Foto: Brasileirinhas

A realidade de quem atua nos filmes adultos

Ela vai para o trabalho quatro vezes na semana e de vez em quando sai com os colegas no fim do expediente para tomar um chope. Não vive sem comida japonesa e considera a hora de malhar a melhor do dia. Divide seu tempo livre entre ir para baladas sertanejas com os amigos e ler livros em casa. Às vezes ela assiste pornô. Mas, claro, nenhum dos 144 vídeos em que atuou.

Angel Lima é de Florianópolis e é a atriz pornô brasileira mais premiada da atualidade. Esse ano foi escolhida como a melhor intérprete heterossexual do país pelo Prêmio Sexy Hot Brasil, a maior premiação de pornografia nacional. No ano passado, Angel participou da Melhor Cena de Sexo Anal em Anal Maníacas 2 e Melhor Cena de Sexo Oral em Profissão: atriz pornô.

Falando em profissão, Angel começou como atriz há três anos, a convite de um amigo que trabalhava no ramo. Antes disso, trabalhava em shows de strip-tease e posava nua para revistas. Aceitou o convite e acabou entrando na Casa das Brasileirinhas, uma espécie de Big Brother do pornô, onde o telespectador escolhe qual aspirante a atriz vai se tornar a próxima estrela dos filmes da produtora Brasileirinhas. Angel foi a vencedora e, em 2013, estrelou seu primeiro filme: Hoje eu tô no veneno. A partir daí, a carreira deslanchou: só pela Brasileirinhas, maior produtora de vídeos pornô brasileira, esteve em 17 longa-metragens.

Para a mãe e outros membros da família mais próximos, ela mesma se encarregou de contar da nova profissão, que foi recebida sem muito barulho. “É como a minha mãe sempre diz: o importante é não fazer mal a ninguém e ter caráter. Então foi tranquilo”. Entre os amigos, a escolha da carreira atuou como um filtro, que, segundo ela, reteve só aqueles que realmente gostavam dela, porque “os amigos que são verdadeiros permanecem amigos. Mas os que não são de verdade acabam se afastando. Infelizmente existe um franco preconceito, né?”.

Apesar de manifestações de ódio contra sua imagem e seu trabalho, Angel reforça que se orgulha do que faz e que nunca se envergonhou da carreira que escolheu. E como nem tudo — felizmente — é preconceito, ela conta com uma base sólida de fãs, principalmente nas redes sociais. As 27 mil curtidas em sua página oficial do Facebook e os 17 mil seguidores no Twitter comprovam isso.

Fora da internet, as pessoas costumam pedir fotos quando a encontram em locais públicos, principalmente no aeroporto. Alguns, como — infelizmente — é de se esperar, passam um pouco do ponto e insistem em conseguir um número de telefone ou outro contato qualquer. Mas, no geral, os encontros seguem de maneira mais ou menos tranquila Angel afirma que esse reconhecimento aumentou depois da premiação do Sexy Hot Brasil, e que vem sendo abordada nas ruas com uma frequência maior.

Além da fama, pouca coisa mudou depois dos títulos. A não ser o cachê. “É natural. Quando o seu trabalho é valorizado, você passa a receber um pouco mais”. Além do salário maior, produziu mais filmes: até agora, em 2015, já foram dez, em comparação com nove em 2014 e três em 2013. Ela anunciou esse ano, no entanto, que não pretende mais participar de gravações, a não ser que apareça uma ótima proposta.

A atriz afirma que nunca se envergonhou de gravar nenhuma cena e que seu cotidiano no set de gravação sempre foi tranquilo, com direito a conversas simpáticas entre as cenas e um eventual chope depois do expediente. Antes da gravação propriamente dita, ela tem o rosto e o corpo maquiados e participa de uma sessão de fotos. As cenas geralmente duram uma hora, se os atores não passam por nenhum tipo de imprevisto. “Já gravei com dois atores que tiveram probleminhas de ereção. A cena se prolongou demais. Foi bem complicado”.

Quando perguntada sobre como seria uma cena perfeita para um filme pornô, Angel elencou muitas coisas que faltam no Brasil. “Acho que seria uma cena estilo gringa, mais bem produzida, com cenários bonitos e mulheres bonitas. Eu gostaria de fazer uma festa, com atores dançando juntos. Atores bonitos, que infelizmente estão em falta no Brasil”. Mas não é por falta de candidatos. A informação da Brasileirinhas é de que, por dia, cerca de 40 homens demonstram interesse em se tornarem atores pornôs da empresa.

“Hoje me sinto à vontade para explorar mais as coisas, fetiches que eu tinha e não admitia. Eu me sinto mais desejada”

Ao contrário do que dizem outras atrizes, Angel afirma que raramente tem um orgasmo durante as gravações. E, apesar do clima que se vê nos vídeos, ela diz que só se envolveu romanticamente com um colega de trabalho uma vez. “Não é muito comum os atores se relacionarem fora do set. O ambiente é muito profissional”. A atriz chegou a ficar noiva do ator e diretor Brad Montana, com quem dividiu o prêmio de Melhor Cena de Sexo Oral no Prêmio Sexy Hot 2014. Por trabalharem na mesma área, ela diz que não teve grandes problemas no relacionamento, mas não sabe se uma relação com alguém que não é do ramo funcionaria da mesma maneira.

E para você que quer dar uma _____ (insira um advérbio aqui) na ______ (insira um eufemismo para sexo aqui), segue a dica de alguém com uma experiência provavelmente maior que a sua: “A pessoa tem que conhecer o parceiro, saber o que ele ou ela gosta, o que curte. E, é claro, ela tem que se conhecer também, saber o que dá prazer para ela, e fazer o que dá prazer para os dois. Só assim ela pode recorrer a outros meios, tipo livros ou dicas”.

Hoje, Angel ainda grava vídeos, mas do tipo que pode ser postado no Facebook. Não vive mais do pornô, mas continua não conseguindo sobreviver sem comida japonesa. Viaja muito, fazendo shows de strip-tease no país todo, e sente falta de casa. Não consegue mais acompanhar suas séries, e por isso não tem uma favorita. No futuro, quer se “voltar para uma coisa mais pessoal”. Mas admite que sua relação com o sexo mudou, e para muito melhor, durante esses anos em que trabalhou na indústria pornográfica. “Eu me sinto mais à vontade para explorar certas coisas, fetiches que eu tinha e não admitia. Eu me sinto mais à vontade para falar, para fazer. Agora eu me sinto mais desejada”. 

Reportagem: Amanda Ribeiro, Marina Simões, Natália Huf e Paula Barbabela