da catarse e das coisas cinzentas

Amedronta não a treva completa, mas o que há nela de contrário e malicioso — a vácua distância de dissonância negativa entre aquilo que é, no indivíduo, e aquilo que tende a ser: este último diz-se do líquido negro vertente à consciência, a corroí-la, o qual finda a suscitar um berro estilhaçador de toda crença e esperança possível, tornando-se assim o arauto da impermanência da luz e da eventual mutação da psiquê para um certo “outro lado do abismo”. É desta sorte que toda a coisa indesejada no mundo e nos homens vem a se imiscuir em um canto solitário na decrépita cabana ao centro do ego, a atemorizar os visitantes dotados de belas e ordeiras formas com toda maneira de deformidade simetricamente caótica. Aproximar-se da abominação é equiparável a dar-se de todo ao inexorável abraço do Tânato — mais: é chocar-se contra o inverso do si-mesmo e tornar-se disperso em poeira insubstancial, praticar o hieros gamos profano. Nisto há, todavia, a catarse das coisas cinzentas, a emergir deste mesmo ato de volver a íris para os reflexos grotescos e obscuros para trás dos globos oculares, assim aprendendo a enxergar além do paradigma dual e contraditório. Crê-se normalmente, pois, na homogeneidade de um dogma lucífero e centralizador emanado de não-se-sabe-qual-pessoa, eterno pregador da conformidade àquilo que há de ser naturalmente conforme e, portanto, bom. É desta forma que o normal e o pacífico, em um mundo obsoleto, tornam-se crias aberrantes e despóticas do titã que insiste em enxergar apenas a refração de seus próprios lumes, mas não o espectro sombrio que o persegue e confunde-se com ele próprio. Ver-se espelhado na adaga do assassino ou do suicida é necessariamente ver-se metamorfoseado em coisa horrenda ou em espírito ctônico, já findo e sem qualquer possibilidade de retorno — tão aterrador é encontrar-se futuro dentro da pele e carne de um outro estranho qualquer, ou encontrá-lo obsoleto na sua própria. Volto a insistir: há catarse nas coisas cinzentas; não por serem boas, mas precisamente por não o serem; porque o odor do enxofre infernal a permear as narinas é precisamente a fragrância do enxofre alquímico ao expurgar toda impureza.

Clama pelo fim derradeiro, pois, toda coisa corruptamente incompleta.

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