Histórias com cheiro, textura e sabor

Grupo incentiva a preservação do patrimônio cultural em Florianópolis

Por Gustavo Falluh e Kamylla Silva

Sociedade História Destherrense foi criada por Pauline Kisner (à direita, usando flores nos cabelos) em 2010, depois da popularização dos piqueniques vitorianos. #PraCegoVer: cinco pessoas estão de pé, vestidas com roupas típicas de outras épocas. O tempo está ensolarado no bairro Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis.

Pauline Kisner chama a atenção por onde passa. O vestido armado com a ajuda de crinolina, a postura ereta pelo uso de espartilho e os cabelos enfeitados com flores dão a impressão de que ela saiu das páginas de um livro de história. Enquanto caminha pelas ruas de Santo Antônio de Lisboa, pessoas se aproximam para pedir fotos ou perguntar se ela é atriz. Alguns até pedem para ver o que há por baixo de tantas camadas de tecido.

Natural de Rio Grande (RS), Pauline é filha de pai militar e teve uma educação extremamente rígida. Mas isso nunca foi obstáculo para que exercesse sua criatividade: desde a infância, ela já se encantava pela Era Vitoriana (1837–1901) e pedia a ajuda da mãe para confeccionar roupas semelhantes às utilizadas no período para suas bonecas. Mais tarde, foi a vez dela mesma começar a se vestir.

Pauline se envolve pessoalmente em todas as etapas de confecção de seus trajes. #PraCegoVer: Pauline está levantando seu vestido e mostrando a armação que fica embaixo dele.

Quando se mudou para Florianópolis com a mãe, em 1997, Pauline começou a explorar o Centro para se familiarizar. Foi assim que descobriu a cultura, as ruas e os prédios locais. Alguns anos depois, ela ingressou no curso de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Seus trabalhos acadêmicos exigiam consultas a acervos e, aos poucos, ela acabou se encantando pelo passado da cidade.

Hoje, Pauline dá aulas de história e geografia em uma escola particular de São José. Lá, ela tem toda a liberdade para trabalhar do jeito que gosta: vestida com roupas inspiradas em outros períodos, usando objetos originais de décadas passadas e empregando jogos de tabuleiro clássicos. Os livros didáticos ficam devidamente guardados dentro das mochilas de seus alunos.

Entre parques e museus

Frutas, doces e xícaras de chá se espalham sobre toalhas de renda estendidas no gramado de um belo parque. Ao redor delas, estão sentadas damas que usam vestidos bufantes e cavalheiros com trajes bem cortados. Eles conversam sobre história, literatura e moda. Esses encontros foram batizados de piqueniques vitorianos e acontecem nas principais cidades do Brasil desde 2009.

Pauline organizou a primeira edição realizada em Florianópolis, em 2010. Porém, a popularização do formato do evento fez com que ela pensasse em inovações para não se limitar a reproduções estereotipadas da Era Vitoriana. Foi assim que nasceu a Sociedade Histórica Destherrense (SHD), grupo que promove atividades educativas ligadas à história e ao patrimônio cultural da cidade no mesmo ano.

Pauline é casada com Sandro Zamboni e os dois curtem o hobby juntos. #PraCegoVer: Sandro Zamboni beija a mão de Pauline. Os dois vestem roupas típicas da Era Vitoriana.

A SHD trabalha com o conceito de reconstrução histórica, que é a prática de pesquisar, simular e compreender a vida de outros tempos. No entanto, a etapa da encenação ainda é vista com desconfiança pelo meio acadêmico, que também teme pela perpetuação de estereótipos sobre o passado. Atualmente, a única entidade que reconhece esforços de grupos como o de Pauline é a Rede Brasileira de História Pública (RBHP).

As atividades da SHD podem ser divididas em dois grupos: à paisana e a caráter. Com as roupas do dia a dia, Pauline promove um grupo de estudos chamado Café com História, em que discute temas de interesse dos participantes com a ajuda de textos. Os trajes de época são retirados dos armários apenas para piqueniques em parques, roteiros pelo centro de Florianópolis e visitas guiadas a museus.

Histórias sob trajes

A partir de fontes primárias, Pauline Kisner lidera a pesquisa para a reconstrução histórica. O período que costumam estudar abrange da Revolução Francesa (1789–1799) até o início da Primeira Guerra Mundial (1914–1918). De acordo com a historiadora, os últimos dois roteiros exigiram entre três e seis meses de planejamento, investidos em descobrir como os fatos da época influenciaram alguns personagens.

Mas ela conta que não é tarefa fácil. Como a história do cotidiano é relegada a segundo plano, o pesquisador é desafiado a procurar casos esquecidos com o passar do tempo. “Eu consigo dizer qual é a rotina de uma dona de casa na Inglaterra em 1860, mas não no Brasil. E não é que não tenha fonte, ela não é explorada”, lamenta. Já em termos de figurino, é preciso estar disposto a gastar ou aprender a costurar para curtir o hobby.

Vestir-se com trajes de outras épocas exige atenção aos mínimos detalhes para que o resultado final seja fiel. #PraCegoVer: Pauline aperta o espartilho de Carolina.

A turismóloga Carolina Felipe, participante da SHD desde o início, está na praça Getúlio Vargas, em frente à Igreja Nossa Senhora das Necessidades, em Santo Antônio de Lisboa. Seu espartilho está frouxo. Pauline, a mais hábil com reparos e ajustes, pede a ela que segure a parte de baixo da saia de passeio enquanto aperta a amarração em suas costas. Carolina sorri — sabe que é sempre Pauline quem socorre nos momentos de aperto.

“Eu não costuro, infelizmente. Muitas de nossas roupas precisam ser costuradas. Às vezes, a gente pega tutorial na internet. A maioria costura, tem habilidade com artes manuais. Eu, como não tenho, peço ajuda para quem consegue”, comenta a turismóloga. Segundo as participantes, para a confecção de um traje novo, a primeira etapa é encontrar um tecido parecido com o da época. Os brechós da rua João Pinto, no Centro Histórico, costumam ter algumas peças que se encaixam no contexto. Em último caso, o grupo apela para panos de cortina.

Sandro mostra seu cravat e conta que consegue incorporar suas peças ao dia-a-dia. #PraCegoVer: Sandro está de pé, com uma das mãos segurando o colete. Está usando uma cartola e pisca para a foto.

Como os moldes das roupas são trazidos de fora, a montagem é a parte mais complexa, conta a secretária Laura Pereira. Apesar de saber costurar, ela gastou cerca de R$ 200 com o traje que veste e garante que este teve baixo custo. Interessada por cosplay — a representação de um personagem a caráter –, apaixonou-se pela beleza das vestimentas e quis participar da SHD. “No meu caso, foi o fascínio pelo estético. A roupa chama atenção. Mesmo as mais simples são normalmente muito bonitas”.

Os homens, em compensação, têm uma certa vantagem. Eles adaptam o que já existe para ser transformado no figurino. “Por exemplo, este cravat a Pauline achou o molde e fez em casa. A camisa eu posso levantar a gola e vira de época. Só a cartola que deu mais trabalho, precisei encomendar”, demonstra Sandro Zamboni, marido de Pauline e ilustrador oficial da SHD.

Grande bagunça democrática

A organização da SHD reúne um grupo fixo de oito membros, que estão em todos os eventos e possuem formações diferentes. O público, flutuante, varia entre 15 e 30 pessoas. Embora lidere o grupo, Pauline garante que não é nenhuma ditadora. “Nós somos uma grande bagunça democrática. Todo mundo fala, grita e briga, mas a gente chega num denominador comum no final”, diz a educadora.

Qualquer membro da equipe pode sugerir encontros e, ao surgir um problema para ser resolvido, o enfrentamento é multidisciplinar. Aline Estacheski, com formação na área médica, tem vivência em teatro e ajuda na parte da decoração. Carolina Felipe, por sua vez, é pós-graduada em marketing, mas se encantou por turismo e contribui com a divulgação. Sandro Zamboni é responsável pela identidade visual.

Carolina Felipe acredita no potencial turístico das atividades desenvolvidas pela Sociedade Histórica Destherrense. #PraCegoVer: Carolina olha para o lado. Está usando um chapéu com flores.

Quando o assunto é literatura, Romeu Martins é acionado. Autor de contos de ficção científica steampunk— gênero que, em vez de pensar o mundo do futuro, cria alterações tecnológicas no passado –, ficou conhecido pelo grupo como o escritor que ambientava histórias no século 19. Juntaram-se os interesses comuns. De um lado, a paixão pela época como motivador geral; por outro, o objetivo particular do jornalista de compreender o contexto. “Fui dar mais credibilidade para os ambientes que eu descrevia”, explica.

Uma história de pessoas comuns

Os livros didáticos estão cheios de datas, heróis e fatos que parecem ter pouca relação com o presente. Com as reconstruções, a historiadora Pauline Kisner busca mostrar que a história é feita por pessoas comuns e vive em detalhes do nosso cotidiano. “Existe uma produção acadêmica maravilhosa no Brasil, mas a academia não consegue levar isso ao grande público. O conhecimento gerado dentro da universidade precisa circular”, critica.

Outro grande objetivo da SHD é dar um novo significado ao conjunto do patrimônio histórico-cultural de Florianópolis. “Criamos mecanismos para que as pessoas construam sentidos. Não é só fazer com que elas respeitem uma fachada; precisamos contar as histórias que estão por trás dela e afetam o mundo em que vivemos hoje. Um prédio não deve ser preservado só porque tem mais de 200 anos”, acredita a historiadora.

Para confeccionar trajes novos, os membros do grupo buscam moldes, importam tecidos e aprendem a costurar. #PraCegoVer: uma mulher vestida com trajes típicos está em pé, segurando uma sombrinha da época.

Contudo, reconstruir um período histórico é mais complexo do que encontrar um tecido semelhante ao utilizado em determinada época. No Brasil, o acesso às fontes originais costuma ser difícil. Além disso, alguns dos principais capítulos da história de nosso país — como a escravidão e a Guerra do Paraguai (1864–1870) — exigem um olhar mais sensível para que sejam tratados em toda a sua complexidade.

Entre os capítulos polêmicos da história da cidade, a SHD ainda não abordou a Revolução Federalista (1893–1895), que foi marcada por fuzilamentos na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim e serviu como pretexto para a mudança do nome de Nossa Senhora do Desterro para Florianópolis. “Achamos que isso vai dar pano pra manga. Então, não vamos mexer nesse vespeiro por enquanto. Mas está na nossa lista”, conta Pauline.

A historiadora também reconhece que a SHD ainda está presa ao modo como as classes mais altas das sociedades de outras épocas se vestiam. Ela atribui o posicionamento do grupo à escassez de referências visuais sobre o vestuário das camadas mais baixas. “Somos criteriosos. Tentamos resolver com pesquisa, mas lidar apenas com descrições textuais para criar uma roupa é muito difícil. Se não temos fontes, não fazemos”, explica.

A Era Vitoriana

A chamada Era Vitoriana corresponde ao período entre 20 de junho de 1837 e 22 de janeiro de 1901, quando a rainha Vitória esteve à frente do Império Britânico. O reinado mais longo da história da Grã-Bretanha até aquele momento — ultrapassado por Elizabeth II em 2015 — foi marcado por prosperidade econômica, efervescência cultural e orgulho nacional.

Rainha Vitória teve um reinado marcado por crescimento econômico e cultural. #PraCegoVer: Uma imagem em preto e branco mostra a Rainha Vitória posando para a foto.

Politicamente, a Era Vitoriana costuma ser lembrada pelo neocolonialismo. Em 1882, a Grã-Bretanha já possuía o maior império da história. No final do reinado de Vitória, seus domínios se estendiam por cerca de um quinto da superfície terrestre e quase um quarto da população mundial devia lealdade a ela.

A Revolução Industrial (1760) impactou a Era Vitoriana de maneira significativa. Os avanços tecnológicos no desenvolvimento de máquinas a vapor aumentaram a produtividade das fábricas. A construção de ferrovias, canais e estradas permitiu que matérias-primas e bens de consumo fossem transportados mais rapidamente.

O período viu muitas mudanças no campo da moda, incluindo transformações nos estilos das roupas, nas tecnologias de fabricação e nos métodos de distribuição. O avanço das técnicas de impressão incentivou a proliferação de revistas e permitiu que as massas participassem das tendências, abrindo caminho para o consumo e a publicidade.

Pontos históricos do Centro de Florianópolis

Casa de Câmara e Cadeia: Construída entre 1771 e 1780, abrigava os presos no piso inferior e a Assembleia Legislativa Provincial no superior. Deve receber o Museu de Florianópolis em 2017.

Museu Histórico de Santa Catarina: Localizado no Palácio Cruz e Sousa, conta com cinco frentes de acervos em exposição: bibliográfico, arquivístico, arqueológico, museológico e arquitetônico.

Praça XV de Novembro: Representa o ponto de expansão inicial da Vila de Nossa Senhora do Desterro. Recebeu a figueira centenária em 1891.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Benedito: A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos ergueu a segunda igreja mais antiga de Florianópolis para acolher a religiosidade do povo negro.

Igreja de Nossa Senhora do Bom Parto: Construída por devotos da confraria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito entre 1841 e 1861, recebia o mesmo público humilde.

Teatro Álvaro de Carvalho: Pela necessidade de expressão em Desterro, um grupo de pessoas ligadas à cultura incentivou a criação de um teatro. A inauguração oficial ocorreu em 1875.

Avenida Hercílio Luz: Antes da construção da avenida, o Rio da Bulha corria pelo local e reunia lavadeiras. No segundo governo de Hercílio Luz, o curso d’água foi canalizado.