Estudantes em rotinas intensas adoecem

Sintomas de depressão são considerados normais e a doença é pouco debatida na UFSC

Por Sarah Soares

Relações interpessoais são prejudicadas quando o aluno está em crise. #PraCegoVer: ilustração de uma mulher virada de costas. Ela está se abraçando e no meio das suas costas tem um buraco com estrelas e um planeta. Em cima dela, está escrito “Não deixe seu vazio te engolir”.

Marta, 22 anos, vive com sua mãe em Florianópolis e foi diagnosticada com depressão no segundo período da faculdade. Não muito diferente de vários outros jovens da sua idade, ela entrou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para aprender e encontrar realização pessoal e profissional. Antes de ser diagnosticada, atuava na empresa júnior do seu curso** voluntariamente, além de estagiar e trabalhar em projetos externos. Para ela, o conjunto de atividades servia para tentar suprir o que não encontrava na sala de aula: conhecimento atualizado e relevante para sua futura profissão. Contudo, trabalhar para se manter, se profissionalizar e cumprir a carga horária semestral exigida foram os catalisadores de uma rotina cada vez mais impossível, que trouxe consigo a depressão e uma tentativa de suicídio.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 21% dos jovens entre 14 a 25 anos possuem sintomas de depressão. Entre eles, 5% já tentaram suicídio. “Dentro da universidade o jovem deve lidar com as idealizações e expectativas que tem sobre como será sua vida e como será seu desempenho, na tentativa de sustentar suas idealizações, seus sonhos, essa pessoa pode adoecer por não conseguir enxergar e respeitar seus limites”, avalia a psicóloga Adriane Ciaffone.

Enquanto muitos conseguem driblar o stress e a pressão do dia a dia, outros “podem adoecer”, complementa a psicóloga. Além disso, fatores como solidão, distanciamento da família e amigos, má alimentação, sedentarismo e local precário de moradia podem desencadear o problema.

Doença silenciosa

Muitos estudantes sequer percebem os sintomas da depressão, por julgarem se tratar de algo comum ao dia a dia. “As relações, sem dúvida, serão afetadas. Distanciamento, isolamento, ansiedade, cansaço, desinteresse, são alguns dos sinais que podem ser observados com cuidado. Esses sintomas são sinais socialmente aceitos, e podem ser justificados pelo estilo de vida, e por isso passam despercebidos”, explica a psicóloga Adriane Ciaffone.​

Os sintomas da doença variam de pessoa para pessoa, em diferentes níveis e podem podem aparecer de forma bastante sutil.

“Pode ser um mergulho muito profundo nos afazeres, nas obrigações, um sofrimento disfarçado de dedicação e auto-exigência. Somos ensinados muitas vezes a não levarmos nossos sofrimentos à sério, sentir pode ser considerado sinal de fraqueza para muitos, então ignora-se o sentimento”, comenta Adriane. Ela alerta que o afastamento dos próprios sentimentos pode levar alguém a entrar em crise ao não perceber os pequenos sinais do problema.

Flávio*, de 19 anos, passou por isso. Ele é cotista na UFSC e precisa compartilhar seus gastos com os pais, que moram no interior. Para melhorar a situação financeira da família, a saída era buscar sustento na profissão que escolheu. Para se formar mais rápido, passou a cursar oito disciplinas por semestre e quando não estava dentro da sala de aula como aluno, era professor de redação, atividade que encontrou para aliviar as contas. Flávio não aguentou, teve um surto repentino em 2015. A crise fez com que trancasse o curso**, voltasse para a casa dos pais e buscasse ajuda profissional. O tratamento incluiu oito tipos de remédio e terapia com psicólogo. Após 2 meses, ele pode retornar suas atividades na universidade. Hoje, Flávio não precisa mais de remédios e segue com o processo de terapia.

Situação semelhante foi vivida por Carolina*, mas além da rotina acelerada, a estudante** ainda buscava driblar a frustração de não conseguir atender às suas próprias expectativas com o curso. Antes de entrar na faculdade, ela já tinha um diploma técnico em Informática. De acordo com a acadêmica, enquanto era bolsista em um laboratório da UFSC, os professores lhe designavam atividades relacionadas ao seu curso técnico anterior e não à graduação, para qual a vaga era destinada, o que gerava desconforto com a atividade desenvolvida. Além disso, a jovem também atuava no centro acadêmico, organização de festas para a formatura, bolsa de iniciação científica, e, claro, a carga horária das aulas da graduação. A sensação de que sua vida social e sua saúde estavam sendo deixadas de lado para dar lugar apenas para o desempenho acadêmico culminaram em um quadro de depressão. Ao ser diagnosticada, Carolina abandonou todas as funções acadêmicas anteriores. E não pensa em voltar.

*As identidades dos entrevistados foram preservadas nesse texto

* A fonte solicitou que o curso não fosse revelado

Rede de apoio

A depressão é uma doença silenciosa por se instalar discretamente, invisível aos que estão em volta. Para os familiares e amigos que acompanham uma pessoa nesta condição, é importante oferecer uma rede de apoio e mobilização, para acolher a pessoa e oferecer suporte. “Familiares têm importante papel no aspecto afetivo e questões práticas. Professores podem se abrir para conversar e entender como a depressão está limitando a participação de seus alunos e construir com esses novas possibilidades de aproveitamento e de avaliação para que o aluno não seja ainda mais prejudicado”, pontua a psicóloga Adriane Ciaffone.

A pessoa com depressão também precisa passar por acompanhamento psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico com apoio de medicamentos.

Com a psicoterapia, a pessoa desenvolve processos de “reconstrução de significados e formas de relação com seu mundo, seu ambiente e pessoas de sua vida”, comenta Adriane. Segundo a especialista, os remédios tratam o sintoma, mas precisa ser administrado com uma terapia adicional. “O remédio é essencial em muitos casos, mas o sintoma voltará, da mesma forma ou de outra, se a forma dessa pessoa relacionar-se com sua vida não mudar”.

Locais de atendimento

Em Florianópolis, os estudantes da UFSC podem ser atendidos no Serviço de Atenção Psicológica (Sapsi), que oferece acompanhamento psicológico e também orientação profissional. Mas a procura é grande. Em agosto, por exemplo, as 30 vagas disponíveis para terapia foram preenchidas em 30 minutos, e a última fila de espera contava com mais de 200 pessoas.

Além do Sapsi, o estudante pode ser atendido pelo Hospital Universitário em caso de emergência e mais três psicólogas da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). Outras universidades particulares também possuem núcleos de atendimento. Também há na capital a Associação Instituto Movimento (Assim), uma organização que oferece atendimento a pessoas de baixa renda ou sem condições financeiras para pagar uma consulta particular com psicólogo. Institutos como Instituto Familiare, Locus Partner, Comunidade Gestáltica, Instituto Granzotto, também oferecem atendimento social.

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