Documentário expõe vida dupla de religiosos

Filme revela comportamento homossexual de padres e pastores em mais de 30 países

Ilustração: Matheus Faisting

“Vós julgai segundo a carne; eu a ninguém julgo” (JOÃO 8:15): é com este versículo bíblico que começa o trailer do documentário Amores Santos, com previsão de estreia para janeiro de 2016. Gravado durante sete meses e ainda em fase de finalização, o filme tem chamado atenção no Brasil e no exterior por prometer cenas que revelam a hipocrisia do discurso religioso em relação à homossexualidade.

O longa, que inicialmente pretendia tratar do impacto da homofobia na parcela mais jovem da população, acabou seguindo outro caminho durante o processo de apuração. Para conversar com os religiosos pela internet, um ator foi contratado para se passar por um jovem homossexual em busca de auxílio. “Mas, ao invés de ouvir uma condenação ou um sermão, ele acabava ouvindo cantadas”, conta Dener Giovanni, jornalista e diretor do filme.

Entre os 5 mil entrevistados, além dos religiosos com quem o ator interagiu e que tiveram suas identidades preservadas, o documentarista também colheu depoimentos de especialistas sobre o assunto. Abaixo você confere a entrevista que o Zero fez com Giovanni sobre a produção e a repercussão do documentário.

Dener Giovanni, jornalista e diretor de Amores Santos

ZERO: Quais foram os fatos mais chocantes que os entrevistados revelaram?

Dener Giovanni: Eu posso dizer que os fatos são absurdos. Durante a gravação, aconteciam situações que a gente realmente ficava até sem saber como se portar diante daquilo. Não posso entrar em detalhes, mas adianto que são cenas que vão chocar as pessoas. Por exemplo, no teaser do filme você pode ver um bispo levantando a batina e mostrando a calcinha vermelha. Um ex-padre entrevistado também revelou casos de religiosos que se utilizavam de drogas, como cocaína e heroína, para conseguir sexo com jovens. Ele disse que esses religiosos preferiam dar a droga do que dar o dinheiro, porque a droga viciava e eles tinham ali sempre à mão o controle da pessoa.

ZERO: A bancada evangélica é a principal opositora política dos direitos LGBT no Brasil. Você teve dificuldades para entrevistar pastores evangélicos?

DG: Com os padres foi mais fácil porque eles tinham liberdade para fazer o sexo virtual dentro de casa, afinal, não são casados e moram sozinhos. A maioria dos pastores usava o celular, porque precisavam ficar escondidos. O pastor normalmente tem esposa e filhos, então era sempre escondido na garagem, no quarto da empregada, no banheiro, o que dificultava a gravação. Mas serem casados e terem família não os impediu de terem práticas homossexuais.

ZERO: Você tem recebido ameaças por causa do filme?

DG: Depois que divulgamos o filme, a gente não acessou nenhuma das páginas que usava. E eu nem quero acessar porque acredito que todos os entrevistados já devem estar sabendo. A gente vê alguns comentários agressivos na internet, mas não recebemos ameaças diretamente. Estamos cientes dessa possibilidade, até porque estamos falando de forças muito poderosas da sociedade, de religiões que tem um peso muito grande. Mas depois que o filme vier a público, eles não vão poder se esquivar. Vão ter que se posicionar e vão ter que falar sobre o filme porque o que a gente vai mostrar realmente vai abalar a estrutura e o discurso deles.

Religiosos interagindo por Skype com o ator contrato (imagens do documentário Amores Santos)

ZERO: Você acredita que mostrar essa realidade possa aumentar ainda mais a homofobia dentro de setores religiosos?

DG: Não acho que vai aumentar uma coisa que já é grande e prejudicial. Acho que, pela primeira vez, as pessoas vão ter a oportunidade de ver a enorme hipocrisia que existe por trás deste discurso. O que a gente vê no dia a dia é que as pessoas que têm esse discurso homofóbico talvez não tenham uma noção exata das consequências disso para a sociedade. É um discurso que gera ódio, violência, desagregação familiar, tentativa de suicídio, e isso vai estar mostrado claramente no filme.

ZERO: Em 2013, o jornal Independent revelou que o Vaticano teria gasto mais de R$ 58 milhões em apartamentos de um prédio que abriga a maior sauna gay da Europa. Você acredita que episódios como este acontecem sem o conhecimento do alto clero ou isso indica uma prática já institucionalizada pela igreja?

DG: Eu não acredito que seja um caso isolado ou uma exceção. É generalizado. Inclusive, uma das pessoas que nós entrevistamos, um ex-funcionário do Vaticano e teólogo respeitado chamado David Berger, afirma que existem membros da cúria romana que mantém apartamentos para fim de sexo com rapazes. Acredito que no mínimo existe uma conivência, seja por omissão ou por qualquer outro motivo. Eu não estou, em momento algum, condenando nenhum desses religiosos por fazerem sexo. Estou levantando a discussão sobre a distância que existe entre o discurso e a prática, para mostrar que por trás de um discurso de ódio existe a mesma prática que eles condenam em público.

“Estou levantando a discussão sobre a distância que existe entre o discurso e a prática, para mostrar que por trás de um discurso de ódio existe a mesma prática que eles condenam em público”

ZERO: O caso de Krzysztof Charamsa, sacerdote polonês que se assumiu homossexual, apresentou seu parceiro publicamente e acusou a igreja católica de ser homofóbica, teve grande repercussão na mídia este ano. O posicionamento dos entrevistados no documentário é parecido com o dele?

DG: Os religiosos que interagiram com o ator afirmam realmente que há essa orientação em relação ao discurso homofóbico. Mesmo sendo gays, eles se sentem pressionados a repetir este discurso. Eles vão para o altar e pregam que isso é pecado, que isso é imoral, mas no fundo eles não acreditam em nada disso. Tanto que existem muitos que são de fato homossexuais e levam uma vida absolutamente sexual por debaixo da batina.

ZERO: O discurso do papa Francisco em relação aos homossexuais tem se mostrado menos conservador do que o de seus antecessores. Você acredita que isso possa ser um sinal de mudança?

DG: Eu acho que este é um discurso ainda mais perigoso. David Berger, inclusive, fala que o papa é suave nas palavras, mas duro nos gestos. É uma tentativa de amenizar o discurso, mas na prática tudo continua igual. Isso é muito perigoso porque, quando você tem um papa que não tem o carisma do Francisco, como era o caso do Bento XVI, é muito mais fácil enfrentá-lo. Mas quando o mal está travestido de anjinho, as pessoas acreditam naquela bondade. Por trás, não existe nenhum avanço da igreja. Até hoje o Vaticano não aceitou a indicação do embaixador francês no país pelo simples fato de ele ser gay, por exemplo. Então, que discurso é esse?

Texto e Ilustração: Matheus Faisting

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