Múltiplas devoções

O bom público presente ao Largo de Nossa Senhora de Nazaré no último sábado (8). Foto: Zeqroz Neto

Fiéis seguidores de Nossa Senhora de Nazaré encontraram-se com fiéis seguidores do choro na noite do último sábado (8), quando o projeto RicoChoro ComVida na Praça visitou a Praça da Igreja Católica do Cohatrac, unindo o circuito musical que percorre nove praças da capital maranhense com shows gratuitos ao tradicional festejo religioso, realizado há 24 anos.

Apesar da restrição ao consumo de bebidas alcoólicas no largo, o que levou muita gente para os bares dos arredores da praça, um bom público prestigiou as apresentações, que tiveram como anfitrião o Regional Chorando Calado, formado por João Eudes (violão sete cordas), Lee Sousa (flauta e saxofone), Wanderson (percussão) e Wendell Cosme (cavaquinho e bandolim).

A intérprete de Libras Fabiana, Tiago Máci e Tássia Campos, acompanhados pelo Regional Chorando Calado. Foto: Zeqroz Neto

Do último, um dos destaques do repertório, o Baião teimoso, que se juntou a clássicos do bumba meu boi maranhense, rearranjados em ritmo de choro: o Urro do boi, toada do Bumba Meu Boi de Pindaré, de Coxinho, hino do folclore do Maranhão, e o Boi de lágrimas, de Raimundo Makarra. Simplesmente de arrepiar, tanto que ninguém lhes poupou elogios: nem os artistas que o grupo acompanharia no palco, Tássia Campos e Tiago Máci, morador do bairro, em participação especial, nem o mestre de cerimônias Ricarte Almeida Santos, idealizador e coordenador do projeto, patrocinado pela TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, com produção executiva de Marla Silveira e Euricélia Coqueiro, através de RicoMar Produções Artísticas.

Além do quarteto de instrumentistas ela foi acompanhada no palco por Fabiana, intérprete de libras, que mandou bem tanto na função quanto na dança. Tássia Campos atacou uma sequência de clássicos, abrindo com Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu) e fechando com Brasileirinho (Pereira da Costa/ Waldir Azevedo), a versão letrada do choro veloz, com uma deixa para o Chorando Calado encerrar apoteoticamente retomando a versão instrumental original.

Em meio a tudo isso, Carinhoso (Pixinguinha/ João de Barro), Disseram que voltei americanizada (Vicente Paiva/ Luiz Peixoto), Peito vazio (Cartola/ Elton Medeiros), Onde a dor não tem razão (Paulinho da Viola/ Elton Medeiros) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza).

Com a participação de Tiago Máci interpretou Ray-ban (Cesar Teixeira). Depois deixou o autóctone sozinho no palco para interpretar À musa, de sua autoria, um samba em que demonstra influências diversas, entre as quais o próprio Cesar Teixeira e Sérgio Sampaio.

Talvez seja, entre as edições realizadas e as vindouras, a de menor média de idade no palco de RicoChoro ComVida na Praça. Entre instrumentistas e cantores, provas incontestáveis de talentos inversamente proporcionais às idades.

Jorge Choairy, mago das trilhas carnavalizantes. Foto: Zeqroz Neto

Encerrando a noite, a primeira música que o DJ Jorge Choairy tocou em sua sequência foi Yaô (Pixinguinha/ Gastão Vianna). “Vamo saravá! A quem, meu pai? Xangô!”, convida a letra, na ocasião aumentando a roda da ciranda do sincretismo. Não era carnaval, nem aqui é o Rio de Janeiro, mas era uma vez a Praça da Apoteose ao final de um desfile de talentos.

Gran finale. Foto: Zeqroz Neto

A próxima edição de RicoChoro ComVida na Praça acontece dia 22 de outubro (sábado), às 18h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), tendo como atrações o DJ Marco Antonio (Vinil Social Club), o Regional Tira-Teima e o bandolinista pernambucano Marco César Brito, responsável pela organização e renovação da cena choro em Pernambuco.