Casamento coletivo celebrou a união de casais homoafetivos

A cerimônia reuniu cerca de 800 pessoas que comemoraram a união civil dos recém-casados

Texto e fotos: Ariane Cupertino, Karine Lucinda e Mônica Custódio

“Em nome da lei, eu os considero casados…” Antes que o juiz de paz Jackson Rodrigues de Assis pudesse concluir a tradicional frase, sua voz foi encoberta pelos gritos de comemoração dos quarenta casais que celebraram a união civil no primeiro casamento coletivo homoafetivo de Santa Catarina. A cerimônia realizada em Florianópolis no dia 26 de setembro reuniu aproximadamente 800 pessoas, entre noivos e convidados, e foi organizada pela associação Amigos em Ação em parceria com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Ao som de Thousand Years de Christina Perri, noivos e convidados trocaram beijos, abraços e lágrimas de felicidade pela conquista do tão sonhado matrimônio.

A cerimônia aconteceu na mesma semana em que a comissão especial do Estatuto da Família da Câmara dos Deputados aprovou o texto principal do Projeto de Lei 6583/13, que define família como a união entre homem e mulher por meio de casamento ou união estável. “Infelizmente, pela legislação, por um Congresso conservador, hoje não estamos comemorando o centésimo, o quadragésimo, o milésimo casamento homoafetivo”, analisou o vereador Tiago Silva (PDT), ligado ao movimento gay.

Casamentos coletivos já fazem parte da história da associação. A iniciativa começou há dez anos, quando a coordenadora voluntária dos Amigos em Ação, Luciana de Bastos Silva, a Lu do Bem, decidiu começar a realizar casamentos coletivos. Desde então, mais de oito mil casais se uniram oficialmente. A primeira cerimônia homoafetiva começou a ser organizada em maio desse ano, com a abertura das inscrições. Foram 110 casais inscritos, mas apenas 40 finalizaram o processo. “Algumas pessoas chegaram e me disseram: ‘Lu, não faz, você vai se queimar, não faz o casamento deles’”, lembra a organizadora. “Eu decidi, por causa da mídia, por causa da TV, por causa de novela, que eu ia ajudar. Meu trabalho é social. Eu não vejo se é homem ou mulher, eu vejo o cidadão. O que vale é realizar o sonho de cada um”.

“Meu trabalho é social. Eu não vejo se é homem ou mulher, eu vejo o cidadão. O que vale é realizar o sonho de cada um”

Porém, o trabalho de Lu do Bem não é apenas social, já que com essa iniciativa passa a ser também uma causa política que ajuda a garantir direitos, frequentemente negados, aos homossexuais. “Nessa atual conjuntura em que vivemos hoje, em que lá de cima querem nos dizer o que é ser família, o que estamos fazendo aqui é um ato político. Estamos conquistando 83 direitos que nos são negados pela simples falta de um papel burocrático, e vale lembrar que o amor supera qualquer coisa”, declarou Lirous K’yo Fonseca Ávila, presidente da Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade (ADEH). A burocracia tradicional para conclusão do processo de adoção foi o motivo que levou o agente de saúde Danilo Djalma, de 44 anos, e o cuidador de idosos Elizel Rodrigues Barbosa, de 52, à cerimônia. Depois de perderem a guarda provisória da criança que estavam prestes a adotar — a criança ficou 12 dias com o casal e foi tirada por falta de documentos que comprovassem a relação estável dos dois — eles decidiram formalizar o relacionamento de mais de uma década.

Danilo Djalma e Elizel Rodrigues Barbora oficializaram a união após dez anos (Fotos: Karine Lucinda)

A cerimônia emocionou a todos, inclusive a representante do movimento LGBT, Selma Bastos Light, que lembrou de todo o caminho percorrido para que esse dia chegasse: “Quantos anos se pediu, quantos anos se lutou, quantos anos se foi para rua, quantos anos se chorou, para estar aqui, hoje, de mãos dadas”. Há muito tempo venho me perguntando: ‘será que tudo isso que eu fiz na minha vida, ser uma pessoa transexual, militante, valeu a pena? Aí, eu olho para vocês, e como vale a pena. Vocês são lindos, vocês têm direito à tudo”. Seguidos de suas testemunhas e sob a clássica Marcha Nupcial, os cônjuges caminharam pelo tapete vermelho que levava às mesas onde, enfim puderam oficializar suas relações. Papéis assinados, seguiram para a foto com o novo documento e depois saíram livres para festejar e iniciar a nova fase.

O segundo casamento coletivo homoafetivo já está sendo organizado. Será realizado em 26 de março e as inscrições estão abertas no site do Amigos em Ação.

Ao som da Marcha Nupcial, os cônjuges percorreram o tapete vermelho e oficializaram suas relações
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