Enquanto o número de casos diminuiu 35,5% no mundo, cerca de 57 mil novos surgiram no Brasil no ano passado

Índices de HIV em SC superam média nacional

Diferentemente de outros países, Brasil vive aumento no contágio de doenças sexualmente transmissíveis

Não há quem não lembre de ter visto, pelo menos uma vez na vida, uma propaganda reiterando aquele velho conselho: “use camisinha”. O preservativo é uma das formas mais eficazes de prevenir contra diversas doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), mas, apesar de sua distribuição gratuita nos postos de saúde e dos investimentos em campanhas de conscientização, a quantidade de novos casos de infecção segue aumentando no Brasil.

É o que mostra um relatório da Unaids (programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) divulgado em julho. De acordo com o documento, no ano 2000 o número de novos infectados pelo vírus HIV no Brasil estava entre 29 mil e 51 mil. Já em 2014, havia entre 31 mil e 57 mil novos casos. Enquanto isso, no mundo todo, o número diminuiu 35,5% no mesmo período.

Célula infectada por HIV

Em Santa Catarina, a situação é um pouco mais grave. O estado está acima da média brasileira tanto em mortalidade por causa da Aids, como das coinfecções — quando o organismo sofre duas ou mais doenças ao mesmo tempo — por tuberculose e hepatites virais. Em 2002, o estado era o primeiro no ranking nacional (39,7 casos para cada 100 mil habitantes), passando para o segundo lugar no ano de 2012. Neste último ano, a taxa de detecção do estado foi de 33,5 casos para cada 100 mil pessoas. Um percentual 39,7% maior que a média do país.

Além das infecções por HIV, Santa Catarina registrou 1.963 novos casos de sífilis em 2014, o que representa um crescimento de 30% em relação ao ano anterior, de acordo com a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive). Em 2015, entre janeiro e julho, 1.461 pessoas contraíram a doença.

“Aumento se deve ao número de parceiros sexuais, à diminuição do uso do preservativo e ao senso comum de que a Aids não é mais uma doença letal”

Para o professor Edison Natal Fedrizzi, chefe do Projeto HPV do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), “o aumento se deve a fatores como a diminuição do uso do preservativo, o aumento do número de parceiros sexuais e o conceito de que a Aids não é mais uma doença letal e que pode ser controlada adequadamente com os novos medicamentos no mercado”. Ele acrescenta que esse último fator é mais grave no Brasil, já que no país há uma excelente política de tratamento do HIV com medicações de ponta disponíveis gratuitamente.

O professor explica que as doenças cuja transmissão se dá por secreção — como chlamydia, gonorreia, HIV, hepatite B — podem ser evitadas com o simples uso do preservativo. O controle do uso de drogas injetáveis também é um ponto importante na prevenção das duas doenças. A proteção contra o herpes e HPV, no entanto, apresenta uma eficácia parcial com essa medida, uma vez que a contaminação ocorre pelo contato com a pele e mucosa.

Vacina contra o HPV

No Brasil, o câncer de colo de útero, causado pelo papilomavírus humano (HPV), é a terceira maior causa de morte entre as mulheres. O HPV é altamente contagioso e a sua transmissão acontece por contato direto com a pele ou mucosa infectada. A principal forma é pelo contato sexual, mas também pode ser transmitido de mãe para filho durante o parto e, embora seja raro, o vírus pode se propagar também por meio do contato com as mãos. Há mais de 150 diferentes tipos de HPV, porém os tipos 16 e 18 causam em torno de 70% dos casos de câncer do colo de útero e os tipos 6 e 11 são encontrados na maioria das verrugas genitais.

A vacina HPV quadrivalente, que foi incluída no Calendário Nacional de Vacinação do SUS em março de 2014, confere proteção contra estes quatro principais tipos do HPV. Inicialmente, os alvos da campanha foram meninas de 11 a 13 anos de idade. Em 2015, a oferta da vacina foi ampliada para a faixa etária de 9 a 13 anos de idade. O Ministério da Saúde adota o esquema vacinal estendido, composto por três doses. Estudos mostram que a vacina tem maior eficácia se for administrada em adolescentes que ainda não foram expostas ao vírus, pois, nessa idade, há maior produção de anticorpos contra o HPV que estão incluídos na vacina. Mesmo assim, após a vacinação, é importante seguir fazendo o exame preventivo (Papanicolau) na vida adulta, entre 25 e 64 anos.

O Projeto HPV, desenvolvido na UFSC desde 2002 e liderado pelo professor Edison Natal Fedrizzi, foi um dos centros de pesquisas clínicas de todo o mundo que avaliou a eficácia da vacina, comparando os dados de indivíduos que receberam a dose com outros que receberam apenas o placebo. O professor avalia que, apesar de a vacina ser utilizada em mais de 100 países, a aceitação no Brasil foi péssima. “Esta é uma faixa etária que não está habituada a utilizar vacina. Além disso há um temor de agulhas e injeções muito grande nesta idade, que os torna bastante resistentes às vacinas, incluindo a do HPV”, explica.

Proteção para elas

O preservativo feminino chegou ao mercado brasileiro em 1997, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a comercialização do produto no país. O Ministério da Saúde iniciou sua distribui- ção pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2012, com objetivo de ampliar as opções de proteção às doenças sexualmente transmissíveis e de oferecer à mulher a decisão sobre o uso do preservativo. Infelizmente, a camisinha feminina ainda não se popularizou tanto quanto a masculina, mas existem diversos motivos para torná-la mais utilizada.

Indicado para alérgicos ao látex, o preservativo feminino é feito de borracha nitrílica ou poliuretano, o que o torna mais resistente que o masculino. Além disso, oferece mais proteção, por abranger uma área maior de contato genital, como os grandes lábios, diminuindo os riscos de contrair DST’s. Também por causa do material, sua espessura é mais fina — sabe aquela desculpa dos homens de que “usar camisinha diminui a sensibilidade”? Nada disso, o preservativo feminino é confortável tanto para o homem quanto para a mulher, garantem especialistas.

A camisinha feminina pode ser colocada até oito horas antes da relação sexual. Ela já vem pré-lubrificada, o que facilita a penetração, e pode ser utilizada no período menstrual. Vale lembrar que nesse período as mulheres ficam mais suscetíveis às DST’s, pois o pH vaginal passa de ácido para alcalino, o que pode causar diversas infecções.

Mulheres que têm parceiras do mesmo sexo também devem se proteger e, nesses casos, a camisinha feminina é o método mais indicado. Não se pode esquecer que a mucosa da boca também pode ser porta de entrada para doenças, então na hora do sexo oral, a orientação é que seja utilizado o preservativo feminino.

Texto: Gabriela Dequech e Mônica Custódio
Fotos: Daniella Coriolano/Zero, National Institute of Allergy and Infectious Diseases, National Institutes of Health (NIAID)