Memória do regime militar na UFSC foi incinerada

A queima de arquivos da Assessoria de Segurança e Informações (ASI/UFSC) eliminou registros do órgão que vigiou o cotidiano do campus por mais de década — ainda que a serviço da ditadura


“Onde está o “arquivo-morto” da ASI? Temos o direito de saber o que há sobre nós em qualquer banco de dados e de corrigir o que estiver errado”, reivindica o ex-reitor Caspar Erich Stemmer. A declaração foi retirada da reportagem publicada em 1987 no Jornal de Santa Catarina. No prédio da reitoria, onde o órgão funcionou, os registros sumiram. No arquivo central da UFSC, há poucas folhas de comprovantes de pagamento. Comparado a centenas de informes produzidos pela ASI, restam poucos documentos no Arquivo Nacional.

O último diretor da ASI/UFSC, José Antônio Ceccato, revelou em entrevista ao Zero que os arquivos do órgão foram incinerados.

No discurso de quem viveu o período, a assessoria aparece das formas mais distintas. Reitor na década de 1970, Stemmer ganhou fama de durão. Ainda assim, a assessoria virou problema. “Fui empurrando com a barriga até o final da gestão. Você sabe, como o governo com a dívida externa. Quando terminei o mandato, o problema ainda existia.”

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O diretor da assessoria em parte da segunda metade da década de 1970 era Tertuliano Cardoso. Ele afirma que não havia nada de político nos documentos produzidos pela assessoria, era “como empresas que buscam o nome dos clientes no SPC”.

Autor de biografia de Stemmer e professor aposentado da UFSC, Arno Blass, lembra:

— Ele nunca admitiu, mas assumiu a reitoria com uma série de pré-condições. Todas as nomeações do Stemmer passaram pelo SNI. O fato que eu fui designado chefe de departamento e passei umas três semanas trabalhando sem ter uma portaria.

Stemmer reclamava da assessoria?

— Ele sabia que tinha de conviver.

Sabiam quem era o diretor?

— Eu não sabia. Vim a saber depois. Um cara lá que eu não dava nada por ele. Não sei o nome. Sei que ele começou a aparecer em outras rodas. Alguém disse, “é da ASI”.

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Único registro da ASI que resta detro da UFSC são pagamentos de correspondências. SNI e outras assessorias eram os destiatários. Fonte: Arquivo Central da UFSC

Uma pequena sala ao lado do gabinete do reitor foi a primeira sede da ASI na UFSC. “A gente nem entrava lá. Era uma papelada, bobajada”, lembra o ex-reitor, Ernani Bayer. Na década de 1980, o setor foi transferido para o térreo da reitoria, no final do corredor que está ao lado das escadas e elevador do prédio. Restam poucas folhas de pagamentos de correspondências — SNI e outras assessorias eram alguns dos destinatários — como arquivo da ASI dentro da universidade. “ Colocou fogo e pronto, acabou, acabou e ponto. A gente não trazia nestes documentos dados de pessoas, nada, eram apenas informes”, alega o ex-diretor da ASI, José Antônio Ceccato.

Filho do fundador da UFSC, David Ferreira Lima recebe a reportagem dentro do Ressacada, estádio do Avaí, projetado por ele. Arquiteto e professor aposentado da universidade, Ferreira Lima lembra da ASI com humor:

— Era tão insignificante que ninguém falava deles. Vi só gente gozando, “que tás fazendo aí? Tá tomando muito cafezinho? A universidade vai te colocar na cadeia porque tá tomando cafezinho demais”.

A estrutura do serviço de informações

Reprodução de organograma da comunidade regional de Informações de Santa Catarina. O desenho foi encontrado em levantamento do SNI sobre os sistemas de segurança e informações dos estados em 1978. Fonte: Arquivo Nacional

Em 1978 a Agência Central do SNI elaborou um estudo sobre a rede de informações de cada estado. O documento revela que no intervalo de oito meses, entre janeiro e o final de agosto daquele ano, os agentes da UFSC fizeram 53 solicitações ao SNI. Pedidos de busca de fichas políticas ou de informações e aval para nomeação de gestores estavam entre as solicitações que poderiam ser feitas. Neste mesmo intervalo, o SNI recebeu apenas uma solicitação do 5º Distrito Naval e cinco da Polícia Federal do estado. O órgão que mais exigiu, com 104 pedidos, foi a Delegacia Regional do Trabalho de Santa Catarina (DRT/SC).

Galeria de documentos

No Arquivo Nacional, divisão de acervos do regime militar, há apenas documentos da década de 1980 da ASI/UFSC. São papéis que estavam guardados em órgão de repressão fora da universidade, como SNI e DSI/MEC. Abaixo, um pouco do que restou:

Secrecataria de Segurança e Informações de SC encaminhou para órgãos de repressão um informe da ASI/UFSC sobre “mais uma reunião comunista”. Era o relato de encontro em defesa do ensino público e gratuito que ocorreu no salão de atos da reitoria.
O Jornal Zero, em 1985, foi fichado pela ASI. Na imagem, a agência central do SNI envia um alerta sobre o jornal para as Centrais de Inteligência do Exército — um dos principais órgãos de censura durante a ditadura — , Marinha e Aeronáutica. O destaque na segunda página é para a presença de um militante do PCB entre os colaboradores do jornal.
Informe da ASI número 296 de 1982 detalhava uma assembleia geral da universidade realizada na ala “C” do RU. Polícia Federal, 14º Batalhão e DSI/MEC receberam o documetno
À esquerda, carimbo da ASI com rúbrica de José Antônio Ceccato, último diretor. O outro documento é um telegrama sobre a criação do Núcleo de Estudos Latino Americanos, também assinado por Ceccato.
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