Elas foram forçadas a deixar o terreno onde moravam — e a culpa é da valorização imobiliária

Fenômeno leva vizinhas de bairro na Grande Florianópolis a caminhos distintos e expõe aumento da desigualdade social nas cidades brasileiras

Reportagem, arte e fotos por André Picolotto e Bruna Carolina

Maria Izolete, de 68 anos, na cozinha de sua nova casa alugada, em Palhoça. Depois da mudança indesejada, ela e o marido perderam suas fontes de renda — uma lanchonete e um emprego informal.

Durante seis anos, Maria Izolete Camargo manteve uma lanchonete na garagem de sua casa alugada, próxima à Avenida Presidente Kennedy, no bairro Campinas, em São José. Servia, das sete da manhã até o fim da tarde, café, salgados e refrigerantes a uma freguesia fiel de trabalhadores e moradores da região. Os lucros complementavam a renda da família, composta, até então, da aposentadoria de um salário mínimo e da remuneração informal do marido.

Em uma tarde de agosto de 2014, o proprietário do terreno — no qual, além da casa de Maria Izolete, ficavam outras quatro e uma pizzaria — lhe deu o prazo de três meses para deixar o local, onde morava havia 15 anos. As casas dariam lugar a um edifício de alto padrão, e a construtora estava pressionando para iniciar as obras o quanto antes. Outros moradores do terreno, de 2590 metros quadrados, já tinham concordado em sair — só restavam Maria Izolete, 68 anos, o marido Sidraque, 75, e a filha Adriana, 34. Em novembro, todas as casas estavam desocupadas e logo seriam demolidas.

Campinas é mais um bairro da Grande Florianópolis que passa por uma rápida e intensa valorização imobiliária. Ao lado do terreno onde morava Maria Izolete, hoje vazio e fechado por tapumes, um edifício de 12 andares está quase pronto; nos oito quarteirões ao redor, há três prédios com menos de três anos, outros cinco em construção e mais dois terrenos vazios, esperando por novos prédios. Cinco construtoras estão envolvidas nesses 12 empreendimentos.

Com a valorização imobiliária, a tendência é que os moradores com menor poder aquisitivo sejam forçados a se mudar para áreas mais distantes da cidade — a isso se dá o nome de gentrificação, uma tradução literal da expressão em inglês gentrification. Para o professor de Planejamento Urbano da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Elson Manoel Pereira, a tradução em espanhol do termo é mais clara: aburguesamento.

O professor ressalta que esse é um processo que, no Brasil, acontece sem controle e é visto como algo natural. “Os brasileiros acham que a valorização é sempre positiva. Mas não é, porque expulsa populações importantes da cidade”.

As próprias políticas públicas no país reforçam essa tendência. Um exemplo é a atual situação do “Minha Casa Minha Vida” na Grande Florianópolis. Hoje, os empreendimentos do programa em andamento na região são, quase todos, destinados à periferia — de Palhoça, de Biguaçu, de São José — e poucos são realizados em Florianópolis, devido ao alto valor do metro quadrado.

Alguns países, ao contrário do Brasil, tentam controlar esse processo. O professor destaca o exemplo da cidade de Lyon, na França, onde, durante a restauração da região central, o poder público decidiu reservar 30% dos imóveis à população de baixa renda. “Seria o equivalente a reservar, por exemplo, 30% da Avenida Beira-Mar Norte para os pobres. O prefeito que fizesse isso seria enforcado em plena Praça XV”.


“Os brasileiros acham que a valorização imobiliária é sempre positiva. Mas não é, porque expulsa populações importantes da cidade”
Elson Manoel Pereira, professor de Planejamento Urbano da UFSC

Hilda Marcílio, de 87 anos, trocou a casa em Campinas por um apartamento no bairro Kobrasol, também em São José. Ela recebe visitas frequentes dos filhos e netos.

A transformação em Campinas, decorrente da valorização imobiliária, também atingiu Hilda Pereira Marcílio, 87 anos, vizinha e grande amiga de Maria Izolete. A construtora já possuía 2020 metros quadrados de terreno e, para fechar a quadra do novo prédio, precisava dos outros 570, que pertenciam a Hilda. Como a casa que dividia com a filha Ivonete era própria, o processo de saída do imóvel, para ela, foi diferente.

A relação de Hilda com o bairro é antiga; foi ali que casou, criou os nove filhos e ficou viúva, há dez anos. Os prédios que hoje caracterizam o bairro a fazem lembrar do tempo em que cortava lenha no quintal e presenciava corridas de cavalos nas ruas. Talvez por isso não estivesse muito disposta a vender — mas a construtora estava disposta a comprar. O acordo foi fechado, pelo dobro do valor de mercado, em junho de 2014. Um mês depois, Hilda deixou a casa onde morava havia 30 anos.

A valorização imobiliária nas cidades apresenta, de acordo com o professor Elson, dois aspectos distintos: o individual e o social. A questão é qual deles deve prevalecer. Se o processo, do ponto de vista pessoal, pode ser considerado legítimo, resta discutir se, do ponto de vista social, o caminho desejado é mesmo o da “elitização ao extremo” e da “periferização da pobreza”. “Eu não sei se a sociedade brasileira está madura para fazer essa discussão — de que a valorização da terra pode ser algo ruim”, questiona. “O espaço urbano é reflexo e, ao mesmo tempo, causador de diferenças sociais”.

Hilda Marcílio hoje mora em um apartamento espaçoso no bairro Kobrasol, não muito longe da antiga casa. Continua perto dos filhos e netos e se sente mais segura. “Dizem que aqui é muito barulhento, mas eu não sei. Sou praticamente surda”, brinca. Na mudança, decidiu doar todos os móveis e eletrodomésticos que tinha.


Para o professor Elson Pereira, o espaço urbano é reflexo
e, ao mesmo tempo, causador de diferenças sociais

Desde que deixou São José, Maria Izolete ainda visita a amiga Hilda, mas com menos frequência do que gostaria. A mudança para o bairro Caminho Novo, em Palhoça, não foi uma escolha sua. O acordo firmado com o dono do antigo terreno era de que os dois primeiros anos de aluguel do novo imóvel seriam pagos por ele. Uma casa em Campinas, por conta dos preços elevados, já não era mais possível.

Sem a lanchonete, a renda da família de Maria Izolete diminuiu consideravelmente. A situação piorou quando o marido, que trabalhava sem carteira assinada como zelador, abrindo e fechando as portas de um centro comercial em Campinas, percebeu que não poderia continuar trabalhando por conta dos horários de ônibus. Hoje, é a filha Adriana quem sustenta a casa. Quando o prazo de dois anos terminar, Maria Izolete diz que não sabe o que vai fazer.

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