Acessibilidade invisível

Zero
Zero
Nov 27, 2019 · 8 min read

Estudantes com deficiência visual enfrentam inúmeros desafios para manter-se no Ensino Superior Público

Texto por Rafaela Coelho

Imagine entrar na Universidade após muita dedicação e estudo para ser aprovado no curso que sempre sonhou, e não conseguir acessar o conhecimento a que tem direito? Ou então, enfrentar o despreparo das pessoas para lidar com suas necessidades? Essa tem sido a realidade frente a qual se deparam muitos estudantes com deficiência visual.

“Eu trabalhei com pessoas cegas que cursaram Fisioterapia, e todos tinham o mesmo discurso: de que os professores do curso se espantavam quando os viam em sala de aula”. O relato é da professora Ivani Cristina Voss, coordenadora de Ações Inclusivas do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Licenciada em Educação Especial, Ivani acredita que ainda existe a crença de que as pessoas com deficiência visual só podem fazer determinados cursos. “Isso tem a ver com os mitos que cercam essa deficiência, principalmente a cegueira. Como por exemplo, acreditar que a pessoa vive no escuro, algo que ficou muito marcado na mente das pessoas”.

Contrariando o estereótipo, o estudante Gustavo Espindola, 20 anos, está na terceira fase do Bacharelado em Física na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Segundo a Coordenadoria de Acessibilidade Educacional (CAE-UFSC), entre os 33 alunos com deficiência visual matriculados na instituição, ele é o único nesta área.

A Universidade oferece a todos os alunos com deficiência um atendimento especializado que inclui estagiários de promoção de acessibilidade, monitores para determinadas disciplinas, tradução de materiais, transcritor/ledor de materiais e auxílio em deslocamentos dentro do campus. Estes serviços são disponibilizados de acordo com o caso de cada aluno.

Gustavo possui retinose pigmentar, doença que acarreta a perda progressiva da visão. Nas disciplinas que solicita, Gustavo conta com a presença de um transcritor ou monitor. Na disciplina Cálculo I, por exemplo, ele conta com o apoio de Lidiane Camini, graduanda da sétima fase de Licenciatura em Matemática, que o auxilia. Lidiane é estagiária de promoção de acessibilidade da CAE e o acompanha duas vezes por semana. Para ler os textos das disciplinas, ele utiliza o software NonVisual Desktop Access (NVDA).

Barreiras Técnicas

Voltado à inclusão dos deficientes visuais, os softwares de leitura de tela transformam informações visuais de computadores em áudio. Porém, a maioria dos ledores de tela que contam com recursos avançados são pagos, podendo chegar a custar mais de U$ 2.000 dólares — cerca de quatro mil reais.

O software usado por Gustavo é o NVDA, um open source, ou seja, totalmente gratuito e que pode ser modificado para receber melhorias. O NVDA não faz a leitura de fórmulas e sentenças com notação matemática. “Ele não diferencia um X elevado ao quadrado de 2x. Para o programa é a mesma coisa”, explica Lidiane. Por esse motivo, Gustavo usa uma lupa eletrônica para interpretar as sentenças, contando ainda com a ajuda de alguns professores que as enviam por mensagens de voz. Mas os desafios não param por aí, Lidiane conta que, por exemplo: “O professor de cálculo digita as listas num software específico de matemática, que possui um limite no qual ele pode aumentar a espessura do traço. Em outros programas, como no Word, não tem os caracteres matemáticos suficientes para cálculo.”

Tanto o software quanto a lupa eletrônica são disponibilizados todo semestre pelo Setor de Acessibilidade Informacional (AAI), localizado na Biblioteca Universitária. Este setor é responsável também pela adaptação dos conteúdos destinados a todos os estudantes com deficiência da instituição. No caso do Gustavo, o setor alega que a dificuldade em adaptar as fórmulas e sentenças está na falta de uma pessoa capaz de configurar o software para lê-las corretamente. O servidor administrativo do setor, Douglas Raulino, explica que seria necessário atuar em conjunto com a Superintendência de Governança Eletrônica e Tecnologia da Informação e Comunicação da Universidade (SETIC), para pensar em soluções. “Eles entendem de programação, aí teria que ver se mudam alguma coisa no software. Talvez eles já tenham isso em mente, só que a gente ainda não conversou.”

Para adaptar os conteúdos solicitados pelos estudantes, o Setor de Acessibilidade Informacional conta com sete bolsistas. Devido a alta e crescente demanda — causada pela adesão da Universidade à Lei 13.409 em 2018, que destina um percentual das vagas para pessoas com deficiência — algumas vezes é necessário que cada bolsista adapte mais de três textos por dia.

No Laboratório de Tecnologia Assistiva do IFSC, essa dificuldade também é sentida. “O aluno usa até sete livros em uma disciplina. É preciso transformar tudo isso em PDFs acessíveis. Não é simplesmente escanear, tem um tratamento em cada uma das páginas do livro. É tempo e dedicação de um profissional”, explica Ivani.

Na UFSC, para a adaptação do material, o primeiro passo é o envio feito com antecedência por parte do professor da disciplina. A prioridade é dada pela ordem de envio e necessidade do aluno. A pedagoga em Educação Especial, Patrícia Muccini, enfatiza que o esforço não é unânime. “Tem estudantes com deficiência que ainda não têm os textos da primeira semana de aula, porque alguns professores não enviaram”. Patrícia trabalha no setor desde 2018, e espera por uma postura mais consciente no futuro. “A principal expectativa é que se torne uma demanda institucional. Que os docentes e demais setores entendam que as pessoas com deficiência fazem parte da comunidade acadêmica”.

Os desafios no acesso ao conteúdo por parte dos alunos não se restringem às demoras no envio do material. Patrícia ressalta que os recursos vindos do governo federal através do Programa Incluir, criado em 2005, diminuíram nos últimos anos. Os cortes têm inviabilizado a aquisição de novas ferramentas de acessibilidade informacional, sendo que a solicitação feita no início do ano ainda não foi atendida. A pedagoga explica que, para evitar que mais alunos sejam prejudicados pela falta de investimentos, foram estabelecidos critérios para o empréstimo de equipamentos de acessibilidade. Os graduandos de baixa renda com deficiência visual são os primeiros da lista.

Barreiras atitudinais

A falta de conhecimento sobre as necessidades das pessoas com deficiência é um dos principais potencializadores do capacitismo, forma de discriminação na qual pessoas com deficiência são tratadas como incapazes de gerenciar suas vidas, trabalhar, cursar uma universidade, namorar, administrar a casa, etc. No Ensino Superior, esse preconceito é percebido nas barreiras atitudinais que dificultam a trajetória dos estudantes.

O estudante Victorino Enhama Mbala Elima, 37 anos, possui deficiência visual-cegueira e está na quinta fase de Serviço Social na UFSC. Natural de Angola, perdeu a visão aos 16 anos devido a um acidente. “Ajudar faz parte das nossas relações enquanto seres humanos. A gente vive um ajudando o outro. Quando você nega a ajuda de uma pessoa, independentemente da deficiência, isso configura um tratamento, no mínimo, desleal com a espécie.” Muitas vezes as barreiras atitudinais não se dão com atitudes evidentes de preconceito. São ações que podem parecer boas intenções. Exemplo disso é acreditar que a pessoa com deficiência tem a obrigação de amar e/ou superar a sua deficiência. “Eu não me aceito cego, também não me conformo, mas eu procuro conviver com isso. Mas como não há outra saída, não há como voltar a ser quem eu era, eu me calo”, afirma Victorino.

Outra forma comum da prática do capacitismo é quando uma atitude simples e cotidiana é super valorizada ao ser realizada por uma pessoa com deficiência, como, por exemplo, frequentar a escola. A professora Ivani relata que esse pensamento ainda é muito presente na trajetória escolar das pessoas com deficiência. “Não importa se o aluno não cumpre as tarefas básicas em sala de aula, se ele é responsável ou não. As pessoas discursam de que ele estar ali é um exemplo da vontade de viver, de superação. É preciso entender que as pessoas com deficiência não carregam essa missão de ser um exemplo”

A acessibilidade é possível

Nossa preocupação é o aluno entrar, fazer o curso, passar nas disciplinas, e terminar. Essa é a nossa proposta.” Com esse pensamento a professora Rosemy Nascimento, 54 anos, assumiu a coordenação do Laboratório de Cartografia Tátil e Escolar (Labtate), em 2017. O laboratório está localizado no Centro de Ciências Humanas da UFSC, e produz conteúdos acessíveis para pessoas com deficiência visual, como mapas e esquemas táteis. A metodologia do LabTate está presente em outras instituições, como a parceria feita com o Instituto Benjamin Constant, centro de referência nacional na área da deficiência visual

Além das coordenadoras, o Labtate conta com dois bolsistas pagos, quatro bolsistas voluntários e um monitor da disciplina de Cartografia Tátil. São alunos de graduação, mestrado e doutorado que contribuem para a produção dos materiais e atualização do site. Apesar do esforço em manter o laboratório ativo, atualmente a equipe enfrenta obstáculos que dificultam suas atividades. “No último edital para solicitação de compra de material, eu não fiquei entre os selecionados, não fomos considerados importantes. Então, tem algum ruído aí, como que eu faço material adaptado se eu não consigo comprar material básico?”.

Mesmo diante das incertezas quanto ao amparo financeiro para o seu funcionamento, o Labtate se mantém funcionando. A diversidade de materiais acessíveis presentes no espaço faz jus aos objetivos do laboratório, entre os quais se destacam a construção de um centro de referência em cartografia tátil e a promoção de pesquisas sobre o tema.

A demanda dos mapas acessíveis surgiu em 2011, com a chegada da aluna Sabrina Mangrich de Assunção, 30 anos, que tem deficiência visual — cegueira. Seu ingresso no curso de Bacharelado em Geografia da UFSC deu origem ao Projeto Sabrina, para o qual a equipe desenvolveu técnicas de produção de mapas destinados ao Ensino Superior, promovendo assim, o acesso da aluna aos conteúdos da graduação. “A nossa prerrogativa é: a pessoa com deficiência vai ter o mesmo recurso didático do aluno que enxerga.”, conta Rosemy.

Rosemy reforça que, para que a acessibilidade seja colocada em prática, não se pode atuar sozinho. “Tem que ter o engajamento de todos, coordenação do curso, departamento, professores envolvidos, profissionais, e a reitoria. Isso não pode ficar desconectado”.

Sabrina, que concluiu o Bacharelado em 2015 e a Licenciatura em Geografia em 2018, atualmente está no Mestrado e demonstra satisfação com o legado construído até então. “Eu me sinto feliz. Também é uma responsabilidade minha, de fazer o meu melhor. E saber que futuramente outras pessoas vão se beneficiar com isso.”

Atualmente, o Labtate está confeccionando um mapa tátil do campus da Universidade, visando assim diminuir as dificuldades de locomoção encontradas por estes alunos. Cada um dos centros terá um mapa de mobilidade, com escala ampliada e mais detalhamento, possibilitando uma melhor compreensão dos elementos que o compõe. Para que a ideia seja colocada em prática, a CAE fornecerá ao laboratório materiais como cola, barbante e papel, que estão em falta. Mesmo com recursos limitados, Rosemy mostra-se otimista com a continuidade dos projetos. “Se você ficar pensando, você vai perder um longo tempo. Então faça. Você tem que fazer!”

    Zero

    Written by

    Zero

    Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade