Casas de swing fazem a cabeça de quem curte música e sexo sem vergonha

Espaços de glory hole, cabines de voyeurismo e dark rooms atiçam a curiosidade e vontade dos visitantes, que já na pista de dança perdem o pudor

Reportagem: Matheus Faisting e Marina Simões

A s paredes vermelhas da recepção eletrizavam quem chegava. Sem precisar apresentar seus documentos de identificação, pelo menos os primeiros clientes daquela noite não tiveram grandes dificuldades para entrar no local. Cada casal ou moça solteira pegava sua respectiva comanda, como em qualquer boate tradicional, e entrava. Joana*, uma simpática moça de cabelos escuros e pele bronzeada, prontamente recebia cada visitante com um beijo no rosto e, logo em seguida, levava-os para conhecer os ambientes da casa. Descendo as escadas, logo se chegava às portas pretas do primeiro andar que davam acesso à pista de dança. Lá dentro, um ambiente com iluminação escura, típica de boates, com apenas alguns feixes de luz coloridos. As mesas, quadradas e pretas, estavam próximas aos sofás na parede. Os móveis pareciam estar estrategicamente posicionados para que todos conseguissem enxergar a barra de pole dance instalada no palco vermelho central do salão. A batida da música ia acelerando conforme os demais clientes chegavam. Após um breve “boa noite” do dono da casa, Joana reaparece — mas desta vez sem sua blusa, dançando e convidando as outras mulheres para se juntarem a ela na pista. E assim começou mais uma noite de festas na primeira casa de swing da Grande Florianópolis.

Ilustração: Matheus Faisting

O Affinitá Club, localizado em São José, é o mais antigo estabelecimento comercial dedicado à prática da troca de casais na região. Atendendo cerca de 100 casais por noite, a casa funciona duas vezes por semana, frequência que pode ser triplicada durante o verão. A variedade de público se dá mais pela faixa etária dos frequentadores, que varia entre 20 e 40 anos, do que pelo seu poder aquisitivo. Para entrar na casa, o casal paga entre 100 e 120 reais, dependendo da noite, e recebe 30 reais em consumação — uma garrafa pequena de cerveja custa 10 reais e a de água sai por 6. Já as solteiras não precisam pagar a entrada, apenas o que consumirem. Eduardo Vieira, proprietário da casa, explica que apesar da proximidade com Balneário Camboriú, cidade com dez estabelecimentos muito procurados pelos adeptos da prática, a capital catarinense continua atraindo muitos clientes, principalmente vindos do Sul do estado e do Rio Grande do Sul. “O público é frequente, mas como Florianópolis é uma cidade turística, a gente recebe muito turista que só vem uma vez por ano. Mas o público é realmente bem fiel”, comenta. Além do Affinitá Club, só existe mais uma única casa de swing na grande Florianópolis: o MyWay Club, que também é propriedade de Vieira. Para ele, que já trabalhou como jornalista, motorista de caminhão de lixo e até chofer do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em uma visita à Capital, o mercado do sexo lhe pareceu uma opção muito mais lucrativa. “Conseguimos ter, em média, uma rentabilidade de 20% em cima de um faturamento bruto, com um valor girando em torno de 100 mil reais”, revela.

Sobre o preconceito que sofre quem pratica ou frequenta o estabelecimento, Carlos* é enfático: “É tudo hipocrisia, quem é que não trepa?”

A casa é dividida em dois andares. No primeiro, encontra-se um ambiente muito parecido com o das boates tradicionais — não à toa toda a documentação exigida para a regulamentação desses estabelecimentos é a mesma que a de qualquer outra casa noturna. Mas a real diferença está um andar acima. Depois de subir dois lances de escadas, qualquer cliente tem livre acesso a uma variedade de quartos temáticos: espaços de glory hole — cubículos com buracos nas paredes para que pessoas de ambos os lados possam se tocar sem se ver; cabines de voyeurismo — quartos com uma das paredes que funciona como janela, permitindo que os visitantes possam ver tudo o que acontece lá dentro; e até um dark room personalizado — um ambiente totalmente escuro, com paredes e janelas revestidas de um material preto para dificultar a entrada de luz. Além disso, todos os ambientes contam com embalagens de lenços umedecidos, álcool em gel e papeleiras com toalhas de papel para incentivar a higiene do local. Garotas como Joana se encarregavam de apresentar estes ambientes para os novos clientes, além, é claro, de explicar todo o código de conduta que rege a casa. E é justamente esse conjunto de regras que faz Carlos*, médico carioca de 38 anos, frequentar as casas de swing com sua esposa mesmo sem nunca ter praticado o ato. “É um grande erro achar que todo mundo que está aqui pratica. A gente vem mais para curtir a pista de dança, a balada, o ambiente permissivo e a tranquilidade”, explica. Casado há quatro anos, ele garante que aquele é um dos únicos lugares que se sente seguro para sair com a esposa. “Nas outras baladas, mesmo andando com ela de mão dada, sempre tem um cara chegando, olhando para os peitos dela, chegando nela pelas minhas costas. Aqui isso não acontece. Tem uma ética aqui dentro”. Sobre o preconceito que ainda assombra as casas de swing, é enfático: “tudo hipocrisia. Quem é que não trepa?”.

A casa funciona duas vezes por semana atendendo cerca de 100 casais por noite na baixa temporada. Na temporada de verão esse número triplica.
Fotos: divulgação

No decorrer da festa, algumas cenas chamavam bastante a atenção dos visitantes de primeira viagem. Joana, que agora dançava apenas de sutiã e calcinha, continuava atraindo a atenção de todos os homens e mulheres da festa. Uma cliente, provavelmente cansada de ficar na plateia, decidiu acompanhá-la no pole dance, também tirando o vestido e ficando apenas com a roupa íntima. Outra mulher logo se juntou ao grupo, sendo recompensada com carícias que mais pareciam agradar o público do que ela. Ainda, em um dos cantos do salão, era possível observar uma outra cliente com o vestido abaixado até a cintura e os seios de fora, recebendo carinhos do seu acompanhante por baixo da saia. Uma situação um tanto chocante para quem nunca havia frequentado uma balada liberal. Mas para Sofia Raquel, funcionária do Affinitá Club desde sua inauguração em 2010, este era um cenário comum. Mãe de um rapaz de 22 anos e de uma menina de 11, a funcionária reconhece que, apesar de não ser adepta do swing, o estabelecimento é onde os fetiches de muitos casais se tornam possíveis. “Eu sempre trabalhei com o swing aqui e isso acabou se tornando uma coisa profissional. Eu não sinto desejo. Já vi pinto de tudo quanto é tamanho, mas é muito banal, tão mecânico que eu nem sinto vontade”. Segundo a funcionária, para trabalhar em uma casa de swing é melhor não estar envolvido com os casais. “Tu te tornas um deles e perde um pouco o respeito, a autonomia. A gente dança, dá selinho e brinca. Eles pegam a gente no colo, mas é com um respeito tão grande que não tem maldade”.

“Ninguém sabe que eu pratico. De todos os meus amigos, contei para dois. Não porque é ruim, mas porque as pessoas têm uma ideia errada”

Joana e Caetano* estão casados há oito anos e começaram a frequentar a casa no início de 2015. A ideia de conhecer a casa foi dele. Joana resistiu um pouco no início, mas logo mudou de ideia. Nas primeiras vezes, apenas dançaram e ficaram no andar debaixo. Com o tempo, fizeram amizade com os outros clientes, se acostumaram com o ambiente e acabaram praticando. O que antes era uma curiosidade, acabou se tornando um vício para ambos. “Minha expectativa era só sexo, mas não é só sexo. É amizade extrema, companheirismo, é família”, ele conta. Também relembra quando sofreu um acidente de carro assim que entrou para o meio e ninguém de seu círculo familiar foi visitá-lo no hospital, apenas alguns casais de amigos que conheceu na casa de swing. Sobre seu relacionamento com a esposa, Caetano acredita que esteja muito melhor do que antes. Segundo ele, é normal sentir ciúmes em algumas situações, mas o casal precisa estar preparado para esses momentos: “Tu já tem que saber que ela te ama independente de qualquer coisa”. Para curtir a festa no final de semana, o casal deixa o filho de um ano e oito meses com o pai de Caetano, que é pastor evangélico. “Ninguém sabe que eu pratico. Para o meu pai seria o fim do mundo. Nunca vai saber. De todos os meus amigos, eu contei para dois. Não porque é ruim, mas porque as pessoas têm uma ideia errada”.

*Os nomes utilizados na matéria foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.

Like what you read? Give Zero a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.