Liberdade de Sentir

Pensamos e sentimos o tempo todo e embarcamos nisso de cabeça, sem muito critério, achamos que não temos escolhas quanto ao pensar-sentir.

Quando nós temos algum sentimento geralmente mergulhamos nele como se não houvesse saída, como se aquele sentimento fosse tão sério que não pudesse ser negligenciado, e mais, pensamos que não há outra forma de sentir, seguindo isso, então possivelmente encontraremos um suposto causador pra aquele sentimento. Culparemos o trânsito, o namorado, o amigo, não importa quem, acharemos um agente pra aquele sentimento desconfortável.

Assim, cremos que quem nos causa o sentir é o outro. Podemos facilmente acreditar que foi o trânsito engarrafado que nos trouxe a raiva, que foi o término com a namorada que trouxe a profunda tristeza, ou ainda que foi o presente do amigo que nos deixou contentes.

Nesse caminho, esquecemos que quem sente é a gente, que o sentimento e o pensar surgem em nós, que a nossa interpretação do mundo cabe a nós. E se seguirmos esse raciocínio, perceberemos que as ações em si são vazias, somos nós que damos a elas algum valor, algum pensamento, algum sentimento. O trânsito, o término, o presente, qualquer outra situação (ou pessoa), nada querem dizer, nós é que imbuímos formas pessoais de sentimentos e significados a eles.

Isso é fácil de perceber, pois vejam, se contamos uma história a várias pessoas, cada uma dessas pessoas vão lançar um olhar sobre ela, cada pessoa vai ter um sentimento sobre o que contamos, a história em si é vazia, somos nós que damos a ela um significado e geramos no nosso íntimo um sentimento sobre.

E tem de exemplo ainda aquele presente lindo que seu ex-namorado te deu, que na época você amou, mas hoje detesta! Ou ainda, quem nunca ouviu: terminamos, acabou o amor, não aconteceu nada, simplesmente não o amo mais.

Assim, quando pensamos que o outro é que causa determinado desconforto emocional em nós, caímos em uma grande ilusão e, pensar dessa forma, sempre arranjando culpados pras nossas intempéries, nos torna refém do outro, tiramos assim nossa liberdade.

Digo isso porque se realmente fosse um agente externo a nos causar sentimentos, estaríamos fadados a sentir, pra sempre, conforme as ações desses agentes. E a realidade corre muito longe disso.

Podemos afirmar que as situações ou o outro despertam em nós sentimentos, mas eles não são os verdadeiros causadores, lembremos, os sentimentos nascem em nós, no nosso íntimo. Nós somos os verdadeiros responsáveis pela forma que sentimos as situações.

Se fosse o outro que causasse o sentimento, a visão de uma pessoa seria unânime na sociedade, todos amariam ou odiariam o fulano, não teríamos um sentimento pessoal sobre ele, na hipótese em que o fulano fosse dotado de causar sentimentos. Mas não, cada um vai ter um sentimento particular sobre o fulano, e ele continua lá, sendo o mesmo ser, tendo o mesmo DNA, nós é que geramos o sentimento. Reforço, o outro, as ações ou as situações são lugares vazios, nosso olhar, nossa mente é que cria pensamento-significado-sentimento sobre.

Desse modo, temos liberdade pra escolher o que sentir sobre aquela situação ou agente, não estamos fadados a sofrer por conta de um sentimento despertado por alguma situação ou alguém, se é em algum lugar em nós que o sentimento nasce, podemos escolher o que sentir.

E é ai que surge a importância de nos observarmos. O primeiro impulso do sentir talvez não seja passível de escolha, uma vez que estamos mecanizados a reagir emocionalmente, tal como robôs programados a sentir padrões de sentimentos. Pois muita coisa já foi convencionada socialmente: se fui traído preciso sofrer, se fui aprovado em um concurso preciso ficar contente, e aí por diante. E mais além: nós mesmos já cristalizamos padrões pessoais de sentimentos à determinadas situações.

Quando nos permitimos observar, fazer somente isso, olhar pro sentimento, olhar pra situação — tendo em mente que as ações/pessoas/situações são ações/pessoas/situações vazias, que somos nós os responsáveis pelo sentir e pensar sobre, e se fizermos disso um exercício diário, vamos perceber, aos pouquinhos, que temos sim liberdade de escolha nos nossos sentimentos. Que não estamos fadados a sofrer, que não precisamos embarcar em todo pensamento e sentimento e que não precisamos culpar o outro. Somos nós os donos da nossa qualidade de vida.

É bom destacar que aqui eu falo do campo sutil do pensar e do sentir, não digo que precisamos ser passivos às atitudes do outro ou as situações, mas que podemos escolher como vamos senti-las, e então tendo uma maior lucidez emocional, poderemos ter sentimentos e ações mais assertivas, e menos reações.

Que encontremos nossa liberdade de sentir!