Comprou, chegou? Como funciona o comércio de drogas na deep web


Navegamos pelas profundezas da internet para encontrar substâncias psicotrópicas e verificar como elas são vendidas; descobrimos que essa transação não é tão simples quanto parece

Reportagem de Luiz Fernando Menezes e Tiago Ghizoni

Se nossas mães soubessem a que lugares tivemos que ir para conseguir produzir essa matéria, elas estariam, no mínimo, assustadas. Pornografia infantil, assassinatos de aluguel, tráfico de órgãos, vídeos de canibalismo e todos os tipos de hackers e vírus cibernéticos eram o que poderíamos ter encontrado na parte anônima da internet. O que buscávamos não era nada disso (apesar de também ser ilegal). Queríamos entender como funciona a compra de drogas na deep web, que vem aumentando nos últimos anos, e como elas chegam aqui em Santa Catarina.

A deep web (também chamada de deep net ou undernet) é todo conteúdo disponível na internet que não pode ser encontrado por ferramentas de busca, como o Google ou Bing. Mesmo que não seja possível ter uma porcentagem precisa, estima-se que essa parte anônima represente de 80 a 95% de toda a rede. Em vez de endereços em protocolo HTTP (no formato www), os sites da deep net trabalham com o protocolo chamado TCP/IP, que se trata de um único número ao computador ou roteador servidor (o endereço é composto por um código numeral) muito mais difícil de ser rastreado. O lugar perfeito para esconder informações ilegais ou confidenciais.

No entanto, é errado falar que a undernet só tem conteúdo perigoso. Além de hospedar diversas bibliotecas de universidades do mundo inteiro, músicas e filmes raros, e dicas de programação extremamente complexas, também garante o total anonimato do usuário. Isso faz com com que muitos fórums, que são os tipos de sites mais frequentes da deep web, contenham documentos sigilosos de interesse público. Como foi o caso do Julian Assange, que vazou documentos sobre possíveis crimes de guerra cometido pelos Estados Unidos durante a Guerra do Afeganistão (2001–2014). Outro exemplo foi o fórum Anonymous que, no final de 2011, conseguiu colocar cerca de 200 pedófilos na cadeia a revelar suas identidades.

Depois de acessarmos pelo Tor — programa gratuito de computador que serve como porta de entrada para a deep web -, o problema era conseguir encontrar os sites que vendessem drogas, conhecidos como darkmarkets. Como o SilkRoad — mercado de drogas mais famoso — tinha sido fechado no ano passado pela Operação Onymous do FBI, tivemos que apelar para a HiddenWiki, enciclopédia da deepnet onde podem ser encontrados os endereços atualizados dos principais sites anônimos, sejam eles de conteúdo ilegal ou não.

Dos mercados negros listados, conseguimos acessar dois: Outlaw Market e Agora. Como só dava para entrar no primeiro com uma chave de segurança, que nós obviamente não tínhamos, sobrou apenas o Agora, segundo maior mercado negro da deep web de acordo com as estatísticas da própria HiddenWiki. Muitos dos outros endereços (como o Sheep Marketplace e o Pandora) tinham sido fechados no ano passado, seja pela operação do FBI ou por golpes de hackers que acessam o servidor do darkmarket e roubam o dinheiro dos usuários e vendedores.

“É proibida a comercialização de pornografia que contenha pedofilia, armas de destruição em massa, órgãos humanos, venenos, snuff [vídeos ou imagens de mortes reais], assassinatos de aluguel ou qualquer meio de acesso a contas que contenham dados privados ou renda alheia. Qualquer anúncio que contenha esse tipo de produto será deletado do site” era o que aparecia nas Regras de Mercado do Agora. Restava escolher a droga mais barata e que tivesse entrega no mundo todo — o que não é tão difícil de se achar, já que são poucos os vendedores que “exportam” apenas para uma região específica.

Essa caixa poderia estar cheia de drogas, se não tivéssemos desistido no último minuto

Na verdade, o plano inicial era pedir algum produto que ainda não fosse caracterizado como psicotrópico — drogas que agem sobre o cérebro humano e causam psiquismo — pela Anvisa, como no caso do promotor Cássio Conserino, que, de acordo com a Folha de S. Paulo. Ele pediu as substâncias 5F-AKB48 e pentedrona, ambas drogas proibidas em vários países mas ainda permitidas aqui, e mandou entregar no Fórum Criminal de Barra Funda (SP) para mostrar como era fácil comprar qualquer coisa no mercado negro da internet. A encomenda chegou pelo Sedex sem nenhum problema, apenas com um aviso de “não contém qualquer substância controlada ou proibida pela Anvisa”.

O problema é que a gente não conseguiu achar nenhuma substância que não fosse proibida aqui no Brasil. A lista da Anvisa, além de bem extensa, também não é de tão fácil compreensão. Pensamos por alguns bons minutos. LSD líquido? Muito difícil de achar. Alguma droga injetável? Muito pesada. O jeito foi apelar para uma das que mais saõ consumidas no país: a maconha, que, de acordo com pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas, é utilizada com frequência por 3% da população brasileira e outros 7% já experimentaram a substância. “Maconha Big Bang 5g, vinda da África do Sul, vendedor quatro estrelas e meia”. Vai ser esse mesmo, pensamos. O preço era de aproximadamente 0,04 bitcoins. Ah, na deep web não se compra quase nada com dinheiro vivo. A maioria das transações é realizada com o uso das bitcoins.

Bitcoins — ou criptomoeda — é a moeda utilizada não só na undernet, mas também na internet da superfície. Comprada com dinheiro de verdade, ela só pode ser trocada dentro da rede, seja via computador ou smartphone. Como nenhuma instituição financeira controla a criptomoeda, seu preço varia de acordo com a lei da oferta e procura: quanto mais pessoas procuram bitcoins, maior será seu valor. Para conseguir unidades dessa moeda, é preciso comprar de outras pessoas que estejam vendendo — já existem mercados especializados nessas transações no mundo inteiro — ou roubá-las por meio de hacks, como já foi citado anteriormente. Mas isso é crime. Só para avisar.

Durante a produção da matéria, a unidade do bitcoin custava R$736,00. Então, para pagarmos a droga e mais o frete da encomenda a gente teria que desembolsar, pelo menos, uns R$50,00. Só não vamos falar que desistimos nesse exato momento porque chegamos a abrir uma conta no Mercado Bitcoin brasileiro para tentar realizar a transação. Mas o preço se aliou à insegurança; a equipe do Zero discutiu e pediu para irmos com cautela e verificar toda a questão legal e ética… e a gente, no fim, não comprou. Sorte nossa.


“A maconha, que lá é 40 a grama e aqui é três pilas, compensa pela qualidade. A de lá ‘é de coffeshops’, a daqui é literalmente uma merda”

Dizemos “sorte” porque toda encomenda que chega aqui no estado de Santa Catarina passa por uma (ou até mais de uma) unidade de segurança empresarial dos Correios. Lá, alguns pacotes e cartas são escolhidas para amostragem e submetidas a dois testes: o raio-X, que verifica a presença de substâncias suspeitas, e o espectrômetro de massa, que consegue detectar qual o tipo de droga presente dentro da embalagem — já que, por nenhum motivo específico, os Correios podem abrir uma encomenda. Se os dois testes derem positivo para psicotrópicos, o pacote é encaminhado para a Polícia Federal (PF).

Chegando nas mãos dos policiais — mais exatamente na equipe de Repressão a Entorpecentes — é instaurado um inquérito para investigar os responsáveis pelas remessas ilegais: tanto quem mandou a droga quanto quem iria recebê-la. De acordo com o delegado Ildo Rosa, a polícia vem aumentando a fiscalização do tráfico realizado por e-commerce em Florianópolis: os funcionários dos Correios estão sendo treinados, o aparelho de raio-X foi sofisticado e esse tipo de investigação está cada vez mais alto na escala de importância da PF.

Sem contar ainda que o número de drogas pedidas pela internet e apreendidas nos Correios da capital cresceu significativamente: em 2013 foram quatro pacotes, em 2014 foram 20 e em 2015 foram 15 (isso até abril!). “O tráfico de entorpecentes e anabolizantes em Florianópolis vem crescendo de forma preocupante”, diz o delegado. As drogas favoritas dos internautas florianopolitanos são o haxixe, a maconha, o ecstasy e o lança-perfume.

Para Rosa, esse comércio vem aumentando por causa da globalização e pela comodidade e falsa facilidade que a internet proporciona: “o usuário pode comprar produtos com mais qualidade e menor preço. O problema é que eles acham que não serão pegos. Não sabem nada da atual legislação brasileira”. O tráfico de drogas, anabolizantes e até remédios que não possuem aprovação da Anvisa é crime previsto no artigo 33 da Lei 11343/2006, sendo possível pegar de cinco a 15 anos de reclusão.

Desistir de comprar a droga, entretanto, não fez com que saíssemos da deep web logo de cara. A curiosidade falou mais alto e saímos à procura de toda coisa estranha que pudéssemos encontrar à venda no Agora. E, olha, não foi pouca coisa: um taser (arma de choque) em formato de iPhone (R$120,00), uma lista com um milhão de e-mails canadenses para mandar spam (R$10,26) e 500 likes no Facebook (R$105,46, o que dá vinte centavos por cada curtida). Mas, para nós, o melhor anúncio foi o do cara que prometia uma assinatura vitalícia do Netflix por R$21.06. É, dá para ver que as pessoas precisam ter um mínimo de malícia, e às vezes sorte, antes de sairem comprando coisas no lado negro da internet.

Existem pessoas que gostam de abusar da sorte. Divino Hess*, de Joinville, já pediu LSD duas vezes pela undernet desde 2013. Nas duas vezes, mandou entregar na casa de um amigo sob um nome falso, e a droga — que vinha em pequenas quantidades — chegou por carta mesmo. “É bem melhor comprar pela deep web. Melhor em questão de qualidade, variedade e preço. Enquanto o quadrado de Nbome [droga psicodélica que geralmente é vendida como se fosse LSD] custa 50 centavos lá, aqui nós pagamos 20 reais. Já a maconha, que lá é 40 a grama e aqui é três pilas, compensa pela qualidade. A de lá ‘é de coffeshops’, a daqui é literalmente uma merda”.

Imagem autoexplicativa

Só que não são todos os vendedores dos mercados negros que estão “bem intencionados”: muitos deles cobram preços abusivos, alguns chegam a receber a quantia em bitcoins e não entregar o produto e, no pior dos casos, o cara do outro lado pode até ser um hacker esperando para colocar as mãos na sua carteira eletrônica. Nós apostamos que quem fizer esse tipo de transação não vai pensar em reclamar para a polícia… e na deep net, meu amigo, não há Procon que resolva.

De acordo com Hess, tudo se baseia na avaliação do vendedor: “qualquer qualificação negativa pode prejudicá-lo, então eles são obrigados a fazer tudo corretamente”. Um anunciante que cumpre com o esperado e entrega as drogas nos conformes sempre recebe pontos positivos (sim, tipo um curtir do Facebook) e bons comentários. Existem até comerciantes que mandam amostras grátis como brinde.

Apesar das facilidades, o jovem não pensa mais em comprar pela deep web. Com o fechamento do Silk Road, muitos vendedores (que são anônimos até para seus clientes) não possuem reputação consolidada para garantir a confiança dos clientes. “Além disso, estão abrindo investigações contra alguns comerciantes do mercado negro, o que pode levar à interceptação da sua encomenda, o que provavelmente gerará um B.O. se a quantidade for pequena ou uma acusação de compra de drogas com intuito de venda se for grande”, explica Hess.

Na boa, agora vimos que a ideia de comprar maconha só para ver se chegava não era tão inteligente assim.

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