Montado no trabalho escravo

Repórter tentou ficar duas semanas sem usar produtos feitos com mão-de-obra irregular

Por Daniel Santos

Minha jornada para viver sem trabalho escravo começou quando eu soube de uma informação perturbadora: nunca houve tantos escravos no mundo quanto hoje. Atualmente, cerca de 30 milhões de pessoas são submetidas a algum tipo de trabalho forçado. No entanto, diferente da escravidão dos tempos colonialistas, os escravos modernos não trabalham na minha casa, mas em alguma mina de cobalto no interior do Congo. Fui consultar o slaveryfootprint.org, que diz quantos escravos trabalham para você e, no meu caso, eu tinha surpreendentes 26 a meu serviço.

Então, decidi dar início ao meu experimento: viveria duas semanas sem trabalho escravo. Sem tênis feitos no Camboja. Sem chocolate com cacau do Quênia. Sem manufaturados do Brás. Comecei pesquisando tudo o que eu poderia consumir e também o que eu não poderia. Fiz uma pequena lista em papel, com uma linha no meio. De um lado, estava o que eu teria de tirar da minha vida: Cannabis (que tinha o risco de ter sido plantada no Vietnã), roupas da China e um cuidado especial com eletrônicos como celulares e computadores. A lista continuava: borracha da Libéria, mercadorias feitas no Peru e qualquer coisa produzida no Uzbequistão. Fiquei até mesmo sem jogar meu Xbox One, que, assim como todos os videogames de última geração, era manufaturado numa fábrica chinesa com um histórico de arrepiar o cabelo.

#PraCegoVer: o repórter está sentando em uma cadeira, segurando o celular com ambas as mãos. Usa uma jaqueta preta, um boné e um headphone no pescoço. (Foto: João Victor Marcílio)

Tive uma ideia da dificuldade que seria me abster do trabalho escravo logo no primeiro dia, quando saí de casa e percebi que não tinha levado em consideração uma pulseira que usava, feita na China. Embora existissem muitas fábricas chinesas que respeitassem os direitos básicos dos seus funcionários, produtos feitos lá ainda tinham um risco alto.

Aliás, risco foi uma palavra que ganhou muita importância na minha vida. Antes de começar essa vivência, eu achava que seria tão simples quanto a dieta sem glúten que eu adotei há algum tempo, em que bastava ler o rótulo dos produtos que eu comprava. O problema é que nenhuma empresa faz uma etiqueta escrito “feito com o trabalho forçado de dois cambojanos”, por razões óbvias. Então, toda a minha rotina de consumo deveria ser baseada em quanto risco alguns produtos tinham.

Até existem empresas que garantem produtos 100% éticos, tanto ambiental quanto socialmente. A ONG Fair Trade Movement fez uma lista de produtos que eles recomendam. E, embora a iniciativa seja fantástica, nenhuma das companhias listadas tem filial no Brasil, o que acaba deixando os preços inacessíveis. Se eu quisesse comprar um sapato da Nisolo, por exemplo, gastaria precisos R$ 669,91 mais o frete até a minha casa. Sim, produtos 100% livres de escravidão ainda são artigos de luxo. Além disso, empresas que garantem que não usam este tipo de mão-de-obra não tem aumento de vendas, como acontece com aquelas que se declaram ecologicamente corretas.

Tive que fazer uma limpa no meu guarda-roupa. Separei tudo o que tivesse um risco alto e fiquei com mais ou menos metade das minhas roupas. A mesma coisa aconteceu com os eletrônicos. Para eles, usei uma classificação da ONG Baptist World Aid Australia, que deu notas sobre as condições de trabalho de várias gigantes da tecnologia. Meu celular da LG era B-, a mesma nota do meu notebook da Dell, o que era considerado aceitável. Já alguns alimentos, como o chocolate, que eu tinha mais dificuldade de saber de onde vinham, acabaram saindo da minha dieta.

Procurei me focar no que eu poderia consumir e o guia da endslaverynow.org me ajudou a escolher alguns produtos com risco menor. Tive algumas surpresas agradáveis no meio do caminho. A Intel, uma das maiores fabricantes de processadores do mundo, contratava pessoas para fiscalizar os próprios fornecedores, prática que também era feita pela Puma e a Belkin, a empresa que fabricou minha mochila. Embora trabalho escravo ainda seja raramente discutido, a pressão dos consumidores fez com que algumas marcas se preocupassem com isso.

No mais, surpreendi-me com o fato de a minha vida sem trabalho escravo ter mudado pouco. Eu acabava repetindo algumas peças de roupa com mais frequência e levava meu notebook para todos os lugares, para não usar computadores que eu não sabia de onde vinham. No entanto, nenhuma mudança mais brusca. Eu podia continuar falando no celular, acessando a internet e fazendo tudo que alguém da minha idade fazia.

A minha metodologia, é claro, tem falhas. Comprar produtos com menos risco, por exemplo, não significa que algo que eu estava usando não tinha trabalho escravo. Durante essas duas semanas, por exemplo, eu estive usando roupas da Renner, uma marca que já teve problemas relacionados a trabalho escravo. Apesar de a empresa tomar precauções e só comprar de manufaturas que tem um selo da Associação Brasileira de Varejo Têxtil (ABVTEX), a Renner já teve problemas com uma confecção de São Paulo.

Um pouco de História

O mais antigo movimento de boicote ao trabalho escravo foi uma criação dos Quakers. Os colonos simpáticos, que emprestaram o nome para uma famosa marca de aveia, tem uma tradição de pacifismo. Eles deram início ao que foi chamado de free produce movement (movimento da produção livre), que era um boicote à qualquer produto ou empresa que fizesse uso de trabalho escravo. O movimento ganhou força quando Levi Coffin, um empresário e abolicionista, percebeu que uma loja de produtos feitos apenas por homens livres poderia ser um negócio lucrativo. Isso ajudou a criar a cultura de que era possível combater o tráfico de escravos e continuar consumindo os mesmos produtos, desde que houvesse a preocupação em saber de onde vêm as coisas que consumimos todo dia.

Do outro lado do Atlântico, na Inglaterra, o movimento abolicionista tinha uma certa semelhança com a situação atual: eles também viviam muito longe de onde as pessoas são escravizadas. E assim como nós, consumiam quase que diariamente algo que tivesse trabalho escravo. Na ocasião, o movimento abolicionista começou a comprar apenas açúcar que viesse da Índia — produzido por trabalho livre –, em vez do Caribe — onde era feito com trabalho escravo. Tiro e queda: com o passar do tempo, as vendas de açúcar caribenho despencaram, e as lojas passaram a vender apenas o indiano.

#PraCegoVer: o repórter está caminhando na calçada e olhando para a esquerda. À direita, está uma placa de trânsito. (Foto: João Victor Marcílio)

Depois de semanas lendo sobre as péssimas condições de trabalho ao redor do mundo, comecei a ficar paranoico, sempre pensando na origem daquilo que eu consumia. Se por um lado, eu conseguia ficar sem comprar nada feito diretamente com trabalho escravo, a origem das matérias-primas me deixava inculcado. Eu não faço ideia de qual a procedência do açúcar que existe no café que eu estou tomando agora ou de onde vem o ferro do parafuso que mantém minha cadeira presa. Nosso movimento abolicionista moderno tem uma séria desvantagem em relação ao da Inglaterra de 200 anos atrás. Em um mundo de relações globalizadas, o que eu descobri vivendo (ou tentando viver) sem trabalho escravo é que fazer um boicote eficiente é quase impossível. Um mesmo carro pode ter os freios da Índia, as partes plásticas da Turquia e o para-choque do Vietnã. Não é raro encontrar produtos com origem em nove países diferentes e investigar isso não é só difícil. É, muitas vezes, impossível.

Abolicionistas modernos

Embora eu não conseguisse fiscalizar a cadeia de fornecimento de cada item que eu comprava, esse não é um serviço tão difícil para as empresas. A equipe da ONG Made In A Free World contou com a ajuda de Mira Bernstein, doutora em matemática de Harvard, para desenvolver um software que cruza dados de quais países vendem, por exemplo, minério de ferro, e quais compram isso. Em seguida, colocam na equação quais são os materiais necessários para fazer um computador ou um telefone e, assim, conseguem gerar informações sobre o risco de milhares de produtos. O software vem sendo aprimorado há seis anos, e pode ser usado até por grandes indústrias que trabalhem com milhões de itens. Com um banco de dados dessa qualidade, grandes corporações não podem mais usar a desculpa de que não têm como saber de onde vêm as suas matérias-primas.

Mas fica a pergunta: se é fácil investigar a linha de produção, por que produtos “100% livre de trabalho escravo” ainda são tão raros? Por vários motivos. Principalmente, a competitividade do mercado, que leva empresas a procurarem matérias-primas cada vez mais baratas, sem se preocuparem com a sua origem. Ainda assim, a Baptist World Aid estima que o aumento no preço dos produtos seria de apenas 1,5% se os trabalhadores recebessem uma quantia justa.

Para a assessora de comunicação da Made In a Free World, Karyn Okazaki, geralmente, as empresas não tomam uma atitude por que não são devidamente cobradas pelos seus clientes. “A maioria das pessoas acredita que a escravidão acabou há mais de um século e se surpreende quando ouve falar no assunto. E a maioria de nós, em geral, acaba não entendendo a gravidade do problema, porque não precisa ver as crianças coletando os minérios que estão nos produtos que consumimos diariamente.”

O que dizem as empresas

A Renner declarou que não compactua com a utilização de mão-de-obra irregular em qualquer etapa de produção dos itens que comercializa. Em 11 de novembro de 2014, a empresa foi notificada pelo Ministério de Trabalho e Emprego (MTE) sobre irregularidades na contratação de imigrantes pela Oficina de Costura Letícia Paniágua Verdugues, que prestava serviços para dois fornecedores. A Renner afirma que, no mesmo dia, notificou seus fornecedores para regularizar a situação dos empregados.

A Apple e a Microsoft não responderam até o fechamento desta edição.

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