro, João de Barro e Pixinguinha.

O grupo, um quinteto, até hoje, ao se apresentar, mantém uma sexta cadeira, vazia, no palco. “É nossa forma de homenageá-lo, de manter vivo seu legado, de música e do aprendizado que cada um de nós, em seu convívio, teve”, declarou Arlindo.

O grupo se completa com Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), Juca do Cavaco e Osmar do Trombone e é o anfitrião do terceiro sarau de RicoChoro ComVida na Praça, que acontece sábado (24), às 18h, na Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão. O projeto tem patrocínio da TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e é uma produção de RicoMar Produções Artísticas. Foi idealizado e é coordenado por Ricarte Almeida Santos e tem produção executiva de Marla Silveira e Euricélia Coqueiro.

Após desfilar seu repertório de choro e samba, incluindo músicas de Seu Vieira em versões instrumentais, o Urubu Malandro receberá os cantores Claudio Lima e Marcos Magah, no palco. Encontros pra lá de inusitados.

Ambos têm dois discos gravados e estão com os terceiros discos a caminho, e consolidaram-se como nomes importantes e interessantes da música produzida no Maranhão neste início de século XXI. Claudio Lima estreou dando roupagem eletrônica a clássicos da música do Maranhão e repertório consagrado nacionalmente, interpretando músicas de Antonio Vieira, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Gilberto Gil, Dorival Caymmi e Macau, entre outros. Depois gravou um disco de voz e piano, dividido com o baiano Rubens Salles (radicado nos Estados Unidos), mantendo a versatilidade: Cada mesa é um palco (2006) — batizado por um verso de Bis, de Cesar Teixeira, que abre o disco — traz, no repertório, Luiz Gonzaga, Herivelto Martins, Bruno Batista e Tom Zé, entre outros.

Marcos Magah voltou a cena em 2012, quando lançou o aclamado Z de vingança, com sua mistura única de rock, punk e música brega. O disco chamou a atenção de Bruno Azevêdo, editor da Pitomba Livros e Discos, que lançou-o por sua casa editorial. Depois de um sumiço após ter consolidado uma cena punk em São Luís a partir do bairro do Cohatrac, entre o final da década de 1980 e início dos anos 2000, o artista voltou a fazer shows com frequência, na capital, interior e em Teresina/PI. Depois de Z de vingança lançou O homem que virou circo.

O terceiro sarau de RicoChoro ComVida na Praça terá abertura do DJ Samir Ewerton, que se interessou pela discotecagem na adolescência, quando ouvia programas de “balanço”, denominação dada à dance music em São Luís, na época. Hoje, Samir Ewerton integra a equipe de locutores da Rádio Universidade FM, onde apresenta o programa Elektra, especializado nas várias vertentes da dance music.

Serviço

O quê: RicoChoro ComVida na Praça — 3ª. edição
Quem: DJ Samir Ewerton, grupo Urubu Malandro, Claudio Lima e Marcos Magah
Onde: Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão
Quando: sábado (24), às 18h
Quanto: grátis
Maiores informações: facebook.com/ricochorocomvida
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão

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