Enxergar além dos rótulos sexuais combate o preconceito

Novos termos surgiram para ocupar um significado de identidade, oferecendo às pessoas um sentimento de autoaceitação

Sexualidade e gênero são dois marcadores sociais muito poderosos. É através das roupas e do modo de agir e de falar que nos definimos na sociedade. Até pouco tempo atrás, ou era homem, ou era mulher. Simples. A questão é que, com o passar do tempo, as pessoas começaram a não se sentir mais representadas por essa “nomenclatura”. Se a necessidade de encontrar um “rótulo” existe, a condição mínima é que haja outras opções. Não tem regra, nem manual. Cada “caixinha” tem suas peculiaridades e você entra onde melhor se encaixar.

Conceitos como a homossexualidade, transgênero, binaristas e tantos outros se fazem cada vez mais presentes no cotidiano, mas ainda se tem pouco conhecimento sobre seus significados. O aumento da visibilidade das diferentes identidades de gênero e orientações sexuais na mídia é acompanhado pela falta de informação sobre o tema — e é justamente essa falta de informação que, muitas vezes, alimenta o preconceito.

Voltado para discussões sobre gênero e minorias, o coletivo Migre surgiu na UFSC, no início deste ano, como um grupo de estudos de graduandos do curso de Relações Internacionais. O objetivo do coletivo é trazer à tona o debate dentro da universidade e, para isso, realiza encontros quinzenais com rodas de conversa abertas ao público.

Para comemorar o Dia da Visibilidade Bissexual, que acontece no dia 23 de setembro, o Migre realizou um encontro temático que, por tratar de (in)visibilidade, também abrangeu a panssexualidade. Para muitos, o termo é desconhecido e carrega em sua construção linguística o peso do significado: o prefixo “pan” vem de uma palavra grega que significa “tudo”, o que acaba levando as pessoas a acreditarem que pansexuais sentem atração por absolutamente tudo. Se você pensou em árvores ou animais, esqueceu que o termo pansexualidade foi criado dentro do contexto de atração sexual entre pessoas. Logo, os panssexuais sentem-se atraídos por pessoas de qualquer identidade de gênero.

O coletivo Migre, do curso de Relações Internacionais, foi criado na UFSC esse ano para ampliar a discussão sobre gênero e minorias. Foto: Débora Baldissera/Zero

Mas não se assuste: este é um conceito relativamente recente. Até o século XIX, a sexualidade humana não era categorizada como é hoje — não existiam heterossexuais, homossexuais, bissexuais… Existia apenas o sexo, e as relações que hoje chamamos “homoeróticas”, mesmo não sendo categorizadas como tais, eram práticas comuns em sociedades como a Grécia Antiga. A relação sexual entre um cidadão (homem da elite, que podia votar, tinha uma família constituída) e um jovem — seu aprendiz — era a relação mais importante para a transmissão do conhecimento.

Hoje em dia, as coisas não são tão simples. Novos termos surgiram para definir quem somos e de quem gostamos. O problema é que as pessoas não nascem numa caixinha e encontrar algo que, de certa forma, “defina” sua sexualidade não é uma tarefa fácil. A estudante de Economia, Helena Dalto, conta que recentemente teve uma crise existencial em que se questionou muito sobre sua identidade, pois sempre foi considerada muito “masculina” por gostar de jogar futebol, andar de skate e ter muitos amigos homens. Helena prefere não se classificar como hétero, nem como bissexual: “Não gosto da ideia de me rotular nesse sentido”.

Identificar-se com alguma sexualidade específica pode não ser uma necessidade para todas as pessoas, mas, para outras, é uma luta política. Pedro Magrini, pós-doutorando em Antropologia Social, explica que a necessidade de uma identidade de gênero pode ser tanto psicológica como política, e muitas vezes vem da pressão da sociedade para que o indivíduo se defina como parte de um grupo: “Sempre existe uma pressão para que você tenha uma identidade. Quando nomeamos isso, a luta política fica mais fácil, você agrega coletivamente os grupos”.

A identificação como parte de um grupo, de um movimento social, ajuda na luta política pelos direitos do indivíduo. E essa luta tem transformado a sociedade. Antigamente, o homossexualismo era considerado doença, de acordo com discursos médicos. Apesar desse conceito estar mudando, agora o transsexual é visto como uma anomalia biológica que precisa de cura. “Todos esses movimentos sociais, que são muitas vezes recentes, vêm conseguindo vitórias fortes. Por exemplo, a homossexualidade já não é mais vista como uma doença, não porque os médicos chegaram à conclusão, mas porque houve uma predição social poderosíssima frente a isso. De fato, esses movimentos conquistaram muita coisa, e hoje se tem uma abertura e uma visibilização muito maior dessas identidades”, acrescenta Magrini.

Aléxia Flach é mulher cisgênero panssexual, ou seja, nasceu mulher, se identifica com costumes e práticas consideradas femininas (modo de vestir e aparência, por exemplo), e sente atração sexual por pessoas de todos os gêneros. Mas nem sempre foi assim. Desde os 13 anos, tinha dúvidas sobre sua atração sexual, e foi aos 17 que ela se assumiu como “bi”. A autoaceitação foi muito mais difícil que a aceitação dos pais e apesar de estar convicta sobre sua sexualidade, Aléxia ainda não se sentia totalmente representada pelo termo. Foi então que uma nova palavra chegou ao seu conhecimento. A estudante de Relações Internacionais e integrante do Coletivo Migre conheceu a panssexualidade através de um vídeo na internet. “Eu vi que eu me encaixava melhor nesse conceito, mas eu tinha medo de me tornar mais invisível ainda do que já era sendo bissexual. Pelo menos o “B” está lá na sigla [LGBT]”.

Maria Júlia Castro deu voz à bissexualidade no encontro realizado pelo Migre e trouxe à discussão o conceito de binarismo, que limita identidades de gênero e orientação sexual entre masculino e feminino. Um exemplo claro é a ideia de que bissexuais sentem atração por homens ou mulheres, e ponto. Maria Júlia explica que, em sua concepção, bissexuais sentem atração por ambos os gêneros. Isso quer dizer que homens e mulheres trans também podem atrair os “bi”.

Se pensarmos nos conceitos levados ao pé da letra, a orientação de Maria Júlia seria polissexual, já que não se atém ao binarismo. Mas, para a estudante de 21 anos, o conceito de bissexualidade é muito mais amplo e combate a transfobia quando também inclui trânsgenero como termo comum de identidade de gênero. Ou seja, automaticamente inclusos no conceito “homem/mulher”.

Mas não são só as definições que confundem e acentuam o preconceito. Quando o assunto é sexualidade, até mesmo o caráter do indivíduo é questionado. William Carvalho tem 25 anos, homem cisgênero panssexual, namora com uma menina hétero há quatro anos. Apesar de sua relação ser vista como “normal” por obedecer os padrões heteronormativos (homem e mulher), uma das formas de discriminação que ele enfrenta é a associação da panssexualidade com a promiscuidade e a infidelidade. Aléxia confirma a constatação: “Quando a pessoa não é mono-sexual, acha-se que ela não tem preferências sexuais. Assim como o hétero escolhe a pessoa pela personalidade, os panssexuais também”.

No mundo atual, é necessário falar sobre as diferentes sexualidades. A discussão sobre o assunto está presente na sociedade, nas escolas, universidades, locais de trabalho e dentro de casa. É cada vez mais comum que as pessoas não tenham vergonha ou medo de expor suas identificações de gênero e orientações sexuais. Afinal, elas não deveriam se constranger por serem elas mesmas. A desinformação ou ignorância sobre o assunto não farão com que a diversidade deixe de existir. “Nós não somos a ‘Sininho’. Se você disser que não acredita, nós não vamos sumir”, explica Aléxia Flach.

Escala Kinsey

Em 1948, o entomologista e zoólogo americano Alfred Kinsey e seus colegas desenvolveram um estudo sobre a sexualidade masculina (Sexual Behavior in the Human Male, ou “Comportamento sexual do homem”), hoje conhecido como “Relatório Kinsey”. Embora fosse um especialista em insetos, Kinsey estudou e fez pesquisas sobre a sexualidade humana e, com o bestseller que foi o Relatório, tornou-se um dos responsáveis pela revolução sexual que aconteceu nos anos 60. Os conceitos apresentados balançaram os valores tradicionais da sociedade estadunidense da época: quem, em 1948, diria que 92% dos homens e 62% das mulheres se masturbavam? Ou que 37% dos homens e 13% das mulheres já tinham tido uma relação homossexual que lhes tinha proporcionado um orgasmo? O segundo volume do Relatório, Sexual Behavior of the Human Female (“Comportamento sexual da mulher”) foi lançado em 1953. (É claro que os dados que Kinsey coletou podem ter se modificado, já que a pesquisa foi realizada nos Estados Unidos, no fim da década de 40 e início dos anos 50, mas é inegável a importância destes estudos para maior conhecimento da sexualidade humana).

Kinsey também desenvolveu uma “escala” da sexualidade, que varia entre dois extremos: exclusivamente homossexual, e exclusivamente heterossexual. Para ele, os seres humanos não ficam apenas nestas duas categorias, mas flutuam entre elas, apresentando diferentes graus dessas categorias (hétero ocasionalmente homossexual, hétero mais do que ocasionalmente homossexual, igualmente hétero e homossexual, e assim por diante, até alcançar o outro extremo). Contabiliza também os assexuados, ou “indiferentes sexualmente”, mas deixa de fora a poli e a panssexualidades.

Não existe um teste psicológico que determine em qual das classificações da escala cada pessoa se encaixa: de acordo com o Kinsey Institute, da Universidade de Indiana, é um método de auto avaliação baseado em experiências individuais, que pode mudar ao longo do tempo.

Teoria Queer

A sexualidade é um conjunto de elementos, de estar no mundo e se relacionar com as pessoas. A teoria mais contemporânea sobre sexualidade é a Queer, que surgiu nos anos 90, e sua principal teórica é a americana Judith Butler. Essa teoria exige que haja mudança, transgressão e experimentação com novas formas de se posicionar no mundo, a partir do questionamento das noções de gênero. De forma mais simplificada, questiona as categorizações universais como homossexual, heterossexual, homem e mulher, defendendo a existência de uma diversas variações culturais que não competem entre si.

A própria palavra “queer” já foi uma ofensa — remete ao abjeto, ao estranho, e ao que causa nojo e repulsa. Hoje, com a apropriação do termo pela teoria, ele faz referência à transgressão como uma “arma” contra as convenções. Ser queer é rejeitar as normas, pôr em cena tudo aquilo que foge do padrão consolidado pela sociedade. É uma teoria de desconstrução: os estudiosos queer desafiam a validade e a consistência do discurso heteronormativo vigente.

Conheça os principais termos

Arte: Isabelle S. Santos

Sexo biológico: toda criança, quando nasce, é identificada como menino ou menina, de acordo com o aparelho genital, composto por uma glândula interna (ovário nas meninas, testículo nos meninos) e pelos órgãos externos (vulva, vagina e clitóris nas meninas, pênis e saco escrotal nos meninos).

Identidade de gênero: é a maneira como o indivíduo se identifica, independente de seu sexo biológico.

Cisgênero: quem se identifica com o gênero designado no nascimento.

Transgênero: não se identificam com as características de gênero do nascimento.

Queer: a sexualidade da pessoa é fluida: ela ora se identifica como mulher, ora como homem, e às vezes fica entre os dois extremos.

Identidade sexual: envolve o sexo biológico e a identidade de gênero. Refere-se ao processo de construção psicológica, por exemplo, de uma criança que nasceu menina acreditar que é realmente uma mulher.

Orientação sexual: direção para onde se inclina o desejo sexual. Independe da vontade do indivíduo.

Heterossexual: atração por pessoas do sexo oposto.

Homossexual: atração por pessoas do mesmo sexo

Bissexualidade: atração por ambos os gêneros, sejam binários (homem e mulher) ou não (transgênero).

Polissexualidade: atração por mais de um gênero.

Panssexualidade: atração por todos os sexos e gêneros.

Assexualidade: não existe atração por nenhum gênero; indiferença à prática sexual.

Demissexualidade: só ocorre atração sexual diante de laços emocionais formados com o outro indivíduo.

Gray-assexualidade: a atração sexual ocorre apenas ocasionalmente.

Reportagem: Débora Baldissera, Gisele Bueno e Natália Huf

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