Jovens usam bordado como crítica social

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Dec 4, 2019 · 8 min read

De atividade reservada às mulheres, hoje é arte que empodera e gera independência

Texto por Isabela Petrini Moya e Sofia Mayer
Sob orientação dos professores Ildo Golfetto & Valentina Nunes

Arte manual é coisa de mulher. Mas de mulher empoderada, que sabe o que quer, e que faz porque tem vontade fazer. Mas, se quiser, é atividade para homem também, sem distinção de gênero, nem de idade. Esse olhar moderno para algo tão tradicional tem a ver com um novo momento histórico, em que as redes sociais servem de apoio para jovens descobrirem o gosto pelo manuseio das linhas e agulhas. Com novas ideias, eles ressignificam o bordado e o crochê, expondo críticas sociais e buscando independência financeira através das confecções.

As florzinhas, que antigamente decoravam os panos de louça e enxovais para a casa, deram lugares a frases de empoderamento e desenhos que exaltam a figura feminina e os gostos pessoais dos artistas. Diferente da época de seus avós, jovens hoje têm transformado o bordado e o crochê em fonte de renda, terapia e canal para expressar sentimentos. Tornou-se uma arte antiga, reformulada pelas mãos das novas gerações e empoderada a partir de valores contemporâneos.

Bordar para empoderar

Se antes uma mulher que pensava em se sustentar com seus trabalhos era motivo para olhares tortos, hoje, a concepção da atividade como algo artístico, que proporciona prazer e gera fonte de renda, vem cheia de quebras de paradigmas. Carla Ramos, de 23 anos, é uma dessas jovens que viu no bordado uma forma de alcançar a independência financeira e construir uma marca. Estudante de Licenciatura em Teatro na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), ela não só produz suas artes, como concilia o trabalho nos palcos com o gerenciamento do próprio negócio.

Foi no Instagram, vendo o trabalho de bordadeiras da sua idade, que a estudante se inspirou. A brincadeira acabou virando trabalho sério em 2017, quando abriu a loja online Avessa para expor seu acervo de acessórios, como brincos e colares, e outros objetos decorados. “Hoje em dia, minha marca é meu primeiro plano. O segundo está sendo o teatro”. Com a grande quantidade de encomendas, que somam cerca de 20 por mês, Carla reduziu a quantidade de disciplinas na faculdade e hoje se sustenta com suas confecções.

Mais do que pelas frases de empoderamento feminino presentes em suas artes, é a independência alcançada por Carla que fez a Avessa ser conhecida pelo discurso feminista. Sozinha, ela planeja suas oficinas, produz as encomendas e desenvolve o próprio site, lançado neste ano. “As mulheres não eram donas das próprias empresas”, lembra enfaticamente. Ela explica, ainda, que o ambiente universitário possibilitou maior contato com a militância, e diz ser impossível desvincular da marca os seus valores feministas internalizados.

Cruzando gerações: Paula Schlindwein, 42 anos, aprendeu seus
primeiros pontos ainda na infância, enquanto observava a mãe bordar. Foto: Eduardo Willrich Schlindwein.

Empoderada pelo bordado, o desafio de Carla passou a ser preparar oficinas para que outras pessoas também se sintam abraçadas pela arte. Uma das mais marcantes foi a aula de bordado em ecobags para mulheres e adolescentes imigrantes do Oriente Médio que buscam um recomeço no Brasil. Em meio às confusões entre as línguas portuguesa e árabe, o desafio de Carla e sua parceira de curso, Kemely Weiss, de 25 anos, era dar às alunas uma nova opção de fonte de renda. A troca de conhecimentos foi tão inspiradora que uma das adolescentes ainda mantém contato, tirando dúvidas e enviando fotos de seus trabalhos.

Por ser uma arte considerada como old fashioned ou antiquada, o resgate atual do bordado é irônico por vir de mãos jovens, que descobriram o gosto pelas linhas na internet. O canal no Youtube Clube do Bordado, comandado por seis mulheres feministas, inspirou Carla — e influência mais de 65 mil inscritos — a soltar a criatividade através da técnica do bordado livre. Já no Instagram, @belabordadeira e @gulush threads são algumas das contas que ajudam a disseminar a atividade a milhares de internautas, que costumam interagir nas publicações de forma positiva.

Também foi na internet que a estudante de nutrição Larissa Vidal tomou gosto pela arte. Depois de ver mulheres autoconfiantes e divulgando seus trabalhos nas redes sociais, passou a buscar por tutoriais online e, aos 22 anos, já gerencia a página Cadê Minha Agulha?, onde publica as encomendas que produziu e mostra seus bordados à venda. Para conciliar a produção com seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a jovem quebra o estereótipo de “coisa de menina” e conta com a ajuda do namorado, que aprendeu a manusear as linhas e agulhas para contribuir com as confecções. Ao todo, já contabilizou cerca de 220 colares e 20 quadrinhos vendidos desde abril de 2018.

Embora o bordado até estivesse presente na família, grande parte do que aprendeu foi pesquisando e praticando sozinha. “Ano passado, pedi umas dicas para minha vó. Ela achou legal e mandou eu ir à luta”, lembra, aos risos. A atividade serviu como ferramenta de aproximação familiar, resgatando memórias e trazendo conexões de ideias. “Hoje, eu sou a única da família que borda. Minha avó fica emocionada, adora as coisas que faço”.

Arte que cura

A possibilidade de expressar suas visões e garantir uma fonte de renda são motivações para os jovens estarem resgatando o bordado e o crochê, reinserindo a atividade no cotidiano. Mas, considerando a exigência de um mundo globalmente conectado e um Brasil recentemente classificado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como o país mais ansioso e estressado da América Latina, dar uma pausa na rotina, respirar e se concentrar na produção manual é uma forma de autocuidado.

Cibele Dias, de 20 anos, compartilha dessa ideia e afirma que “o fato dos mais jovens estarem se tornando artesãos é mais por conta da ansiedade, para olharem para si mesmos”. Fazendo parte do grupo de pessoas que enxerga a arte como uma terapia, ela começou a produzir mandalas há apenas algumas semanas, mas conta que, desde a primeira vez, já se sentiu muito bem por conseguir se concentrar plenamente em uma atividade, mesmo sendo muito inquieta. O valor que recebe com a confecção é só uma das consequências positivas, além da satisfação. “A gente não precisa sofrer fazendo o que a gente não gosta para ter dinheiro”, avalia a jovem.

Quem ensinou a ela os primeiros pontos foi a amiga Daiani Cristina Ribeiro, de 27 anos, que saiu de Bauru, no interior de São Paulo, para aproveitar a boa aceitação de temas e terapias alternativas na Ilha de Santa Catarina. Massoterapeuta, ela se inspirou nos clientes para dar novo significado às linhas de crochê, produzindo mandalas personalizadas. Baseou-se na cromoterapia, uma teoria que diz que cada cor afeta uma emoção ou um aspecto físico, e decidiu que para cada paciente faria uma mandala com cores que lhes seriam úteis para o equilíbrio físico e emocional. Hoje, Daiani produz e vende em feiras de Florianópolis, e garante que os benefícios da arte se es-
tendem a quem as produz.

Com mais liberdade para criar e sem atravessadores, o trabalho do artesão é
minucioso e reivindica muitas etapas até atingir a riqueza de detalhes pretendida. É uma tarefa que exige paciência e concentração para entregar um resultado exclusivo. Daiani conta que não tinha familiaridade com o manuseio das linhas e agulhas, mas algumas aulas no Youtube foram suficientes para conseguir reproduzir as mandalas, que sempre foram seus produtos principais.

Já para a artista visual Paula Schlindwein, de 42 anos, falar e ser ouvido é uma necessidade humana também facilitada pelas artes manuais. “A autorrepresentação do meu corpo e das minhas memórias foi um meio que encontrei para abordar a dor de traumas e experiências do cotidiano”, conta a profissional, que aprendeu os primeiros pontos ainda criança, observando a mãe bordar, e hoje se preocupa em transformar a arte em discurso.

“A gente não precisa sofrer fazendo o que a gente não gosta para ter dinheiro”

A possibilidade de uma mulher criar e recriar a própria história através do bordado é representativa e libertadora, pois muitas dores e frustrações da artista são as mesmas que outras moças levam ao decorrer da vida. “Minha função no mundo, enquanto mulher, é a materialização dos sentimentos que carrego”, explica a artista. Hoje ela usa a arte para mostrar aspirações, perdas, limitações, ilusões, mas também sensações afetivas de amor, pertencimento e alegria. “O bordado tem uma forte relação com esses sentimentos”.

A vez deles

Se os valores contemporâneos fazem parte das artes manuais produzidas pelos jovens em geral, é importante se considerar o papel do homem nesse processo. Um exemplo é o de Matheus Jacques, de 29 anos, que aprendeu com a esposa e estudante Larissa Leyre Ellen, também de 29 anos, a compartilhar os segredos da mesma arte. O casal faz amigurumis, técnica japonesa para criar bonecos e objetos feitos de crochê ou tricô, e vende em feirinhas de Florianópolis.

Larissa Leyre já fazia os bonecos por hobby, mas após se mudarem para a capital catarinense e não encontrarem em prego, decidiram colocar o que ela produzia à venda na internet. Como o negócio deslanchou, o então professor de matemática deixou os números de lado para também se concentrar na manipulação das agulhas.

“Pegar os pontos básicos foi complicado, leva um mês ou dois, mas depois fica mais tranquilo”, conta Matheus, que além de ajudar na produção, é “a cara do negócio”, expondo as peças nas feiras, enquanto a esposa se dedica às novas criações e encomendas para a marca Crochê Arretado. “Ela já está em um patamar acima, então ela cria e eu reproduzo, porque o que ela faz eu ainda não consigo fazer”, explica o jovem.

E se existe algo em comum entre Carla, Larissa, Daiani, Cibeli e Matheus é que todos têm percebido um movimento de resgate do crochê e bordado por parte dos mais jovens, que antes não costumavam se interessar pelo consumo ou produção dessas artes. “As crianças estão, surpreendentemente, bem inteiradas no universo dos crochês”, opina Matheus, lembrando dos seus clientes. Ele admite, porém, que ainda há muitas pessoas que estranham o fato de ele e a esposa serem tão jovens e estarem produzindo crochê. “Ainda hoje tem gente que brinca falando que somos ‘os tios e tias do crochê’, não tem jeito. Mas diminuiu um pouco, eu vejo que tem uma gurizada que está abraçando a causa”.

Mais do que a idade, ver um homem vendendo e manipulando publicamente as linhas de crochê, em meio a tanta mulheres que se dedicam ao ofício, também é questão que gera curiosidade. “Sempre acaba atraindo um pouco a atenção por ser homem e não ser velho”, relata o artesão, que complementa dizendo que os olhares veem de forma positiva, geralmente aumentando o interesse do público pelos seus trabalhos.

O casal produz amigurumis de diversas temáticas, mas o foco principal é o universo geek, com bonecos de Pokémon e personagens do jogo Mario Bros — escolha que veio do gosto pessoal dos artesãos, que se interessam por histórias em quadrinhos, mangás e animes. Por isso, o perfil de seus clientes é composto, majoritariamente, de jovens estudantes. “Atualmente, nós vivemos só da venda dos amigurumis, e acho que 70% do montante de vendas é só da UFSC”.

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    Zero

    Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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