
Pornô sobre mulheres, mas não para mulheres
Apesar de receberem salários até três vezes maiores que os homens e terem contratos mais duradouros, o foco das produções são eles
“Para toda mulher que deu à luz, para todos os pagadores de impostos e cidadãos dessa nação: nós lutamos pela igualdade de todos. Agora é a nossa hora de conseguir igualdade salarial de uma vez por todas, e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos”. Esse discurso foi proferido pela atriz americana Patricia Arquette durante a edição do Oscar esse ano, e arrancou aplausos de outras grandes mulheres de Hollywood, como Meryl Streep e Jennifer Lopez. É estranho pensar que em um ambiente consagrado, que lucra tanto com a figura da mulher, ocorra esse tipo de desigualdade. Só para se ter uma noção, filmes hollywoodianos com protagonistas femininas tiveram algumas das maiores bilheterias desse ano: Mad Max arrecadou 528 milhões de dólares, e a adaptação do livro 50 Tons de Cinza arrecadou 94 milhões só na primeira semana. Mais estranho ainda é imaginar que em um ambiente onde a mulher é objetificada, a indústria pornográfica, as coisas aconteçam da maneira inversa.
Dados da maior produtora brasileira de pornografia, a Brasileirinhas, mostram que enquanto um ator recebe em média mil reais por semana, uma atriz ganha o triplo pelo mesmo período de trabalho. No entanto, o diretor executivo da produtora, Clayton Nunes, explica que isso se deve a uma série de outras obrigações que as atrizes têm e que os atores estão dispensados: “O ator não precisa maquiar o rosto e o corpo, arrumar cabelo e nem se submeter ao ensaio fotográfico. O cara chega cinco minutos antes da gravação da cena e vai embora uma hora depois no máximo”. Enquanto isso, uma atriz passa, em média, de seis a sete horas em um set de gravação.
Por não serem vistas como público-alvo dos filmes, personagens femininas são retratadas de forma pouco realista
Para entrar na Brasileirinhas, as atrizes passam por um processo de seleção. As candidatas devem enviar quatro fotos: uma de frente, uma de costas, uma de lado e uma do rosto. Além disso, têm que responder um questionário e participar de uma entrevista. Já com os homens, o processo é diferente. “Nosso critério restritivo para os atores é conseguir manter a ereção num set de filmagem por pelo menos 40 minutos”, explica o diretor-executivo Clayton Nunes. “Todo mundo acha que é fácil trabalhar no pornô, mas é preciso atender às posições que o diretor pede, num calor tremendo por causa das luzes, dar ângulo para a câmera e gozar só na hora que o diretor manda”.
Apesar da rotina pesada, a atriz Milena Santos — que já chegou a gravar cinco cenas por semana — não se sente pressionada no trabalho e considera o ambiente tranquilo e agradável. A única exceção ocorreu quando a equipe do Profissão Repórter, produzido pela Rede Globo, compareceu a uma gravação. “Fiquei muito intimidada, porque além do pessoal do filme, a Globo estava lá gravando o programa junto”. Em 2005, aos 21 anos, Milena decidiu abandonar o curso de Educação Física para se dedicar à pornografia, depois de ser convidada para assistir à produção de um filme. De início, a reação da família foi um pouco difícil. “Não admitiam que eu fizesse isso, porque eu estudava e tinha uma carreira a seguir. Depois, com o tempo, aceitaram a minha decisão”.
As coisas aconteceram mais ou menos da mesma forma com Bruna Ferraz, uma das atrizes há mais tempo na Brasileirinhas. Não teve apoio da família no começo da carreira, em 2007. A partir de então, ela participa de pelo menos dois filmes por ano, gravando quatro cenas de cerca de uma hora de duração. Quando o assunto é o clima no set de gravação, concorda com Milena: “É tranquilo, já que é um trabalho como outro qualquer. Eu me sinto muito grata por ser uma atriz, sou bem quista e querida por todos. Por onde eu passo, todos me reconhecem. Fico muito feliz em ser quem eu sou”. Mesmo satisfeita com a fama, a atriz quer continuar trabalhando somente pelos próximos dois anos na indústria. Depois, pretende abrir um pet shop.
Mas, apesar do salário maior e reconhecimento profissional, não significa que as coisas corram às mil maravilhas para as mulheres na indústria pornográfica.
Em grande parte das produções, o que vemos em foco é o prazer do homem, tanto dentro da tela — já que a maioria dos vídeos termina com a ejaculação, e não com o orgasmo da mulher — quanto fora dela — segundo dados da Covenant Eyes, um programa americano de filtragem e prestação de contas de internet, 68% dos homens jovens assistem pornografia pelo menos uma vez por semana, contra 32% das mulheres. De acordo com a doutora em Ciências Humanas e especialista em pornografia Maria Eduarda Ramos, os números mostram uma cultura enraizada. “O que se tem hoje é a ideia de romance para mulheres e sexo e pornografia para homens. É como se vários discursos fossem compondo essa imagem das mulheres como não consumidoras do pornô, e quanto mais se fala, mais se reforça isso. Por essas e por muitas outras questões ainda as mulheres não são vistas como consumidoras de pornografias ‘masturbatórias’”.
Por não serem consideradas público-alvo da maior parte das produções, as mulheres são muitas vezes representadas de uma maneira que não condiz com a realidade. Para tentar mudar isso e tornar as produções mais próximas do público feminino, uma vertente alternativa, conhecida como pornografia feminista, vem se destacando. Na produção de um filme feminista, o objetivo é valorizar a imagem da mulher e sua sexualidade, ao invés de privilegiar as fantasias do homem. Alguns desses filmes, no entanto, acabam reforçando outros tipos de estereótipos. “Há questões paradoxais aí: por um lado, é importante ter outros roteiros diferentes aos pornôs hegemônicos, mas por outro, criou-se um roteiro para mulheres brancas, de classe média, heterossexuais, que fazem sexo limpinho e glamouroso e reforçam o estereótipo de gênero”, afirma Maria Eduarda Ramos.
A pornografia feminista surgiu na década de 80, mas só se desenvolveu efetivamente depois dos anos 2000, quando foi criada a premiação internacional para pornografia feminista. A Feminist Porn Awards ocorre desde 2006 no Canadá e, para que o filme concorra, deve ter sido dirigido, escrito ou produzido por uma mulher. Fato interessante, se levado em conta que outras produções cinematográficas a porcentagem de mulheres atrás das câmeras é muito baixa. De acordo com dados do Centro de Estudo sobre Mulheres na Televisão e no Cinema, da San Diego State University, as mulheres foram roteiristas de 11% dos 250 filmes hollywoodianos mais rentáveis de 2014, e diretoras de apenas 7%.
Apesar de apoiar a produção de filmes que valorizam a mulher, Maria Eduarda alerta: “É preciso refletir criticamente sobre isso. Ter um novo roteiro não deveria especificar quem deve excitar e como deve. Não há apenas uma forma de excitação para as mulheres. Há diversidades de desejos, de mulheres e de pessoas em geral”. A pornografia é uma ferramenta política. Tanto pode construir e reforçar modelos, como padrões de corpo e tipos de beleza, quanto disseminar discursos sobre sexualidade diferentes dos tradicionais. É importante que existam produções voltadas para as mulheres, “mas não cabe mais utilizarmos ‘mulheres’ como uma categoria universal”. Cada uma tem sua forma de sentir prazer.
Reportagem: Amanda Ribeiro, Marina Simões, Natália Huf e Paula Barbabela