Artistas manifestam a cultura afro-brasileira em Florianópolis

Grupos usam a arte como resistência, combate ao racismo e resgate da cultura negra

Texto: Carol Andrade e Nahomie Laurore
Fotos: Carol Andrade, Vitor Shimomura e Miriam Irinéia

A cultura africana está presente em diferentes meios. Foi trazida ao Brasil na época da escravidão, no período do tráfico negreiro transatlântico, e sobrevive na arte, na música, no teatro, na gastronomia e na religião. Ainda é uma das principais formas de resistência e combate às opressões da população negra.

No Brasil, cerca de 54% da população é negra. Em estados como Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, a cultura afro-brasileira se destaca em virtude de negros africanos trazidos como escravos para o Brasil. Em Florianópolis, onde apenas 13,87% das pessoas declaram-se negras, essa cultura não predominou devido à colonização europeia. Mas isso não quer dizer que não exista inciativas afro-culturais na Ilha.

Um dos grupos que resgata a cultura negra por meio do teatro é o Coletivo Negras Experimentações Grupo de Artes (NEGA), desde 2011 apoiado e mantido por um programa de extensão do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). O coletivo é formado por artistas negros, cuja prática teatral contemporânea se fundamenta em expressões e manifestações culturais de origem africana, de modo que a arte seja utilizada para discutir o papel do negro pela sua imagem e representatividade na sociedade.

Thuanny Paes entrou para o coletivo assim que ingressou no curso de teatro da UDESC, em 2013. Foi bolsista do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros (NEAB) e conta que a partir da vivência com esses grupos, passou a ter uma percepção maior sobre a questão racial e a cultura afro-brasileira. “Quando entrei no curso de Teatro não existiam muitos negros e eu era leiga nessas questões. O NEAB e o NEGA foram primordiais para que eu pudesse me empoderar e me auto questionar sobre o que é ser negra no Brasil, na universidade e no curso de Teatro.”

“Como artistas, temos um papel muito importante, pois a arte pode ser muito política e tem o poder de transformar as pessoas”, (Thuanny Paes)

O grupo apresenta-se com a montagem teatral “Preta-à-Porter”, que discute o racismo na sociedade contemporânea, pela visão da mulher negra, já que o coletivo é predominantemente formado por mulheres negras. A intenção do grupo é falar sobre o racismo de diversas maneiras. “Acredito que a arte é um bom meio de discutir sobre preconceitos. Acredito também que isso deva se unir à outras formas de combate ao racismo, como a militância dentro dentro e fora da universidade. Como artistas, temos um papel muito importante, pois a arte pode ser muito política e tem o poder de transformar as pessoas”, diz Thuanny.

Na área musical, um dos destaques é o Arrasta Ilha, grupo de maracatu do baque virado que também apresenta outras manifestações populares com influência africana, como o boi de mamão, coco de roda e afoxé. A percussão é formada por alfaias, abês, apitos, atabaques, gonguê, ganzás e taróis, além da voz solo e do coro. No período do carnaval, o grupo chega a reunir cerca de 60 membros, mas no resto do ano esse número cai para 20 a 30, entres dançarinas, batuqueiros e cantores. A ideia surgiu depois de uma oficina promovida por ‘’Nego Veio’’, de Minas Gerais, no começo de 2002, e os participantes se juntaram para uma apresentação no carnaval daquele ano.

Embora não tenha participado da oficina, Charles Raimundo, apito e cantor da comunidade maracatu, integrou o grupo em 2002. Ele conta que muitas vezes a manifestação da cultura afro, por meio da música, não é bem vista na Ilha. “O maracatu, por exemplo, algumas pessoas não consideram como música, apenas barulho. Por outro lado, ele é uma forma de resistência, onde negros e interessados pela cultura afro, apesar de tudo, lutam para se expressarem.”

“Essa cultura é uma forma de resistência”, Charles Raimundo do Arrasta Ilha

Conhecido nas ruas e nos carnavais de Florianópolis, o grupo percebeu que as pessoas manifestavam interesse pelo maracatu e a partir daí, decidiram se reunir na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Iniciaram os ensaios em frente ao Centro de Comunicação e Expressão (CCE), todos os domingos, e hoje se encontram em frente ao Centro de Convivência.

Marga Viera, membro há sete anos, é presidente do Arrasta Ilha. Ela conta que o maracatu tocado pelo grupo é uma junção de quatro nações do gênero: Porto Rico, Leão Coroado, Estrela Brilhante do Recife e Estrela Brilhante de Igarassu. “Maracatu é vida, ancestralidade, religiosidade e espiritualidade. Essa possibilidade de fazer música coletivamente é muito importante. O Maracatu é parte da minha vida. A minha família e os meus amigos estão aqui”, afirma.

A cultura afro-brasileira produzida na Ilha também conta com artistas solo, um deles vindo do continente africano. Gloire Ilondé Eale Bolele começou a cantar aos nove anos na República Democrática do Congo, centro África, onde morava com a família. “Tenho essa benção. Na minha família, todo mundo ou canta, ou toca.”

Gloire mudou-se para o Brasil em abril de 2011 e passou nove meses em Porto Alegre, onde estudou português para estrangeiros. Fez uma prova por exigência do Programa de Estudantes — Convênio de Graduação (PEC-G), pertencente ao Ministério da Educação (MEC) — pelo qual veio ao Brasil — para poder continuar no país. Quando passou na prova, mudou-se para Florianópolis e ingressou na UDESC, onde estudou Artes Visuais por um ano e meio.

Atualmente, tem um projeto solo, de nome artístico “Ilonde”, e apresenta suas canções pela Ilha, principalmente na Lagoa da Conceição. Segundo ele, no Brasil as pessoas valorizam mais a cultura europeia em detrimento da cultura africana e da indígena, que tem muitas coisas em comum, porque ambos os povos foram oprimidos e tiveram sua historia e cultura abafadas. “Hoje em dia precisamos usar essa ferramenta que é a cultura: música, pintura, teatro, para contar a história dos nossos antepassados, além de compartilhar e mostrar o lado bom dessa cultura.”

Gloire acha interessante as manifestações culturais realizadas na UFSC, mas chama atenção para o fato delas serem restritas à Universidade e não saírem para as favelas e comunidades. “Essas expressões culturais precisam ser expandidas, sair dos bairros burgueses.” Para ele, a cultura afro tem um vínculo muito forte com a arte, pois é uma forma de expressão com um significado maior que a própria estética. “O fato de eu ser, por exemplo, cantor africano e cantar na língua de minha origem, não quer dizer que eu esteja promovendo a cultura africana, mas sim fazendo arte.”

Equipe da web-séria Agô, filmada na comunidade do Mont Serrat, Em Florianópólis

A presença da cultura afro também está no cinema em Florianópolis. Estreou, no ano passado, o projeto piloto da web-série “Agô”, na semana da consciência negra. Criada pelo ator, diretor e roteirista Lau Santos, que desenvolve boa parte de seus trabalhos voltados para a igualdade racial, ela discute a questão na capital. Em setembro de 2005, o roteirista Babyton Santos juntou-se ao projeto, que foi desenvolvido na comunidade do Monte Serrat, onde mora e milita.

“Difícil falar de cultura negra em um estado que se vende e se identifica como eurocêntrico, que só valoriza e potencializa elementos culturais baseados na Europa.” (Babyton Santos)
Web-séria Agô conta a história de sete jovens negros que conspiram para invadir as praias do norte, após lei que os proíbe de frequentá-las.

A ideia da web-série é contar a historia de sete jovens negros, moradores do Monte Serrat, que conspiram para invadir as praias do norte da Ilha, após a criação de uma lei que proíbe negros de frequentá-las. “Agô” busca dar visibilidade aos negros e confrontar o sistema racista, que mesmo se tratando de ficção, é pautado na realidade.

Para Babyton, a cultura afro-brasileira em Florianópolis é mínima, devido a forte presença cultural europeia. “Difícil falar de cultura negra em um estado que se vende e se identifica como eurocêntrico, que só valoriza e potencializa elementos culturais baseados na Europa. Aqui na Ilha mesmo, é mais evidente a cultura açoriana. Então não se tem investimentos nem espaço para a cultura afro, mas ainda assim, temos pequenas iniciativas e grupos de resistência que salvam nossa cultura.”

Confira o episódio piloto da web-série Agô — O poder da gente na gente:

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