Muito além do olhar

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Dec 4, 2019 · 10 min read

A arte e a cultura para pessoas com deficiência visual

Sob orientação da Profa. Maria Teresinha da Silva
Texto por Rafaela Coelho

Escultura: No quarto, ao lado de seu antigo atelier, Jussara se equilibra na cama e desbrava as prateleiras com as mãos, em busca de sua primeira escultura representando uma mulher. Foto: Rafaela Coelho

Jussara Maria da Silva, de 62 anos, faz parte do grupo das 21,4% de mulheres brasileiras com deficiência visual, calculados no último censo do IBGE (2010). Perdeu a visão quando trabalhava no INSS como auditora, aos 38 anos, e passou a se dedicar à arte logo após a cegueira. Seus trabalhos tomam forma mentalmente e são desenvolvidos por suas mãos. Transparecem emoções, sentimentos e vibrações. Ela conta que a sua relação com a argila revela sua alma.

Logo após perder a visão, em 1995, devido à contaminação pelo fungo cryptococcus presente em fezes de pombos no local de trabalho, Jussara conheceu a Associação de Catarinense para Integração do Cego (ACIC). Lá, participou de oficinas e aulas para reaprender a fazer coisas básicas, como cozinhar, andar com bengala, usar talheres, mexer no computador e no celular novamente — tudo o que agora é mais fácil e adora fazer. Ela até mostra eventos no Facebook que gostaria de ir, como a 3a edição do projeto cultural “Marcha humana” e a exposição de fotografias em relevo do artista Gabriel Bonfim, no Palácio Cruz e Souza.

Quase um ano após a perda da visão, uma das professoras da associação a incentivou a frequentar aulas de cerâmica. Não seria a primeira vez que Jussara teria contato com a arte. Quando mais nova, graduou-se em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Lá, teve a oportunidade de fazer um curso de cerâmica, que afinal descartou.

“Pensei que era muito trabalhoso e faria muita sujeira e seria difícil achar um lugar adequado para criar as peças. Não acreditava muito que eu ia estudar ao ponto de fazer alguma coisa… achava que não seria possível.” Jussara se descobriu após esse momento. Descobriu sua arte e passou a criar. Máscaras, castiçais, incensários e foi ousando mais. O único limite que tinha era o tamanho do forno em que queimava as peças. Quando começou a trabalhar com a argila crua, fazia figuras muito magras que refletiam como se sentia. Sua arte passou a ser como um reflexo do momento. Em um ponto de suas criações, percebeu que, à medida que ia evoluindo, as meninas, como ela chama as peças, iam engordando. Conta que nessa época tinha começado a se reerguer da morte da mãe e de seu divórcio. Passou a fazer mulheres nuas, mulheres com bebês, grávidas, vasos e esferas. Usava e intercalava com cipó, bordões, cristais. Dava texturas e formas únicas para cada peça.

“A ideia que tinha sobre a arte mudou muito depois da cegueira”

Jussara durante a entrevista, faz questão de mostrar uma peça específica, aliás, um de seus primeiro trabalhos. Sabendo exatamente onde estava, em uma prateleira alta no quarto de hóspedes, sobe na cama e toca por cima de todas as peças e objetos, até a parte mais de fora dessa prateleira. Então encontra o que queria mostrar. “Essa foi a primeira mulher que fiz quando fiquei cega”, diz, entregando-a para ser analisada melhor.

- Dá para notar a diferença da textura e do formato dessa para minhas outras mulheres, né? Ainda não sabia como fazer alcançar as proporções e os detalhes do rosto como faço agora, ela foi bem importante pra mim.

Jussara relata, também, que a concepção que tinha sobre a arte mudou muito depois da cegueira. Foi quase uma ruptura total. Na época que ainda enxergava, era muito insegura, achava que tinha que agradar a todos, tinha que fazer aquilo que os outros gostassem. “Não era o meu querer, o meu pensamento”. Conta que quando ficou cega isso tudo mudou. Não havia mais a preocupação do que o outro iria pensar do seu trabalho — algo que a prendia muito antes. Passou a expressar exatamente aquilo que queria fazer. “Dormia e na madrugada acordava com um pensamento e ia para o atelier fazer aquilo que tinha criado na minha cabeça. Minha produção artística acontecia mentalmente, sem me preocupar com a opinião dos outros. A cegueira me tornou… irreverente de certa forma.”

Jussara perdeu as contas de quantas exposições participou. Já passou por Minas Gerais, Brasília, São Paulo, Santa Catarina. Sempre vendeu quase tudo que levou. “Acho que as pessoas realmente ficavam impressionadas com a minha arte. Era novidade uma pessoa que não enxergava fazendo [arte].” Uma das primeiras e mais marcantes foi no Beiramar Shopping, no começo dos anos 2000. Ela aponta para um nicho abaixo da televisão, onde está um álbum de fotos. Eram lembranças dessa e de outras exposições. Havia ali muitas exposições: fotos dela posando com vasos, das pessoas nos eventos e de suas obras.

Agora Jussara mora sozinha em um apartamento no bairro Trindade, em Florianópolis, tendo voltado a frequentar a ACIC. Com problemas de fibromialgia, teve que parar com a cerâmica. Desmontou seu atelier e agora está fazendo aulas de xilogravuras na associação, usando materiais mais macios, como isopor. E logo faz o convite para a próxima exposição que a sua turma vai montar.

Inclusão cultural

No caminho para a ACIC, os cobradores e motoristas de ônibus já estão acostumados com as necessidades de seus passageiros, acompanham-nos até a entrada da associação, mesmo com obras, chuva ou sol. A Associação Catarinense para Integração do Cego é uma instituição não-governamental, sem fins lucrativos, que tem como missão incluir essas pessoas na sociedade. Atende nas áreas de habilitação, reabilitação, profissionalização, cultura, esporte e lazer. A coordenadora pedagógica da ACIC, Marcilene Aparecida Ghis, informa que a associação foi construída por cegos e para cegos, fazendo com que eles se tornem protagonistas de sua própria história.

Florianópolis é a segunda cidade com o maior número de pessoas com deficiência visual em Santa Catarina, atrás apenas de Joinville, segundo dados do último censo do IBGE, de 2010. A capital catarinense possui 9.198 pessoas com os três níveis de cegueira (ver página 7).

Na recepção da ACIC, dois homens entram pela porta, usando óculos escuros. Animados, eles falam alto sobre um jogo de futebol e comparam os narradores das rádios Guarujá e CBN. Falam como adoram os efeitos sonoros usados pelo radialista Paulo Brank em gols. Contam, também, que o Menininho — narrador da Rádio Guarujá — é muito parcial em suas narrações e deixa a torcida adversária triste pela falta de empolgação. Os dois homens riem e ouvem o horário no celular. São 13h40. Eles entrelaçam os braços e saem gingando pela porta falando sobre futebol.

A rádio tem, historicamente, importância fundamental para a apresentação do futebol e do entretenimento, é uma mídia importante para as pessoas com deficiência visual. Diferentemente da televisão, não tem o apoio de imagens e, por isso, nos jogos de futebol, narra cada passe, cada lance da partida, de forma que é possível a criação de uma imagem mental da disputa como um todo. Infelizmente, esse tipo de narração completa não está presente em todos os lugares ou meios de comunicação. As mesmas técnicas radiofônicas utilizadas para narrar jogos de futebol são usadas para a áudio descrição, uma das formas mais conhecidas para a inclusão de pessoas com deficiência visual em diversos locais. Marcilene conta que a deficiência se amplia quando não se tem acesso, e que a inclusão cultural ocorre por meio da acessibilidade tanto física, quanto atitudinal. Ou seja, é preciso tanto que o local seja acessível, possuindo calçadas e sinalizações adequadas, quanto que os frequentadores e trabalhadores nesses locais estejam abertos a incluir o diferente.

A coordenadora comenta sobre o estranhamento da equipe e dos alunos quando contrataram uma professora de artes habilitada em artes visuais para dar aula. Eles não viam como seria possível atuar nessa vertente da arte. “Pensamos: o que nós vamos fazer com essa profissional? Mas a professora queria tentar. Experimentamos e deu muito certo.” Hoje, a ACIC tem muita tranquilidade em lidar com professores de artes visuais, e oferece oficinas de cerâmica, xilogravura, pintura em tela, dança, música, escultura em papel, crochê e muitas outras. “Entendemos que, sim, era possível”, diz a coordenadora. Para ela, a limitação era uma percepção da associação que, na verdade, não existia. Essa limitação pode ser resolvida por meio de estratégias para poder atuar com as pessoas com deficiência.

Artes para deficientes visuais

A importância de ensinar uma criança cega e de baixa visão a ter acesso à arte e à cultura é incluí-la no mundo. Vivemos cercados de imagens e as pessoas acreditam que, pelo fato de os alunos não verem, ver não é importante para eles.

Diele Pedrozo Santos é coordenadora do projeto “Ver com as Mãos” e trabalha há 13 anos com o ensino de artes para pessoas com deficiência visual. Em sua primeira experiência profissional, já entrou em contato com a educação especial, ensinou artes — desenho mais especificamente — para dois alunos cegos e a partir daí nunca mais largou o contato com a área. Em suas aulas, trabalhava com materiais que deixam os traços em relevo no papel. Conta que lecionou para alunos de diferentes idades que tinham atrasos consideráveis na escola, porque não tiveram a oportunidade de ter o ensino básico que pessoas visuais tinham em uma aula de artes. Os alunos chegavam sem saber desenhar as formas geométricas e conceitos básicos de desenho. Sabiam nomear os objetos, mas não sabiam representá-los no papel.

Diele começou a perceber que era incoerente fazer um aluno representar algo que nunca tivesse tocado e nem enxergado. “Nesse momento, me dei conta que se eles não tinham acesso nem ao ensino básico de artes na escola, não teriam, muito menos, acesso a outras atividades relacionadas às artes e à cultura — como ir em um museu, teatro ou cinema. Então, de fato, eles precisavam se apropriar da arte e do que estava fora da escola também. Eram pessoas que não estavam inseridas na arte e na cultura.”

A coordenadora do projeto salienta que o professor tem papel fundamental no processo de inclusão: precisa esquecer as dificuldades — no caso, o não ver — e pensar nas possibilidades para inclusão. Diele brinca que a cabeça desses jovens é como se fosse uma caixinha que necessita inserção de mais experiências, para assim aumentar o repertório dessas pessoas. É necessário dar oportunidade de acesso à informação. Ela acredita que o papel do professor não é impor informações, mas mediar esse conhecimento.

Abaixo: Na parede da Associação Catarinense para Integração do Cego (ACIC) quatro quadros estão pendurados na parede. Eles foram feitos durante a aula de pintura em tela por pessoas cegas e de baixa visão. Foto: Rafaela Coelho

Quando a professora fala que a cabeça desses jovens é uma caixinha, está se referindo à criação das imagens mentais. Quando se pensa na prática artística da pessoa com deficiência visual, o que vem em mente é a dificuldade dele de pôr a imagem feita mentalmente no papel. O fato é que o olho humano só capta a luz, mas quem interpreta todas as informações é o cérebro. No momento em que os alunos de Diele aprenderam a desenhar e a colocar as experiências no papel, ela passou a entender como eles formavam essas imagens mentais.

“Os alunos, normalmente, não são estimulados a desenvolver a área do cérebro que produz as imagens mentais. Para que isso ocorra, o professor tem de ensinar através das experiências; através da interação do corpo com os objetos, eles são capazes de formar imagens mentais.”

Jussara posa para a foto, tocando uma de suas mulheres. Em seu trabalho, valoriza as curvas e detalhes de suas criações. Foto: Rafaela Coelho

Os estudos da neurologia em que Diele embasou sua dissertação de mestrado condiziam com sua experiência em salas de aula. Quando via seus alunos com deficiência visual desenhando algo que nunca haviam tocado, questionava-se sobre como eles formavam a imagem de objetos, mas logo compreendeu a resposta. O aluno era capaz de criar essa imagem por meio do cruzamento de informações. “Em minhas aulas, passei a disponibilizar para os alunos imagens em relevo, miniaturas, maquetes e descrições da imagem. Todas as informações sensoriais que eles adquiriam através dessas experimentações os ajudava a criar imagens mentais e aumentar seu repertório sobre os objetos presentes no mundo.”

O maior desafio da professora quando trabalhava na educação especial foi mostrar às pessoas a importância da arte na vida desses estudantes. A comunidade em geral achava que estava apenas brincando com os alunos e que o que ensinava não era aprendizado real.

Em 2012, Diele criou o projeto “Ver com as Mãos” e, com a ajuda dos alunos, começaram a mostrar para as pessoas a importância da arte na vida dos cegos. Eles evidenciaram o quanto a arte os transformou em cidadãos ativos — atuantes como consumidores de arte e de cultura — e os ajudou na inserção nos espaços culturais da cidade.

Outro desafio superado foi o problema da invisibilidade das pessoas com deficiência. Todos falavam pelas pessoas cegas ou com baixa visão, e as últimas a terem protagonismo eram elas mesmas. A professora lembra que a inclusão, apesar de ter tido vários avanços nos espaços artísticos culturais nos últimos anos, ainda é um processo. Segundo ela, não se deu por completo e ainda existem muitos paradigmas a serem quebrados. Mas a inclusão e percepção das pessoas cegas e com deficiência visual nesses lugares mudou muito o olhar das pessoas que convivem com essa parte da população.

Deficiência visual
A deficiência visual é dividida em diferentes níveis:

Cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05
no melhor olho, com a melhor correção óptica;
• Baixa visão, que signifi ca acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no
melhor olho, com a melhor correção óptica.

Cerca de 18,6% da população brasileira são pessoas com deficiência visual, podendo ser de nascença ou ter sido adquirida — quando uma pessoa nasce com a visão e, ao longo da vida, a perde por algum motivo.

Acuidade visual é a capacidade do olho para distinguir detalhes espaciais, ou seja, identificar o contorno e a forma dos objetos. Ela depende de fatores ópticos e neurais: da nitidez que a imagem chega na retina, da saúde das células retinianas e da capacidade de interpretação do cérebro.

FONTE: DECRETO No 5.296/04, ART. 5o, §1o, I, “C”, C/C DECRETO No 3.298/99, ART. 4o

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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