Mulheres contra-atacam violência diária

Guarda Municipal de Florianópolis oferece aulas gratuitas de defesa pessoal para elas

Por Aline Dallarosa Lima e Gemyma Medeiros

Preparo físico e psicológico são fundamentais para neutralizar o ataque. #PraCegoVer: mulheres sentadas no chão observam demonstração entre aluna e professor.

O medo e a insegurança acompanham Thamara diariamente no caminho até o trabalho. A designer de moda, de 25 anos, conta que em um dos episódios em que foi vítima de assédio, um passageiro do ônibus em que estava tirou o celular do bolso, apontou para o seus seios e tirou uma foto. “Eu dei um tapa na mão dele, fiz barraco. Foi a primeira vez que me senti assim: preciso me cuidar mais. Não com a roupa que eu uso, preciso me defender de outras formas”. Além de já ter recebido cantadas, comentários obscenos e assobios durante esse trajeto, Thamara conta que certa vez um homem chegou a passar a mão no seu corpo enquanto caminhava na rua. Foi aí que começou a sair de casa com um spray de gengibre na bolsa, comprado em uma casa de pesca. Apesar da sensação de segurança ao portar o spray — que pode ser usado à distância e impede o agressor de abrir os olhos por pelo menos um minuto -, ela também sentiu a necessidade de conhecer técnicas para neutralizar um ataque e estar preparada psicologicamente para se defender em uma situação de risco.

A oportunidade surgiu com as oficinas gratuitas de defesa pessoal para mulheres, oferecidas pela Guarda Municipal de Florianópolis no dia 22 de março como parte da programação do mês das mulheres e do aniversário da capital. Thamara participou das 3 horas de oficina teórica e prática com o instrutor Paulo Limas Filho na base da Guarda Municipal, no bairro Coqueiros. Os dados da violência contra a mulher em Santa Catarina justificam essa iniciativa: só em fevereiro deste ano foram registrados 3.261 casos de lesão corporal, 892 roubos e 488 estupros consumados, segundo as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública (SSP). As 700 inscrições para as 150 vagas do curso de autodefesa demonstram que cada vez mais as mulheres sentem que precisam estar preparadas para se defenderem em caso de violência.

A busca pela independência é outro fator pelo qual mulheres têm procurado técnicas de defesa pessoal. Durante a aula, o comportamento adequado foi demonstrado por meio de simulações de situações de perigo e estratégias para dominar o agressor, sem que seja necessário o uso de instrumentos que possam ferir gravemente. Paulo mostrou que objetos de uso diário, como chaves e canetas, também podem ser instrumentos de autodefesa em um ataque. Com o psicológico preparado, a vítima não será dominada pelo medo e será capaz de agir corretamente, de forma a neutralizar a agressão ou conseguir escapar de uma situação de violência. Entretanto, se o agressor estiver portando armas letais, a recomendação é tentar manter a calma e não reagir a fim de preservar a integridade física e evitar danos maiores. A prevenção é importante para evitar a exposição ao risco, já que o agressor procura pela vítima mais distraída e lugares que favorecem a sua fuga. Atitudes que facilitam o elemento surpresa — estratégia mais utilizada por assaltantes -, devem ser evitadas, como por exemplo utilizar o celular na rua ou no trânsito, estacionar o carro em ruas mal-iluminadas e pouco movimentadas, ficar dentro do veículo estacionado, parar para dar informações.

A autodefesa é um conjunto de técnicas com origem nas lutas marciais, como Aikido, Krav Magá e Judô, e foi adaptada para que pessoas possam se proteger na vida cotidiana. A base da autodefesa é o preparo emocional para enfrentar possíveis situações de perigo aliado às técnicas que envolvem o uso da força física. A importância do curso de autodefesa vai além da insegurança nas ruas: é dentro da própria casa onde há mais registros de violência contra a mulher. Em Santa Catarina, a cada 12 horas uma mulher sofre algum tipo de violência doméstica e a cada oito dias uma mulher morre por causa deste crime, de acordo com o estudo apresentado pelo Mapa da Violência de 2015 e dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP). Como no caso de Edna, de 55 anos, que sofreu violência doméstica, física e psicológica, durante 17 anos de casamento. “Pra mim a violência maior era quando ele começava a me humilhar, entende? Às vezes eu desejava que ele me desse logo um tapa na cara”, desabafa. Hoje, quase 20 anos após o divórcio, Edna ainda procura formas de se proteger e foi este o motivo pelo qual se inscreveu no curso.

Ainda que casos de violência doméstica contra a mulher ocorram frequentemente, muitas vítimas não procuram o Estado para a defesa de seus direitos. Para a delegada Patrícia Maria D’Avila, o silêncio é uma condição histórica em que a mulher é vista como propriedade do companheiro. “Em muitos casos, a mulher se auto censura, ela se pergunta se a culpa da violência é ela ou não; também tem a questão da vergonha, medo de ser julgada pelos outros, medo da exposição pública. Outro desafio que dificulta a atuação dos órgãos competentes na punição do crime é em relação à mulher que volta a conviver com o agressor por motivo de medo, questões financeiras, pressão da família ou por acreditar que a pessoa irá mudar de comportamento. As denúncias podem ser feitas em duas categorias: 1. violência contra a mulher, que é toda e qualquer violação cometida em via pública ou privada (exceto dentro da residência da vítima); 2. violência doméstica, que é a violação cometida dentro do seu lar. A agressão pode ser sexual (estupro, toques, assédio), psicológica (xingamento, manipulação, ameaça, injúria), física (que traga danos a vida da vítima ou material) ou patrimonial (destruição de bens materiais e objetos pessoais). A denúncia é anônima e pode ser feita em qualquer delegacia ou pela Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180).


Spray de pimenta é proibido

É comum em filmes norte-americanos cenas em que a mulher usa um spray de pimenta para se defender de bandidos e agressores. No Brasil, o uso e a comercialização do spray de pimenta malagueta por pessoas comuns é ilegal. A versão da arma de bolsa que é permitida por aqui é o spray de gengibre, que, assim como o spray de pimenta, possui uma capacidade altamente irritante ao entrar em contato com as mucosas. A pessoa atingida terá dificuldades para respirar e não conseguirá abrir os olhos por alguns minutos, tempo suficiente para a vítima se deslocar para um local seguro e pedir ajuda. Pode ser facilmente comprado em sites de lojas especializadas em artigos de defesa e em lojas de pesca. O preço média varia entre R$ 70 a R$ 100.

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